A gente não quer só comida

Texto e fotografia por Isadora Vicente (isadoravicente96@gmail.com)

Quando o relógio marca 14h, eles começam a chegar. Chegam aos domingos no Parque da Luz, no Centro de Florianópolis, há dois meses, carregando bolas e uniformes. Chegam eles e elas. Chegam de lugares físicos e também simbólicos muito diferentes. “Aqui tu vê uma galera que é rejeitada de todo o Brasil resumida apenas num termo ‘população de rua’, apenas num rótulo. Mas nós temos várias histórias aqui nesse Parque da Luz. Meninas que são mães, meninos que são pais, que perderam seus pais, pessoas que estão sozinhas na rua, na vida, e para quem muitas vezes o momento de lazer é esse agora. Sei que isso aqui é uma grande resposta para todo mundo. São 18 horas preocupados mas agora a gente está rindo”. A resposta é o projeto Esporte para Todos Rua e quem conta é André Schafer, 41, coordenador do Movimento da População em Situação de Rua de Santa Catarina. Nas tardes de domingo, entre 50 e 70 pessoas que estão em situação de rua em diferentes regiões da Grande Florianópolis deixam a bola rolar no projeto organizado pelo grupo. G., que teve a ideia de criar a ação e prefere não se identificar resume: “A gente é um povo muito unido. O projeto não é só o projeto, o projeto é a família. Antes de existir o projeto a gente já era um projeto”. Essa reportagem é o resultado de uma tarde acompanhando a ação.

 

 

O Esporte para Todos Rua surgiu da vontade de várias pessoas em situação de rua de terem um momento de lazer e de ocupar os espaços da cidade. O projeto tem dois representantes, mas fazem questão de frisar que toda a ação é coletiva. Eles já receberam apoios pontuais de universitários de algumas instituições, mas não têm nenhum tipo de patrocínio ou ajuda financeira. “A gente passa uma semana inteira buscando apoiadores, mas a gente gostaria que esse projeto tivesse uma coisa fixa, que tivesse um patrocínio financeiro que não mudasse de nenhuma forma o projeto. Isso é utopia, porque quem patrocina sempre quer coordenar de que forma vai ser”, explica Schafer.

 


 

Entre os benefícios relatados pelos entrevistados estão a socialização, o lazer e a melhora da saúde mental e física. “É bom para sair um pouco do ritmo que é a vida do cara. Quem está nessa vida sabe que é sempre um quebra-cabeça por causa de comida, de dormir, e aqui não. Aqui a gente dá aquela fugida, aquela espairecida, é o refúgio que a gente encontrou. E ver que a gente também tem a condição de fazer a mudança”, falou um dos participantes em uma roda de conversa.

 

 

“Eles não entendem que o esporte é uma forma de estar falando sobre saúde mental, redução de danos, territórios, fortalecimento de vínculos e afetos entre a população em situação de rua. Eles não entendem que um projeto de esporte pode ser a transição para um emprego, uma moradia, que através do esporte a gente adquire disciplina, responsabilidade, eles não entendem que é a rua que cria. Não entendem que tem que ser de baixo para cima e não de cima para baixo.” — Schafer

 

“É mais importante divulgar o esporte onde ele não existe. A visão que se tem da rua é a seguinte: só usar droga, roubar. Mas todo mundo aqui faz algum esporte, a maioria tem algum objetivo, mas ninguém quer saber disso, cada um quer cuidar da sua vida mas cuidando da nossa vida também.” — outro depoimento da roda de conversa

 

 

 

“É legal porque tira o pessoal do foco ruim, de ficar pensando coisa ruim, os pensamentos são outros, é só lazer. Fazer exercício é bom, junta todo mundo da rua, um começa a conversar com o outro. Faz um bem danado. É tipo como voltar à infância, quando eu era pequeno e jogava futebol” – Luiz Eduardo Almeida Teixeira, 28

 

Os participantes se reúnem, jogam futebol, vôlei, fazem rodas de conversa e também partilham um lanche. Tudo é construído em conjunto.

 

“Eles não sabem que já foi o tempo em que o peregrino era só um prato de comida e coberta. Hoje ele sabe dos direitos dele. Se me falar das leis e dos direitos, sei todos. Dia desses fui num postinho pegar o remédio que eu tomo todo dia e não tinha a identidade. Tem uma portaria que diz que população em situação de rua pode pegar a medicação sem identidade. Falei para a mulher e ela ficou “ó! como ela sabia?” – Aline Salles, 35

 

Roni, o “Diamante”, tem 19 anos e morava com a avó no Rio de Janeiro. Quando tinha 12 anos, vieram visitar uma tia na Grande Florianópolis e a avó o deixou com ela. “Eu só queria ficar na rua e teve um dia que ela não me deixou voltar para a casa”. Por que “Diamante?” “É que dizem que pareço com aquele carinha que fez Diamante de Sangue”, fazendo referência ao filme que retrata a Guerra Civil em Serra Leoa no final da década de 90. Roni diz que o projeto faz toda a diferença para se entreter e que praticar esporte, para ele, é saudável e importante. E como é tratado em Florianópolis? “As pessoas são bem preconceituosas. São bem preconceituosos comigo também por causa da minha pele. Eu não ligo, só sigo a minha vida e bola para frente. Não me afeta, só me faz criar mais expectativa para as coisas boas, mais força.” – Roni Carlos Soares Conceição, 19

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