Mares de plástico

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O descaso com o meio ambiente pode mudar toda a dinâmica do ecossistema

Reportagem: Ana Sophia Sovernigo

Garrafas, copos, pratos, talheres, embalagens, cosméticos, artigos de higiene. Praticamente quase tudo que se produz é descartável (e descartado). Por consequência, tudo é efêmero e vira lixo com pouquíssimo tempo de uso. No caso do plástico, esse curto tempo transforma-se em 450 anos até sua decomposição.

Existem vários tipos de plástico: aqueles mais rígidos, os fininhos e fáceis de amassar, os intermediários… Mas todos eles têm algo em comum: ficarão por muito tempo no meio ambiente.

Segundo uma pesquisa realizada pela revista norte-americana Science Advances, cerca de 8,3 bilhões de toneladas de plástico foram produzidas no mundo de 1950 a 2015. Nesses 75 anos, quase 80% dos resíduos acabaram acumulados em aterros sanitários, lixões ou foram despejados no meio ambiente. Apenas 9% foram reciclados.

Entretanto, o que antes saía da porta de nossas casas e aparentemente desaparecia, agora tem começado a se fazer presente na superfície — mais precisamente na superfície dos nossos mares. Entre a costa do estado estadunidense da Califórnia e o Havaí, encontra-se uma “ilha de plástico”, em pleno Oceano Pacífico.

A Grande Porção de Lixo do Pacífico é estudada desde os anos 1970. Devido a dinâmica natural das correntes marítimas, muitos detritos tendem a se concentrar naquela área. Como mostra o estudo publicado pela revista Scientific Reports em março de 2018, a extensão da porção de lixo tem pelo menos duas vezes o tamanho da França.

Esse estudo foi realizado durante uma expedição da Ocean Cleanup Foundation, possibilitando o recolhimento de amostras de lixo. Segundo os pesquisadores, pelo menos 79 mil toneladas de plástico estão flutuando dentro de uma área de 1,6 milhão de km quadrados.

Enquanto o lixo continua lá, o problema só tende a crescer. Para o professor de ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), José Salatiel, o maior problema da produção massiva desse recurso são os chamados microplásticos. Como o nome sugere, o microplástico é uma pequena partícula de plástico, que altera a composição de certas partes dos oceanos, prejudicando o ecossistema da região e, consequentemente, a saúde humana. “Por conter produtos que mexem com o nosso sistema endócrino, quando esses microplásticos caem nas cadeias trópicas marinhas, o peixe que você está comendo tem contaminantes”, explica o professor. Plânctons e pequenos crustáceos se alimentam deles, se intoxicam e fazem o mesmo ao serem comidos por peixes. O processo vai se repetindo até chegar ao próprio ser humano.

Não é novidade que a poluição por plásticos é uma das principais ameaças ambientais aos mares, juntamente com a elevação do nível do mar e o aquecimento dos oceanos. De acordo com o relatório da Ellen MacArthur Foundation, publicado em 2016, a produção de plástico aumentou vinte vezes desde 1964. Esse panorama só tende a piorar: a expectativa é de que o número duplique novamente nos próximos vinte anos e quase aumenta quatro vezes em 2050, quando existirá mais plástico do que peixes no oceano (considerando a densidade).

A mudança da cultura de subsistência para a produção intensiva em escala industrial, aliada ao aumento da expectativa de vida das populações, intensificou o consumismo ao redor do mundo. Os descartáveis são o perfeito exemplo disso. Como aponta o professor José Salatiel, o problema da sustentabilidade está diretamente ligado à economia, que é baseada no consumismo extremo. Somos bombardeados por propagandas e informações que nos incentivam a consumir. “Como alguém vai ser sustentável se é bombardeado a pensar que só é feliz se é consumidor; eu só sou alguém se eu sou consumidor; eu só tenho poder se eu consumo”, comenta.

MOVIMENTO LIXO ZERO

Nesse cenário, o zero waste lifestyle, ou estilo de vida lixo zero, em português, surge como uma das tentativas para viver com o menor impacto possível ao meio ambiente. O movimento propõe a diminuição drástica no consumo de plástico e erradicação de produtos descartáveis. A reciclagem e reutilização é o ponto chave desse estilo de vida minimalista.

A intenção do movimento não é reciclar mais, na verdade é o oposto: produzir menos para consequentemente gerar menos resíduos, logo a necessidade dos processos de reciclagem se torna menor.

Esse movimento se popularizou com o blog Zero Waste Home (Casa Lixo Zero, em português) da francesa Bea Johnson, criado em 2008. Ela e a família se propuseram a um desafio: reduzir sua quantidade anual de lixo a um pequeno pote de vidro. Hoje, ela viaja o mundo para dar palestras sobre esse estilo de vida, apresentando seu livro, que leva o mesmo nome do blog. “Recusar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Apodrecer (e somente nessa ordem) é o segredo da minha família”, aponta ela em suas redes.

O que nasceu em um blog na internet acabou tornando-se um movimento que vem ganhando força ao redor do globo. No Brasil, uma das precursoras foi a designer Cristal Muniz, de Florianópolis/SC.

Em 2015, inspirada pela iniciativa de Lauren Singer, criadora do blog Trash is for Tossers (Lixo é para otários, em tradução livre), Cristal criou seu próprio blog, chamado Um Ano Sem Lixo, para compartilhar sua experiência com a filosofia lixo zero. Para ela, o fato de criar o blog foi como um compromisso público para que de fato ela assumisse esse estilo de vida. Não foram mudanças drásticas, tudo foi aos poucos. Para parar de comprar um produto industrializado, por exemplo, ela terminava de usar tudo o que já possuía.

Cristal se inspirou em receitas na internet para substituir vários produtos do seu dia a dia: shampoo, sabonete, lenço demaquilante, detergente, sabão para lavar roupas, desinfetante, por exemplo. Além disso, sua alimentação tornou-se mais saudável, porque ela começou a optar por produtos orgânicos e de produtores locais, além de utilizar mais especiarias brasileiras.

A principal dificuldade foi adaptar as coisas que aprendeu com blogueiras estrangeiras aqui no Brasil, mais especificamente em Florianópolis, onde mora. Com um pouco de pesquisa, conseguiu encontrar alternativas produzidas no país. Com relação aos descartáveis, quase todos tem solução. O maior problema são questões que envolvem procedimentos médicos e de saúde, como preservativos, remédios, injeções e catéteres, por exemplo.

Atualmente, a designer viaja o país para falar sobre a filosofia lixo zero e divulgar seu livro, Um Ano Sem Lixo, onde explica como foi sua jornada e dá dicas para quem quer começar

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Apesar de serem importantes, as iniciativas individuais não resolvem totalmente o problema. As grandes cidades só tendem a crescer cada vez mais, ocupando lugares de preservação natural. Toda a questão do lixo está envolvida a isso

Algumas cidades pelo mundo já aplicam o conceito de lixo zero como meta, como São Francisco, nos Estados Unidos, onde 82% do lixo vai para reciclagem ou compostagem. No Japão, a cidade de Kamikatsu já atingiu níveis de 90%. Na Itália, mais de 200 cidades assumiram o compromisso.

A realidade no Brasil, infelizmente, está muito longe da filosofia lixo zero. Há muito trabalho a ser feito, o debate precisa ser ampliado e, através de políticas públicas, implantar soluções efetivas.