Estudantes se unem por uma UFSC inclusiva

Written by admin on . Posted in Reportagens

Reportagem: Joelson Cardoso (joelsonc.cardoso@gmail.com)

As dificuldades e as limitações enfrentadas diariamente por estudantes com deficiência ao circular pelo campus da Universidade levaram um grupo de alunos a se unirem, desde o segundo semestre de 2016, para lutar pelos direitos dessas pessoas dentro da UFSC. Das primeiras conversas e encontros entre eles surgiu o movimento “Por Uma UFSC Inclusiva”, reunindo estudantes com e sem deficiência com o objetivo de buscar, entre outras coisas, maior acessibilidade e inserção no ambiente universitário. “Nossa luta é por direitos e inclusão em sua totalidade. Reivindicamos acessibilidade arquitetônica, informacional e atitudinal, mas também visibilidade, consciência e respeito,” descrevem-se na apresentação do coletivo.

Grupo de estudantes se reúne desde o segundo semestre do ano passado para discutir questões de acessibilidade e visibilidade das pessoas com deficiência na UFSC. Foto: Divulgação Por Uma UFSC Inclusiva. #ParaCegoVer Um grupo de dez pessoas e um cão guia posam para a foto. Cinco deles estão em pé, atrás dos que estão sentados. Três mulheres estão com cadeira de rodas e outras duas estão sentadas em cadeira comum. O cão guia de pelos brancos está de costas para a foto.

Grupo de estudantes se reúne desde o segundo semestre do ano passado para discutir questões de acessibilidade e visibilidade das pessoas com deficiência na UFSC. Foto: Divulgação Por Uma UFSC Inclusiva. #ParaCegoVer Um grupo de dez pessoas e um cão guia posam para a foto. Cinco deles estão em pé, atrás dos que estão sentados. Três mulheres estão com cadeira de rodas e outras duas estão sentadas em cadeira comum. O cão guia de pelos brancos está de costas para a foto.

Apesar do trabalho e de alguns esforços de setores da UFSC em diminuir os problemas de acessibilidade no campus, muita coisa ainda precisa ser feita. A infraestrutura do campus é apontada por eles como o maior problema. “As calçadas são bem irregulares, tem buracos, as rampas, quando existem, tem uma inclinação maior do que a permitida, não tem piso guia ou ele é colocado de forma errada, falta de elevadores, laboratórios com bancas muito altas para quem usa cadeira de rodas…”, enumera Thaís Becker, 22 anos, estudante de Direito. Ela sofreu um acidente de carro há dois anos e ficou tetraplégica. Desde então usa uma cadeira de rodas motorizada e sentiu as dificuldades quando voltou às aulas. “Eu simplesmente parei de frequentar a universidade, eu ficava restrita só ao meu centro porque era inviável eu ir até a biblioteca, por exemplo, porque a acessibilidade é muito ruim”, relata.

Luísa Harger da Silva, 22, do curso de Arquitetura e Urbanismo, também conhece esses problemas. Ela passou a usar cadeira de rodas após um acidente e conta que sempre precisava de alguém para empurrar sua cadeira para vencer os desníveis. Agora, a estudante usa prótese de perna e encontrou novos desafios. “Apesar de ter voltado a caminhar, os percursos irregulares, lisos e sem corrimão, fazem-me optar por caminhar acompanhada, ou com apoio, em prol da segurança”, conta. “Os caminhos entre os centros são bastante inacessíveis e de difícil leitura em termos de identificação de rampas, acessos, vagas reservadas e outros recursos como sinalização tátil”, acrescenta Luísa.

Foi na tentativa de resolver essa primeira demanda que o grupo elaborou um questionário e aplicou junto aos alunos, e com isso, mapearam os pontos mais críticos de infraestrutura da universidade. A partir daí, apresentaram o primeiro projeto, denominado “Rota Segura”, que pretende criar um caminho acessível, resolvendo a questão de acessibilidade em alguns lugares importantes da UFSC, ligando determinados espaços como o ponto da BU, a própria biblioteca, a Reitoria, o Centro de Cultura e Eventos e o RU. A Administração Central acolheu a ideia e incorporou ainda questões de segurança com a melhora da iluminação e a implantação do monitoramento de câmeras nas entradas do campus e vias internas. A UFSC recebeu a garantia de cerca de R$ 1 milhão para a implantação do projeto por meio de emendas parlamentares e no momento, ele está no Departamento de Projetos de Arquitetura e Engenharia (DPAE) para elaboração do orçamento e, em seguida, deve ser licitado. “A acessibilidade é bom para todos. Qualquer um pode fazer um trajeto com mais facilidade”, defende Thaís.

Mas não são apenas as questões de estrutura física que se busca resolver. O coletivo busca também por acessibilidade atitudinal, que se refere a percepção do outro sem preconceitos, estigmas e discriminações. Os alunos se organizam por meio de reuniões abertas, promovendo momentos de reflexão sobre a realidade das pessoas com deficiência, compartilhando experiências pessoais e pensando ações de atuação. Desde maio deste ano, uma página no Facebook foi criada como espaço de divulgação, conscientização e publicação de conteúdos relacionados ao tema bem como as atividades realizadas por eles. “Acredito que uma identidade enquanto grupo não só nos traz mais força na reivindicação de direitos, mas também no desenvolvimento pessoal em geral”, observa Ana Santiago, 19 anos, estudante com deficiência visual de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas.

Deficientes da UFSC

Levantamento realizado pela Coordenadoria de Acessibilidade Educacional (CAE), setor vinculado a Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades (Saad) da UFSC, a partir de dados coletados pelo Sistema de Controle Acadêmico da Graduação (CAGR), mostram que a Universidade possui 177 estudantes com deficiência. O maior número é de alunos com deficiência auditiva: 56 no total. Na sequência aparece a deficiência física e deficiência visual – baixa visão com 39 e 33 graduandos respectivamente. Os dados, no entanto, não são precisos. “Temos conhecimento do ingresso dos estudantes com deficiência basicamente por duas vias: quando solicitam alguma condição especial no vestibular e/ou pela declaração no CAGR. Mas eventualmente há estudantes com deficiência não mapeados”, explica Vivian Ferreira Dias, fonoaudióloga do CAE.

O curso de Letras-Libras, ofertado no campus central da UFSC, na Trindade, em Florianópolis, concentra o maior número de deficientes em um curso presencial. São 35 alunos, sendo nove com deficiência auditiva, 24 com surdez e duas com surdocegueira. Já o curso de Educação a Distância (EaD) de Libras possui 36 pessoas com deficiência, sendo 32 com deficiência auditiva, três com surdez e uma com surdocegueira. Além desses dados, a coordenadoria também levantou os números de pessoas que declararam ter mobilidade reduzida, dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). São 50 alunos nessas condições.

Esses números devem aumentar nos próximos anos. Isso porque, a UFSC, a partir do vestibular deste ano, vai aderir às cotas para pessoas com deficiência. A medida atende a Lei nº 13.409 sancionado no final de 2016, que institui a nova modalidade de cotas em universidades públicas e institutos federais de todo o país para pessoas com deficiência que frequentaram escolas públicas durante o ensino médio. A porcentagem das vagas reservadas deve, segundo o texto, ser no mínimo igual à proporção de pessoas com deficiência em cada estado. Em Santa Catarina, por exemplo, o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, apontava que 21,31% da população possuía deficiência.

“Acho um passo muito importante. Tanto para que obviamente mais pessoas com deficiência possam entrar no ensino superior, quanto para que possamos ser mais vistos e problematizar essas questões de ensino”, defende Ana. Vivian destaca que o aumento desses estudantes e das mobilizações do grupo “Por uma UFSC Inclusiva” estão trazendo mudanças e farão a universidade cada vez mais pensar no assunto. “É um momento no qual todos nós teremos que nos mobilizar. Porque a inclusão não pode ser vista como uma tarefa individual, que demanda a adaptação e reabilitação da pessoa com deficiência, mas uma mobilização de todos nós”, diz.