Como aprendem as crianças com autismo?

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Reportagem de Isadora Vicente (isadoravicente96@gmail.com ) e Larissa Liz (larissafliz@gmail.com)

Da mesma maneira que deveriam aprender todas as crianças: de acordo com as particularidades de cada uma. Nomear o que está acontecendo, usar frases simples e elementos visuais são técnicas que podem facilitar o aprendizado de algumas crianças que têm a condição, mas não há regra

Foto:  Beatriz Tenfen de Sousa

Assim que acorda, M. 8, liga a televisão do quarto onde dorme para assistir ao desenho animado de uma galinha conhecida entre as crianças enquanto segura um cachorro de brinquedo. Depois de algum tempo, seu irmão E. 6, desperta na cama ao lado idêntica a sua e a semelhança entre os dois é visível: Se M. não fosse mais alto, poderiam até mesmo passar por gêmeos.

Os garotos moram com os pais e os avós em um bairro de Florianópolis, onde passam a maior parte do dia. A rotina inclui três refeições principais, ir à escola, brincar, assistir desenho e dormir. Poderia ser o dia a dia de qualquer criança, exceto por um detalhe: eles fazem parte do grupo de 2 milhões de brasileiros que vivem com autismo. Os dados são da Organização da Nações Unidas (ONU), que estima 70 milhões de pessoas com a condição a nível mundial. A atual edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, divulgada em maio de 2013, reuniu autismo, síndrome de Asperger, síndrome de Heller e transtorno invasivo do desenvolvimento, noque classificou como transtorno do espectro autista. A incidência do autismo é quatro vezes maior em meninos e têm causas ainda desconhecidas, sendo melhor definida por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. O autismo pode aparecer em três graus – leve, médio e grave– com sintomas como comprometimento da comunicação e interação social, comportamentos repetitivos, áreas restritas de interesse e dificuldade de manter a atenção compartilhada, ou seja, se concentrar em uma atividade compartilhando o momento com outra pessoa.

A psicóloga Camilla de Amorim Ferreira, 32, explica que cada criança tem particularidades.  “É importante esclarecer que as crianças com autismo são muito diferentes entre si. Tem coisas gerais que podemos supor a partir do diagnóstico, mas de algumas coisas só poderemos ter certeza com o convívio com as crianças”, enfatiza. Atualmente em licença para capacitação, Camilla é psicóloga escolar no Núcleo de Desenvolvimento Infantil (NDI), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), instituição que atende hoje seis crianças com Transtorno do Espectro Autista. O processo de ensino da escola é baseado na autonomia das crianças, com atividades que ensinam a se comunicar e se relacionar com os outros e a lidar com o próprio corpo e com os sentimentos.

Foi lá que a pedagoga Beatriz Tenfen de Sousa fez estágio não-obrigatório durante a faculdade e acompanhou os processos educativos com as crianças citadas no primeiro parágrafo da reportagem e, posteriormente, foi contratada pela família para trabalhar com os garotos. Por não ter experiências anteriores com autismo, ela lembra que no início sentiu receio de não saber como se relacionar com os meninos. “A gente tem muita impressão de que o autista vive num mundo isolado dele e não é nada disso. A partir do momento em que criamos um vínculo, os dois foram muito carinhosos, sempre vinham me abraçar, pedir beijo e colo”, conta. Até a adaptação, os meninos preferiam ficar sozinhos com as brincadeiras que gostavam, como na hora do parque, mas eram incluídos em todas as atividades porque, como relembra Camilla, a interação é necessária para o desenvolvimento de todas as crianças. “Não é só permitir que a criança esteja num espaço coletivo, é permitir que ela esteja incluída se desenvolvendo da melhor maneira possível, atendendo às especificidades dela e isso vale para todas as crianças”, destaca a psicóloga. Depois da adaptação, as crianças chamavam os meninos para brincar e eles se interessavam pelas atividades do grupo, ficavam curiosos e se aproximavam para participar, com a ajuda dos estagiários. “As crianças autistas possuem um olhar muito específico do mundo e esse jeito reflete em como elas brincam”, diz Beatriz. A professora relembra que quando algumas crianças com autismo gostam de determinada coisa, se concentram em tudo o que lembra essa preferência.

É o caso de M. com animais. “Quando vê fotos dos animais, ele ouve e reproduz o som que fazem, associa as letras dos nomes dos bichos ao alfabeto. Partir de algo que seja do interesse da criança permite estimular o desenvolvimento de diferentes formas”, explica. Nomear o que está acontecendo, usar frases simples, trazer elementos visuais e priorizar comportamentos repetidos são técnicas que podem facilitar a aprendizagem de algumas crianças. Não há nenhum exame para detectar a condição, o diagnóstico é exclusivamente comportamental. No caso de M., o avô materno notou que havia algo diferente porque ele não reagia a alguns estímulos e não emitia sons quando era bebê. Enquanto a família investigava o comportamento do menino, a psicóloga que acompanhava o caso notou semelhanças em E.

Camilla conta que é importante realizar o diagnóstico mais de uma vez, para excluir outras possibilidades, mas lembra que a confirmação não deve ser usada para rotular a criança ou justificar suas atitudes. “O diagnóstico não pode servir como uma camisa de força ou para determinar como a criança vai ser, mas sim como algo que vai ajudar a procurar caminhos para promover um melhor desenvolvimento.” Para M. e E., o caminho inclui atividades extras, como aulas de natação e de surf e andar a cavalo, além de acompanhamento com psicólogos e fonoaudiólogos.

Os dois meninos não falam, mas gostam muito de abraço e de contato. O interesse por animais de M. é substituído por texturas em E.: o menino adora tocar. E. também é sensível à luz e prefere ambientes mais escuros. Tirando essas particularidades, os dois participam de todas as atividades da família, como passear no shopping, fazer compras no supermercado e escolher os alimentos que gostam. “É uma pessoa igual a qualquer outra, é uma criança que tem características além do autismo. Não se pode esconder ou supervalorizar e resumir a pessoa àquela condição”, observa Camilla. A psicóloga acredita que o caminho para as crianças com autismo ou quaisquer outras diferenças é incluí-las em todos os espaços, sem esperar condições ideais para a inclusão. Ela relembra que as gerações anteriores não tinham contato com a diversidade e isso causava estranhamento. Para Camilla, a geração atual terá uma relação com a deficiência muito diferente, melhor. “Quanto mais a gente dá espaço para as pessoas autistas ou com deficiências participarem, mais os outros vão ter contato com isso e desenvolver uma postura mais positiva em relação às diferenças”.

 

Fonte do Infográfico: Constituição FederalLei de Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, Emenda Constitucional nº 90, de 2015