Dandara Manoela: “a minha música mudou a minha vida”

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Foto: reprodução Facebook.

 

Mulher, negra, lésbica e vencedora do Prêmio da Música Catarinense 2017 nas categorias melhor cantora e artista revelação com a Orquestra Manancial da Alvorada. Essa é Dandara Manoela, que aos 26 anos lançou seu primeiro CD, o Retrato Falado, dia 14 de agosto deste ano no Teatro Álvaro de Carvalho, o TAC. A realização do CD foi possível devido a um financiamento coletivo feito através da plataforma Catarse entre 13 de março e 11 de maio de 2018. A meta era  arrecadar R$ 25 mil, mas as contribuições chegaram a mais de R$ 28 mil. Dandara também é vocalista da banda de samba reggae Cores de Aidê e integra a banda Orquestra Manancial da Alvorada.

Natural de Campinas, São Paulo, veio para Florianópolis em 2014, após ser aprovada em Serviço Social na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A um ano e meio de se formar, faz estágio no Centro de Educação Popular (Cedep), no Monte Cristo.

Retrato Falado é espelho, denúncia e expressão.

Cotidiano: Faltando pouco tempo para se formar em Serviço Social, como é a rotina de uma cantora, compositora, percussionista, aluna e estagiária?

Dandara: É uma rotina definitivamente maluca. Eu tenho alguns períodos de folga, às vezes. Mas, na verdade, nunca é folga porque sempre tenho alguma coisa pendente da faculdade ou alguma música para “tirar”. Tem sido o semestre mais intenso (risos) dos últimos anos. Eu tento me manter focada e calma para conseguir fazer dar tudo certo, principalmente na faculdade, que se tudo for como o esperado eu me formo ano que vem. Acredito que então as coisas vão seguir um pouquinho mais tranquilas. Ou não, né? (risos). Estou tentando ter bastante foco porque para mim é muito importante concluir a faculdade. Se não for agora, vai ser mais difícil depois… a carreira, enquanto cantora, tem me consumido bastante. Eu to bem feliz com isso, com o reconhecimento que isso demonstra.

Cotidiano: De que forma a Dandara Manoela assistente social contribui na performance da Dandara Manoela cantora?

Dandara: Danada Manoela futura assistente social contribui completamente. Eu tento manter isso associado o tempo todo. A leitura que eu faço da sociedade, a lente que eu uso, tem muita influência do Serviço Social e do que aprendi. A partir do momento que entrei na faculdade, não só o Serviço Social, mas meu contato com o movimento estudantil e o movimento negro acrescentou muito no que eu levo para a minha música. A intenção é ser uma música com uma lente crítica, para fazer refletir e transformar. Eu tento fazer com que as duas coisas andem de mãos dadas. Tanto que eu sempre penso: o Serviço Social não é uma segunda opção, é uma formação enquanto pessoa.

Cotidiano: Qual a principal dificuldade de uma mulher negra e lésbica no mercado da música?

Dandara: Existem dificuldades para uma mulher negra, lésbica e pobre em qualquer área. No campo da música, assim como no campo artístico, parece que tem uma “tolerância” maior. É como se fosse um lugar mais tranquilo de estar, as pessoas nos “toleram” ali. Ainda assim, já encontrei barreiras. Mas eu penso que diferente das outras áreas, aqui é assim: “Ah, está aqui, beleza. Aqui vocês podem estar”. O que não é bom, porque na verdade a gente tem que poder estar onde a gente quiser e falar sobre o que a gente quiser. Usar esse espaço para falar de tantas outras coisas, política principalmente, onde ainda não é um lugar tranquilo para uma mulher negra e lésbica estar e falar. Como exemplo, a Marielle (Franco).

Cotidiano: O que o prêmio de Melhor Cantora da Música Catarinense 2017 representa para você?

Dandara: O prêmio de Melhor Cantora Catarinense foi muito simbólico. Para mim valeu muito mais que um prêmio. O que valeu de verdade é o que ele representa. Isso de melhor cantora é relativo, mas o fato de eu ter ganhado é um resultado de todo o meu trabalho e do que eu tenho conquistado em Santa Catarina. Ainda mais estando nessa região, sendo uma mulher preta e lésbica, foi muito significativo. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida! Quando eu ouvi meu nome saí pulando e gritando porque eu sentia que o prêmio não era meu, era de todos que eu sinto que represento e que me representam também.

Cotidiano: Como surgiu a ideia de recorrer ao financiamento coletivo para lançar o CD “Retrato Falado”?

Dandara: Eu já tinha pensado algumas vezes em recorrer ao financiamento coletivo para  gravar um CD, mas sempre resisti muito porque eu tinha medo de não dar certo. Fiquei meio desconfiada de colocar tanta energia em algo que precisava de muitas pessoas envolvidas para se realizar. Depois do Prêmio da Música Catarinense eu entendi que talvez fosse a hora, que tinha muita gente disposta a contribuir. No Prêmio da Música Catarinense, na etapa de voto popular, eu fiquei em segundo lugar, mas com muitos votos. Eu via que compartilhavam e pediam votos e pensei: “esse pessoal realmente está torcendo por mim, acho que posso contar com eles”. Foi ali que decidi fazer essa aposta. E o Retrato Falado, especificamente, foi depois de um show que eu fiz no Sesc em novembro (2017). Foi um show de última hora, corremos para organizar e chamei os músicos que são meus amigos. O Guilherme Meneghelli, do canal REC’n’play, filmou. Depois, quando eu assisti, sabia que era aquele o meu CD, o que eu queria. O CD meio que já estava pronto, eu encontrei ele e fiquei morrendo de vontade de realizar esse sonho.

Cotidiano: 360 pessoas contribuíram financeiramente pelo Catarse. O que elas significam pra você?

Dandara: Significam coletividade, aprendizado para compreender o quanto somos mais fortes quando não estamos sozinhos. Só tenho a agradecer… mesmo! Na verdade, eu sei que são muito mais de 360 pessoas. Teve muita gente que não pôde colaborar financeiramente, mas colaborou escutando meu som, torcendo, mandando boas vibrações… Eu realmente me senti muito abraçada, muito acolhida. Foi um momento importante, porque eu consegui ver numericamente que há pessoas que acreditam no que estou fazendo. Isso dá uma força gigantesca, um fôlego gigante para continuar.

Cotidiano: Você acredita que sua música pode mudar a vida de alguém?

Dandara: Não de forma mágica. Mas, a comunicação muda a vida das pessoas e a música é uma forma de se comunicar e se expressar, de partilhar e trocar. Eu posso dizer, com certeza, que a minha música mudou a minha vida. Quando eu tive coragem de falar sobre certas coisas e eu mesma ouvi, muita coisa se transformou aqui dentro. Eu acredito que essas mesmas músicas podem tocar algumas pessoas, que o conjunto de vivências dessas pessoas junto com essa minha pequena contribuição sejam capazes de transformar. É um sentimento de não se sentir sozinha, se sentir acolhida e representada. Um sentimento de levar um tapa na cara e compreender algumas coisas que nunca tinha pensado. Acho que tudo isso contribui para a transformação das pessoas. E, talvez, algumas músicas minhas possam gerar esses sentimentos, mas também depende de quem está ouvindo e de quanto a pessoa está aberta para ouvir e acolher o que está sendo falado.

Cotidiano: Em sua música “Mulher de Luta” há uma forte mensagem de empoderamento feminino. Você se inspirou em alguma mulher em especial para compor essa música?

Dandara: Essa música eu fiz inspirada na minha amiga, assistente social também, Ingrid Maria, que foi minha primeira amiga aqui em Florianópolis. Eu fiz para ela de aniversário e ela ficou morrendo de vergonha (risos). A Ingrid é muito humilde, então acho que no fundo ela nunca achou muito legal essa música ter sido inspirada nela. Um ano depois, ela veio com uma poesia incrível (ênfase) falando de tantas outras mulheres, como uma resposta a minha música. Então virou um casamento. Não canto mais a música sem a poesia, mesmo agora que a inspiração virou todas as mulheres de luta.

Cotidiano: Seus irmãos mais novos, Caio e Lucas, seguem seu caminho artístico na criação de  passinhos de dança. O talento é de família?

Dandara: Eu acho que rola uma energia artística dos dois lados da família, tanto de pai quanto de mãe, e eu sou muito feliz por isso. E sobre o Caio e o Lucas… nossa! Como eu amo aqueles meninos! Mas além dos passinhos, eles são super percussionistas também. Têm todo um gingado, uma magia, que vem de uma energia ancestral mesmo. Eu fico na vibração, na torcida, para que se for melhor para eles, eles sigam nesse caminho da arte, que alimenta a alma e dá força. Se eles quiserem isso, terão sempre o meu apoio. E se não também… tudo bem (risos). Eles realmente são incríveis e uma inspiração para mim.

Cotidiano: Há uma semana você colocou um vídeo na história do Instagram fazendo uma aula de sapateado. O público pode esperar ver esse novo talento nos próximos shows?

Dandara: No final do ano passado eu conheci a Marina Coura, que me convidou para participar de um espetáculo de sapateado de final de ano da escola dela, a Garagem da Dança. Eu cantei uma música minha, Mulher de Luta, inclusive. Foi uma experiência incrível! O espetáculo dela é chamado “Marias” e cada apresentação homenageia uma mulher diferente. Fizemos três apresentações em dois dias e ah… (suspiro) eu mal tenho palavras para descrever, fiquei realmente encantada! Foi a primeira escola que eu vi tratando de uma questão tão importante, como o gênero, em um espetáculo que envolveu pessoas de todas as idade. Esse ano aconteceu o evento Floripa TAP, também organizado pela Marina, e ela me chamou de novo para repetir a apresentação e fazer mais duas músicas com outros sapateadores internacionais. E novamente eu fiquei fascinada! Participei também dos outros dias de evento e, ao ver eles sapatearem, senti um desejo gigante de começar sapatear também. Não um desejo profissional, mas como mais uma forma de extravasar e me expressar. Por isso rolou a tentativa, fui fazer uma aula experimental e adorei. Postei o vídeo toda empolgada, mas por uma questão de horários e eu já fazer um malabarismo com a vida, neste semestre e no próximo não vai dar. Mas fica um desejo vivo (ênfase) porque sou uma nova apaixonada pelo sapateado. E quanto à surpresa… não vai ser por agora, pelo menos não eu sapateando (risos).

Cotidiano: Se você pudesse voltar ao passado e encontrar a Dandara Manoela que estava prestes a se mudar para Florianópolis, o que diria para ela?

Dandara: Eu diria: “se joga, só vai”. Hoje eu vejo que vir para Floripa, e tudo que essa mudança tem trazido para mim, foi uma das melhores coisas que eu poderia ter feito na vida .