Pescadores retiram meia tonelada de lixo do rio Ratones

Reportagem por Georgia Rovaris, Mariana Machado e Rodrigo Barbosa 

O rio Ratones forma a maior bacia hidrográfica de Florianópolis e nomeia o distrito onde estão localizadas suas nascentes, no centro-norte da ilha. Apesar de ser um dos rios ecologicamente mais importantes da região, o Ratones vem sofrendo com a poluição. A Associação dos Pescadores do Rio Ratones (APRR) organiza um mutirão de limpeza do rio uma vez por ano. O mutirão deste ano ocorreu no último sábado, 11 de maio, e percorreu cerca de cinco quilômetros. Em pouco mais de três horas, foram coletados aproximadamente 500 quilos – ou meia tonelada – de lixo.

O lixo, retirado pelos pescadores, é jogado na água ou trazido por enchentes. Vários quilos de plástico, fragmentos de móveis e eletrodomésticos e até mesmo uma bateria de carro foram retirados das margens do rio pelos pescadores, que também contaram com a ajuda da ONG Floripa Plástico Zero. “A gente organiza o mutirão para retirar esse lixo, fazendo a nossa parte, como comunidade, como associação. É o mínimo que a gente pode fazer”, relatou Orlando Silva, diretor da APRR.

Os pescadores também se preocupam com o esgoto doméstico. O esgoto de loteamentos clandestinos vai para valas e desemboca no rio, assim como o esgoto vindo da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), de Canasvieiras, despejado no rio Papaquara, o principal afluente do rio Ratones. Com isso, acontece a proliferação de micro-organismos nocivos à saúde, a diminuição da quantidade de oxigênio na água e, consequentemente, a perda da diversidade marinha.

Ratones não possui uma rede coletora de esgoto. “A intenção [da implantação de uma rede coletora] era para 2035, mas as associações brigaram, o que reduziu o prazo e é para entrar agora em 2021, mas ainda teremos mais dois anos recebendo esgoto. E cada dia que passa aparece mais uma construção irregular. Esse problema poderia ser resolvido pelo município, mas nós temos um município que não tem uma administração séria em relação ao meio ambiente”, enfatizou Silva.

Esses problemas se somam a alterações no leito do rio que começaram a ser feitas ainda na década de 1950. Para tornar as áreas de pastagem do norte da ilha menos vulneráveis à ação das marés, comportas foram feitas para barrar a entrada de água salgada. Hoje em dia, as comportas não estão mais em funcionamento, mas suas estruturas seguem modificando o fluxo do rio, o que também dificulta a atividade pesqueira da região. Parte do rio também foi retificada para a construção de estradas, o que contribui para seu crescente assoreamento.

O rio Ratones é o grande estuário, o berço de todas as espécies econômicas que aparecem na Baía Norte, no pontal da Daniela, especialmente o camarão. Se o rio é afetado ecologicamente, as consequências atingem toda a comunidade pesqueira da região, tanto de Ratones quanto de quem pesca na Baía Norte.

Com tantas questões interferindo no ecossistema do rio Ratones, a pesca já deixou de ser a única fonte de renda para boa parte dos moradores. No entanto, os pescadores deixam bem claro que são as outras atividades a que foram obrigados a recorrer que complementam a renda deles, e não o contrário.

“O pescador é pescador. O que ele faz fora da pesca que é o complemento de renda”, afirma Gilberto Ribas, que também é membro da Associação. Ribas, ao destacar as ações da comunidade em torno do mutirão e da busca do reequilíbrio do ecossistema do rio Ratones, completou dizendo que “agora cabe ao poder público também fazer a parte dele”. 

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