Veganismo está na moda

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 A sustentabilidade ganhou um novo sentido e está mudando o jeito de pensar na indústria

A mesa é uma confusão de linhas de costura, novelos de lã, fuxicos, agulhas coloridas e flores de tecido estampadas. As mulheres ao seu redor “fuxicam” entre si, ajudando umas as outras no intricado passar de fios. A conversa animada, o cheiro de café recém-coado e o bolo de cenoura com coco, acorda numa segunda-feira às nove da manhã para fazer crochê. Algumas dessas mulheres estão concentradas seguindo o trabalho e as mãos velozes da professora Luiza Juraci, que tricota com experiência. Estão ali para aprender e para ensinar. Logo levarão o conhecimento para suas comunidades. Este é o Encontro de Saberes,  que ocorre toda primeira segunda-feira do mês na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), no marco do EcoModa, que está em sua 11° edição.

O projeto, criado com a intenção de fazer exposições, palestras e oficinas relacionados à moda sustentável busca, conforme sua coordenadora, a professora do Departamento de Moda da UDESC, Neide Schulte “disseminar conhecimento para a comunidade”.

Professora vegana de sustentabilidade na moda, Neide busca colocar seu ideário em prática, procurando recursos para produzir gerando menos impacto. O primeiro passo foi abolir as matérias primas de origem animal.  Historicamente,  a moda utiliza tecidos como o couro, a lã, a seda e a pele. Pode parecer impossível eliminá-los do nosso consumo, mas estilistas e grandes nomes desta indústria estão paulatinamente mudando este cenário.

A experiência da estilista Lilly Sarti aponta essa tendência. Dona de uma grife que leva o seu nome, Lilly aboliu em 2016 um dos segmentos mais lucrativos da sua marca: as peles. Em entrevista para a revista Vogue conta: “Quando lançamos a marca, pele era sinônimo de glamour e queríamos ser parte desse universo – por isso, fazia sentido ter essas peças nas coleções”.

A mudança não acontece do dia para a noite, demanda todo um processo que busca conquistar o público, que tem a compra motivada não só pela matéria prima da roupa mas por diversos fatores: necessidade, desejo, impulso. O Brasil abriga a quarta maior indústria de vestuário no mundo, com um faturamento de 182 bilhões de reais por ano

Para Neide cada vez mais as pessoas estão buscando sua identidade através da vestimenta. O vegano, cujo respeito aos animais vai além da sua exclusão na dieta alimentar para compreender todos os aspectos daquela vida, se preocupa em transmitir sua ideologia através do que veste. Se o tecido de uma camiseta tem ou não origem animal é pertinente, mas o impacto ambiental que uma vestimenta provoca também é um aspecto a ser considerado. Neide esclarece que para o vegano é fundamental a consciência de todos sobre as consequências que a moda gera no ecossistema. “Às vezes não usamos algo de couro, mas não nos damos conta que a calça jeans comum, principalmente a barata, pode estar poluindo vários rios, matando muitos peixes. Não é só o couro ou a pele, mas sim todo o impacto que o vestuário causa”.

A rede global Water Footprint Network, líder em avaliação do uso da água no planeta, calcula que para produzir 1kg de uma roupa feita de algodão, são usados em média 10.000 litros de água. Ou seja, uma calça jeans comum gasta cerca de 8.000 litros. Estamos falando apenas de uma calça jeans, imagine uma produção em grande escala.

Além da quantidade de água usada, é preciso considerar, ainda, os químicos utilizados no tingimento, que muitas vezes são tóxicos jogados indevidamente em rios, contaminando a água e as pessoas que a utilizam. Alguns especialistas apontam que a moda é a segunda indústria mais poluidora do planeta, mas não existe um consenso nem números absolutos para figurarem a dimensão desse impacto. Entretanto, é reconhecido que a indústria têxtil está no escopo dos ambientalistas.

Na Ásia Central, o Mar de Aral, que já foi o quarto maior lago do mundo em volume d’água, alcançou apenas 10% do seu tamanho original em 2007. A causa desse “encolhimento” é a irrigação de algodão na região.

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Foto tirado por satélite do Mar de Aral, na Ásia Central, em 1989 comparado a 2008, em estado avançado de desertificação. Fonte: NASA.

 

A popularização das lojas de departamento reinventaram o modo de produção e consumo. Enquanto que uma peça simples de uma grife custa cerca de R$500,00, um modelo parecido na Renner pode ser adquirido por R$50,00. Esse é o fast fashion, que em suma, tornou a moda acessível ao público. Vestir-se conforme a tendência não é mais exclusividade da classe média-alta. Nessa lógica a cada três semanas as coleções são renovadas e descartadas, porém essa produção rápida e em em larga escala, gera resíduos e impactos ao meio ambiente. Como as roupas que usamos não são biodegradáveis, ficam nos aterros 200 anos ou mais contaminando o solo e o ar, como mostrado no documentário The True Cost, dirigido por Andrew Morgan.

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Etapas de produção de uma roupa, desde a plantação da semente do algodão até chegar ao consumidor. Fonte: Revista Galileu.

 

Os impactos causados pela fast fashion podem ter grande escala tanto para a natureza como para a população. Em abril de 2013 o mundo conheceu o lado obscuro do glamour. A capital de Bangladesh, Dhaka, foi palco de um grande acidente, o desabamento de um prédio de três andares que vitimou mais de 1.300 vidas. Nesse prédio funcionava a fábrica de vestuário Rana Plaza. Os funcionários já haviam relatado as más condições do local, como as rachaduras e as infiltrações, mas nada foi feito à respeito e eles foram forçados a continuar trabalhando nessas condições. Este não é um caso isolado. Enquanto as vítimas do Rana Plaza eram retiradas dos escombros, outro edifício que abrigava uma fábrica de confecção na capital bangladesa pegava fogo, matando oito pessoas.

Diante desse contexto, a agricultura familiar é um exemplo de produção sustentável que busca respeitar a natureza e os seres humanos. Em Florianópolis, o Ateliê Nara Guichon abriu as portas em 1983 e recicla anualmente 500 quilos de redes de  pesca para confecção de vestuário. Seus trabalhos utilizam apenas o algodão orgânico, proveniente da Natural Fashion, que consome 90% menos de água durante o cultivo, sem uso de agrotóxicos e outros produtos químicos.

De acordo com Nara, seus clientes em geral são de classe média-alta tem o poder aquisitivo para comprar uma echarpe de estamparia natural que custa R$195,00, mas queixa-se: “O perfil do cliente ainda não é o que gostaríamos, ou seja, clientes conscientes de que a moda é uma das indústrias mais poluidoras do planeta”.

Uma roupa produzida sustentavelmente geralmente é mais cara, tanto por causa da matéria-prima diferenciada, quanto pelo trabalho manual. Seu processo não segue a mesma lógica que das lojas de departamento. Por isso é difícil popularizar a moda vegana. “Converso com o cliente frente a frente explicando que nosso produto apesar de um pouco mais caro sai muito mais barato, levando mensagem de respeito a todas as formas de vida”, afirma Nara. Para Lilly Sarti, depois que aboliu  o uso da pele, houve um aumento de vendas e um consequente barateamento do produto: “A cadeia produtiva ficou mais fortalecida e, no fim, o preço final das roupas também foi impactado – quando você tem mais volume, consegue uma negociação melhor com os fornecedores”.

Outra possibilidade para minimizar o impacto da indústria do vestuário é o reaproveitamento. Muitas pessoas doam suas roupas para brechós ou instituições de caridade, mas há um grande volume que termina em aterros sanitários. Neide Schulte está estudando maneiras de absorver esse excesso. “Fui identificar os resíduos da indústria têxtil aqui em Florianópolis e estava vivendo com um volume gigantesco de roupas usadas, doadas. A gente não tem aqui como absorver isso”. É

com essas roupas e retalhos de fábricas que iniciativas como o Banco de Vestuário ajudam a comunidade carente fazendo com que a sobra de produção possa suprir a falta de agasalhos, colchas, cobertores, artesanatos, etc. Além da ajuda, eles também fazem confecções para venda. Luiza Juraci, professora convidada do último Encontro de Saberes na Udesc, já trabalhou 10 anos no Banco de Vestuário em Porto Alegre e afirma, “a economia solidária em mês ruim fatura R$150.000. Mês de final de ano dobra, bem mais. O produto tem que ter muita qualidade, tem que ser muito bem supervisionado”.

 

MODA VEGANA: EXISTE?

O veganismo é um estilo de vida ético que tem ganhado recente popularidade. Diferente do vegetarianismo, que rejeita o insumo animal apenas na sua dieta alimentar, os veganos militam a favor da integridade e dignidade de todos os seres sencientes, aqueles que podem sentir dor. Seus seguidores começaram questionando o modo de produção: “Qual a origem que gera menos impacto?”, pois, conforme destaca a professora Neide Schulte, tudo gera impacto, entretanto, para se pensar de forma ecológica é preciso avaliar esses impactos buscando minimizá-los ao máximo. “A chave está na informação, na preocupação do usuário de querer saber de onde vem, o que é que está vestindo. Não é uma tarefa fácil”, afirma.

Faça o teste. Pegue qualquer embalagem no supermercado e tente descobrir exatamente como aquele produto chegou as suas mãos. De quem compraram a matéria-prima? Qual foi o volume d’água usado na produção? Quais são as condições de trabalho daqueles que a produziram? Por quantas mãos o produto passou até chegar a sua? É praticamente impossível responder a estas questões.

As empresas não são obrigadas a divulgar essas informações. Em nosso país, a Sociedade Vegana Brasileira (SVB) criou um selo para tentar localizar as empresas que buscam mapear o trajeto de seus produtos e tem especial cuidado com os impactos ambientais e sociais em sua produção. O selo é dado por produto, não por marca, levando em conta que muitas praticam o veganismo apenas em etapas específicas da produção. “Considera-se produto vegano aquele que não contém em sua composição nenhum ingrediente de origem animal e durante cujo desenvolvimento nenhum animal foi usado em qualquer teste ou experimentação”, esclarece a SVB em seu site.

Para possuir o selo, além do pagamento de uma taxa por produto são necessárias informações sobre fornecedores e demais participantes de toda a cadeia produtiva, comprovando que a matéria prima fornecida é vegano. Apesar de não ser obrigatório o uso do selo, ainda é um atestado oficial de qualidade e autenticidade. Entretanto, a burocracia e a tarifa anual de licenciamento acabam desencorajando as empresas a adquiri-lo.

Dificilmente vamos encontrar uma produção 100% vegana, pelo menos não agora. Talvez no futuro seja possível produzir uma roupa que siga à risca esta lógica, que contemple todas as etapas de produção, todas as vidas envolvidas e o meio ambiente. Por enquanto os passos que estamos dando em direção a esse ideário começam pequenos, com mulheres que “fuxicam” e aprendem crochê para ensinar à comunidade, como no Encontro de Saberes. Iniciativas como essa fazem a diferença local, mas com incentivo e o apoio de outros, esperemos, rumo ao global.

CONCEITOS:

  • Slow Fashion/“Moda lenta”: Movimento que procura produzir de forma responsável e preocupada com o meio ambiente, oposto do fast-fashion e das lojas de departamento, se apoia na premissa de “qualidade sobre quantidade”, praticada em pequenos negócios e
  • Fast Fashion: Conhecida como moda rápida, é praticada por grandes marcas que produzem muito volume e de maneira contínua, lançando novas tendências toda semana. Lojas de departamento como a Renner, Marisa, Zara, são exemplos clássicos do fast fashion.
  • Economia Solidária: Atividade econômica baseada na autogestão em prol da comunidade. Procura produzir sustentavelmente e trocar conhecimento em benefício mútuo.

 

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