Um brinde à nossa saúde

Por Iraci Falavina (iracifalavina2@gmail.com) e Julia Breda (jub.nobre@gmail.com)

*Reportagem realizada na disciplina Apuração, Redação e Edição III, ministrada pela Profa. Melina de la Barrera Ayres, em 2019.1

 

  salud coletores

                                                                                                                                                              Fonte: Pinterest

 

“não quero ‘limpar as veias’

[…]

ciclos dentro e fora de mim

[…]

sou a terra que absorve a Deus

a barragem preste a eclodir

SEI SANGRAR POR MIM MESMA

meu útero é uma bomba

e não precisa de fósforo

para explodir” 

Sangria, de Luiza Romão

Etimologicamente, bless (abençoar) significa fazer sangrar, marcar ou consagrar com sangue. É nisso que acreditam as mulheres que “plantam a lua”. O nome vem da relação entre nosso ciclo menstrual e o ciclo lunar: ambos duram em média 28 dias, passam por fases distintas e reiniciam. Plantar a lua é um ritual feminista baseado em antigas sociedades matriarcais realizado até hoje. Consiste em depositar o sangue menstrual na terra, como forma de fechar o ciclo da menstruação e entrar em maior contato com o próprio corpo. 

Para esse ritual, as mulheres utilizam um utensílio famoso nas redes sociais: o coletor. Ele também não foi inventado agora – seus protótipos iniciais foram patenteados entre 1860 e 1870, e o primeiro exemplar similar ao atual foi criado em 1937, pela americana Leona Chalmers. Porém, a discussão sobre o coletor está longe de marcar presença no dia a dia de todas as mulheres. Ainda são poucas as pesquisas científicas a seu respeito, assim como são poucos os especialistas qualificados a dar orientações para seu uso

Coletores menstruais são pequenos copos plásticos de silicone maleável que podem ser inseridos no interior do canal vaginal, com a função de coletar o sangue do período menstrual. São hipoalergênicos e resistentes à bactérias. Podem ser utilizados em períodos de até 12h seguidas e devem ser higienizados com água quando esvaziados. Ao final do ciclo, precisam ser fervidos em água quente, para a esterilização. Um copinho pode durar até dez anos.

Estas informações são as mais básicas sobre o uso dos coletores, no entanto, não chegam à grande maioria das mulheres. Em 2017, a população brasileira era de aproximadamente 208 milhões de habitantes, dos quais 30,1% eram mulheres entre 15 e 55 anos, ou seja, em idade fértil (IBGE). Isso representa 62,5 milhões de mulheres brasileiras que poderiam consumir produtos relacionados à menstruação. No entanto, a maneira com a qual a informação sobre esses produtos é divulgada, muitas vezes, faz com que ela não chegue a muitas mulheres.

Várias mulheres só encontraram dados a respeito dos coletores nas redes sociais. O grupo Coletores Brasil, atualmente no Facebook, foi criado em 2011, oriundo do Orkut. Naquele espaço, mulheres tratavam de assuntos considerados íntimos, nos idos 2007. O objetivo era dar apoio e sanar dúvidas das participantes sobre o uso do coletor. No Facebook, o que começou com 40 membros, cresceu para mais de 80 mil, tornando-se o maior grupo sobre o assunto – mas não o único. Dezenas de outros aparecem, ao procurar por “coletor”, oferecendo espaços propícios para o diálogo.

Ana Elisa Garcia, criadora do Coletores Brasil, afirma que “Naquela época [em que usava Orkut] eu mesma tive vergonha de perguntar e esclarecer as dúvidas. Por isso o grupo era fechado”. Com a troca de informações entre as participantes, Ana conseguiu comprar seu primeiro coletor. “Eu uso coletor há 12 anos. No primeiro grupo, conheci uma mulher que usava há 25 anos e indicou o Mooncup, da Inglaterra, que tive que importar”.

A criadora do grupo afirma que a possibilidade de usar coletor menstrual é pouco difundida, mesmo dentro dos consultórios ginecológicos. “Ainda tem pouca informação. Um tabu por parte dos médicos, que desconhecem e atrapalham um bocado, confundem com o absorvente íntimo”, conta. Por estas limitações, membros do Coletores Brasil elaboraram manuais sobre como usar, tipos de coletores, dobras, como higienizar, etc. “Cada participante buscava informações e testava, para poder orientar as outras pessoas da melhor forma”. 

O Facebook é uma fonte, a princípio, informal; o consultório de ginecologia deveria ser o lugar mais seguro. No entanto, é grande a dificuldade para encontrar profissionais que já tiveram contato com o produto, pois  os coletores não são parte dos conteúdos ensinados nos cursos de medicina. Janette Campos, ginecologista formada pela UFMG em 1990, conta que seus professores nem sabiam da existência de coletores menstruais na época de sua graduação. Além disso, afirma que, apesar da vontade de aprender sobre o assunto, não possui muito contato com o copinho. “Provavelmente o tabu da divulgação de algo que exige mais auto-conhecimento e manipulação da genitália pela mulher contribuíram para essa desinformação”.

Nós também queremos!

Diante das dificuldade de acesso a informações, decidimos sair em busca de nossos coletores. Somos duas universitárias: Iraci Falavina, 20 anos, mora no bairro Saco dos Limões, em Florianópolis (SC); Julia Breda, 19 anos, mora no bairro Bela Vista, São José, cidade vizinha à capital.

 As farmácias mais próximas da casa de Iraci ficam a 1,3 km e 1,5 km (entre 18 e 20 minutos a pé). Ela encontrou um coletor numa dessas farmácias próximas, mas a atendente não soube dar mais informações sobre o produto. Em uma farmácia maior, a 2,4 km (mais de meia hora a pé), encontrou uma marca, em dois tamanhos, a um valor de R$60. Uma das atendentes soube instruir – segundo ela, seu conhecimento surgiu a partir de uma pergunta que não soube responder.

Julia não teve a mesma sorte. Nenhuma das quatro farmácias num raio de 1,5km de sua casa vende coletores. Uma das redes, com nove filiais espalhadas pela cidade, não vende o produto em nenhuma farmácia física, apenas pelo site.

O principal meio de comercialização do coletor é a internet. Com uma rápida pesquisa no Google, encontram-se, ao menos, quatro sites de marcas diferentes. Em média, uma caixa com dois coletores sai por R$80 reais, sem o valor do envio. Eles têm dois tamanhos: A (mulheres com mais de 30 anos ou com filhos) e B (menos de 30 anos ou sem filhos), e não são recomendados para mulheres no pós-parto ou que ainda não tiveram relações sexuais, pois pode de romper o hímen. Os diâmetros e a orientação sobre o tamanho de acordo com o fluxo menstrual podem variar de acordo com a marca. Apesar da ANVISA ter publicado, em um vídeo de 2017, que o fluxo menstrual deve ser considerado ao escolher o tamanho ideal de coletor, para algumas marcas esse fator não influencia.

Todos esses dados estão lá, na rede de informação online. Entretanto, no Brasil, onde cerca de 30% da população não tem acesso à internet (20 milhões de pessoas), segundo dados do IBGE de 2017, isso não é o suficiente: é preciso que existam pontos de venda físicos.

Informação para todas!

Tornar algo acessível, no sentido mais amplo da palavra, envolve informar e disponibilizar o alcance à todas as pessoas. No caso dos copinhos, as barreiras para o acesso são a distância até um estabelecimento que tenha o produto; o preço; a dificuldade de orientação no momento da compra do produto e os poucos ginecologistas capacitados para instruir sobre o uso.

Mas por que essas informações são tão limitadas? Uma possível resposta são os tabus que cercam este assunto, e levam à falta de debate. “A menstruação tem vinculação com a vida sexual das mulheres. Explicar para uma mulher porque ela fica menstruada é necessariamente falar sobre a sexualidade dela também, e não se fala sobre isso, muito menos com mulheres jovens”, argumenta  Manuela d’Ávila, Mestre em Políticas Públicas, especialmente voltadas às mulheres, e autora do livro Revolução Laura

O silêncio sobre essa parte da vida feminina é retratado no documentário Absorvendo o Tabu, premiado no Oscar desse ano. Ele fala da vida de mulheres indianas e como a falta de informação tem sérias consequências. O desconforto e impossibilidade de realizar tarefas cotidianas durante o período menstrual, já que a maioria delas usa panos e não absorvente, pode levar à desistência do estudo, pela dificuldade em achar lugares reservados para a troca dos panos, que é muito frequente.

No Brasil, a situação é um pouco distinta – no entanto, a intimidade feminina também é censurada. De acordo com Manuela, “precisamos falar sobre isso de uma forma saudável com as nossas meninas, e não fazendo elas odiarem o seu corpo durante uma parte do mês, que somada, dá uma parte considerável dos seus anos. Isso é falar sobre o corpo da mulher, e é muito difícil no Brasil, porque o nosso corpo sempre foi um tabu”. Por aqui, absorventes são escondidos em bolsinhas, comentários são sussurrados somente entre mulheres. O assunto nunca é abordado com naturalidade.

O segredo gera desinformação. Por essa razão a educação sexual é tão importante. Em tempos onde a média de idade da menarca (primeira menstruação) é de 12 anos – e não mais 14, como era na década de 70, ou 17, há um século e meio atrás –, é necessário que essas informações  cheguem às meninas o quanto antes.

É preciso que elas saibam sobre as complicações que podem ter, como endometriose, candidíase, e o mais perigoso problema envolvendo absorventes: a Síndrome do Choque Tóxico (SCT). A SCT ocorre devido à proliferação de bactérias Staphylococcus aureus, que entram na circulação sanguínea e podem causar febre, vômito, dor muscular e até morte. Para isso, as bactérias necessitam de um local quente e úmido, e encontram as condições ideais num conhecido nosso: o absorvente descartável (quando usado por muitas horas seguidas). No caso dos coletores, a ANVISA determina que devem constar, no rótulo, instruções que orientem a mulher sobre o modo de uso, contendo a frequência de remoção do produto para descarte do sangue, e um alerta sobre o risco de SCT, ainda que nenhum caso relacionado a coletores tenha sido registrado. 

 

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                                                       Fonte: Iraci Falavina e Julia Breda

 

Experiências

“Para usar o coletor, a mulher precisa entrar em contato com o próprio corpo, tocá-lo, conhecê-lo, aceitá-lo”, explica Mariana Varella, formada em Ciências Sociais, atuante na área de jornalismo de saúde, com foco em saúde da mulher. Para Jenifer Siqueira, de 20 anos, o coletor melhorou sua relação com o próprio corpo. “Eu comecei a tratar a menstruação com naturalidade. Sempre tive fluxo muito forte, então eu usava um absorvente descartável noturno, e queria esquecer que aquilo acontecia, era muito desconfortável. Eu tinha que ir constantemente ao banheiro e às vezes ficava assada. Com o coletor, cuido mais de mim. É confortável, então não vejo como algo chato”. Assim como ela, Priscila Cima, de 25 anos, usa coletor há cinco anos, e sempre gostou do produto. A única dificuldade são as cólicas. “Ainda acontece [a cólica], quando pega vácuo demais [dentro do coletor]. Aí é só ajustar”. 

Mas nem tudo são flores. Mesmo tendo informação, algumas mulheres não se adaptam ao produto. Esse foi o caso de Anna Cecília Petrassi, 47 anos. “Eu tenho muito fluxo. E cada vez que eu retirava para esvaziar e higienizar era uma meleca no banheiro. Imagina no trabalho, fora de casa. Eu não achei prático pra mim”. Segundo ela, no momento da compra, não percebeu que havia diversidade de tamanhos. Sua filha, Maria Antônia Petrassi, de 18 anos, teve outro problema: não conseguiu encaixar o coletor confortavelmente. “Eu olhei vários sites explicando o que poderia ser, pesquisei várias formas diferentes de botar. Ele entrava, eu sentia que não vazava, mas ficava muito desconfortável. Eu tentei cortar o cabinho, mas não melhorou”, conta ela.

De acordo com Halana Faria, ginecologista e uma das diretoras do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde em São Paulo, isso é normal. “Agora que a gente começa a ver tamanhos diferentes, mas em geral são A e B. Às vezes a mulher acaba não se adaptando. Tem também uma variação anatômica, uma questão de saber posicionar, etc. Isso requer um tempo de uso, as vezes não é no primeiro ciclo que a mulher se adapta”.  

Embora o coletor não agrade a todas, o que se observa entre várias mulheres que tentaram utilizá-lo é o desejo de se conectar mais profundamente com seu corpo, e a determinação em dar fim ao constrangimento em fazer algo tão natural quanto sangrar.

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