Lidando com o espelho

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Por Rafaela Cardoso (ccardosorafaela@gmail.com)

*Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição V, ministrada pela Profa. Melina de la Barrera Ayres, em 2019.1.

 

studio classique

Studio Classique, localizado no bairro Itacorubi, em Florianópolis. Foto: Rafaela Cardoso. 

 

Senti meus braços e minhas pernas fraquejarem nos primeiros cinco segundos que fiquei ali parada. A barra tinha mais de três metros de altura e mesmo com os meus 170 centímetros, fiquei assustada. No início parecia impossível, as mãos escorregavam, o metal raspava a pele e meus pés pareciam não querer sair do chão. Já podia sentir os hematomas surgindo antes de se tornarem visíveis. Mesmo frequentando assiduamente a academia, senti dificuldade em cada movimento que realizei. Eu estava acostumada com o peso das placas de ferro dos equipamentos e dos halteres, não com o do meu próprio corpo. Após a aula, meus braços mal conseguiam sustentar o peso dos cabelos ao tentar amarrá-los. Sem citar a minha flexibilidade, que parecia estar aposentada. 

O pole dance trabalha todos os músculos do corpo, desde o abdômen à parte interior das coxas. Além disso, diferente de muitas atividades físicas, ajuda no desenvolvimento dos dois lados – os movimentos são feitos tanto para a direita como para a esquerda. Em uma aula que durou pouco mais de uma hora, aqueci e alonguei nos primeiros 30 minutos, na outra metade, realizei os movimentos. 

Além de todo o desafio físico, a verdadeira batalha nas primeiras aulas era com a minha própria imagem. Por ser uma atividade que exige aderência da pele à barra, as roupas devem ser curtas e justas a fim de facilitar o processo. Portanto, ao colocar um top e um short curto me obrigava a me ver como sou. Visualizar meu corpo quase nu em um espelho que delineava toda a sala, não foi nada fácil. Enxergava todos os meus defeitos e percebia alguns que sequer sabia que existiam – era uma prova de amor-próprio. 

No entanto, depois de dois meses praticando o pole dance, já lido com o espelho de uma forma diferente. Parece até exagero, mas não é. Aquelas horas me enxergando de todas as posições e ângulos possíveis foram importantes para entender que não preciso ter vergonha do meu corpo. O pole dance me deu uma liberdade tão instantânea, que nem parece que pratico há tão pouco tempo. É um momento de autoconhecimento que transborda de dentro para fora, uma outra relação que tenho comigo. Desde o primeiro dia em que fechei a porta do estúdio, desci as escadas e entrei no carro, percebi que meu olhar no espelho nunca mais seria o mesmo. 

 

Não existe pré-requisito

O ano era 2013. Ela estava em uma boate no centro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Naquela noite, foi convidada a subir ao palco por uma das strippers do local. Na hora, recusou o convite, jamais pensou que algo assim seria direcionado a ela. “Eu? Imagina! Só as mulheres gostosas e bonitas sobem aí”, afirmou. Depois de alguns minutos de insistência, subiu no palco e aprendeu alguns passos de dança ali mesmo, na frente de todo mundo.  Descobrira a liberdade, algo que não fazia ideia que existia. De noite em noite, continuou subindo nos palcos e chamando outras mulheres que, segundo ela, também não se encaixavam no estereótipo. Depois de um tempo, com incentivo do seu ex-companheiro, resolveu fazer aulas de pole dance e aperfeiçoar sua dança. 

Priscila Ferreira, 33 anos, criou em 2017 o Studio Classique, um estúdio que se autodenomina sensual, localizado em Florianópolis. Para ela, é nítido o quanto as mulheres precisam se fortalecer e enaltecer sua beleza, sobretudo no contexto machista. “O mais legal do pole é incentivar as mulheres a lidarem com elas mesmas, a se olharem em um espelho durante uma hora do seu dia e se conhecerem. Eu só dou um empurrãozinho”. Licenciada em história pelo Centro Universitário Metodista – IPA, com especialização em História e Comunicação na Feevale e mestrado na Universidade Federal de Santa Maria, ela deixou de ser professora de história para ensinar pole dance.

 

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              Priscila Ferreira fazendo pole street na avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis. Foto: Marina Dams. 

 

Conheci Priscila enquanto ela dava aula no seu estúdio. Assisti cada ensinamento ao lado de Yas Friedl, 23 anos, também professora de pole. Com os pés descalços, um bloquinho em uma mão e uma xícara de café na outra, passei a tarde ali. Yas me contou um pouco de si. Ela tem uma barra de metal em casa, no meio da sala de estar. Sua relação com a dança é muito forte – aos quatros anos já fazia ginástica artística. O pole dance, no entanto, conheceu há apenas dois anos, tempo suficiente para lhe render o segundo lugar na categoria exotic amador no Miss Pole Dance Glamour 2018, em São Paulo. “Mudou muito a minha perspectiva como mulher. Assim como várias mulheres, eu tinha muito problema com o meu corpo, quando eu era mais nova até já passei por bulimia. O pole foi fundamental para mudar a relação que tenho comigo”. Hoje, Yas está se aprofundando em duas modalidades: o exotic e o floor, ambos com o uso do salto alto. Tanto ela como Priscila não economizam sensualidade na hora de dançar e não se importam mais com os preconceitos devido ao desconhecimento da prática, que é muito recente no Brasil. 

O primeiro estúdio de pole dance no país surgiu somente em 2008 com a paranaense Grazzy Brugner, 40 anos. “Fui eu que dei a cara a bater desde o início, tive que lidar com todos os preconceitos. Alguém sempre tem que começar”, destaca. Ela conheceu a modalidade por meio de vídeos no Youtube, e foi amor à primeira vista. “Logo depois que comprei a barra, conheci uma personagem interpretada pela Flávia Alessandra, na novela Duas Caras da Rede Globo, que dançava pole dance. Concluí que se isso estava passando na TV as pessoas iriam começar a buscar. Depois disso, procurei me capacitar. Fui para a Argentina ganhar certificação.

 

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Grazzy Brugner fazendo um  movimento chamado super woman. Foto: Milena Oliveira

 

E realmente se popularizou. Hoje o pole dance é um dos caminhos que as mulheres encontram para melhorar a autoestima e a autoconfiança. Nas aulas, é possível encontrar mulheres de todos os tipos: aquelas que trabalham em tempo integral e arrumam um tempo para o pole, aquelas que dão aulas nas horas vagas e outras que ganham a vida com isso, como professoras ou donas de estúdios. Há também algumas que têm experiência com balé ou ginástica artística e outras que nunca tinham dançado antes da primeira aula e mal sabiam encostar a mão no chão ao se alongar. Não existe pré-requisito. 

“Passou a ser algo muito desafiador para mim. No início foi bem difícil, muita coisa eu não conseguia fazer. Depois de um tempo, com muita insistência, comecei a fazer muitas coisas que achava que era impossível”. Eleonora Back Couto, 51 anos, começou a fazer pole dance há mais de quatro anos e hoje pratica todos os dias, é seu vício. “Você fica muito mais segura das tuas conquistas. Os movimentos são bonitos e sensuais. Você sai de uma aula realizada”.

Com 25 anos a menos que Eleonora, Amanda Oliveira é mãe de uma menina de dois anos. Ela, junto a outra sócia, é dona do Levitate Studio, em Palhoça. Em 2013, ficou em terceiro lugar na categoria de pole fitness no Arnold Classic, uma competição de fisiculturismo anual. Essa foi sua última disputa devido à gravidez. No entanto, a maternidade não lhe impediu dar aulas, nem de interromper a prática que segue com ela há quase 10 anos. Foi Amanda quem me ensinou tudo que aprendi sobre o universo do pole dance.

 

Sororidade 

“Girl Power” é frase tatuada na parte posterior das pernas de Ana Elisa Alves, 27 anos. Em cada movimento que ela faz na barra é possível ver que traz o feminismo para dentro do estúdio, não só pela tatuagem, mas por tudo que transmite às alunas. “A finalidade do pole não é dançar para agradar os homens. É muito comum mulheres se matricularem pensando em agradar seus parceiros e lá dentro elas conseguem se desconstruir e entender que elas dançam para agradar a si”.

Além dos giros, das travas (posições estáticas na barra) e os chamados movimentos de transição, nos estúdios se aprende a sororidade, uma união entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo. As praticantes se orgulham e vibram umas com as outras ao realizar algum movimento novo. Quando consegui me sustentar na barra sem as mãos pela primeira vez, somente com a força da parte interior das coxas, foi uma alegria coletiva. As professoras têm um papel fundamental nesse processo, frases de incentivo são ditas a cada cinco minutos. Elas deixam a nossa autoestima lááá em cima! Não tem como sair do estúdio depois de uma aula de pole dance sem se achar maravilhosa. 

Essa sororidade foi um dos grandes motivos que levou Ana a deixar o cargo de professora de balé para ensinar pole dance. “A sociedade nos diz que mulheres juntas não dão certo, mas não é assim que funciona. Um ambiente só de mulheres pode ser perfeitamente harmonioso e muito acolhedor. Os vínculos que são criado nas aulas são muito sólidos, mesmo se conhecendo há pouco tempo a gente compreende o que a outra já passou e está passando”. 

 

É coisa de mulher? 

O pole dance é para todo mundo, não existe gênero. Entretanto, muitas mulheres não se sentem à vontade dançando no mesmo ambiente que os homens. Muitas sequer contam para família e amigos que fazem a prática, falam que estão fazendo dança ou ginástica. Além do preconceito, a modalidade também é muito ligada à sensualidade, o que afasta ainda mais homens praticantes, sobretudo héteros.  

“Isso tem muito a ver com a herança da dança. A ideia de que a dança é para mulheres, que os corpos masculinos não dançam igual os femininos. É como se só os homossexuais tivessem permissão para dançar ‘como mulher’, e os héteros não”, ressalta Ana Elisa. 

Para o carioca Igor Valentim, 31 anos, que faz pole dance há dois anos, praticar dança não é algo que seja incentivado para os meninos desde a infância e isso se reflete na vida adulta. “Na sociedade, a masculinidade é algo que deve ser provado a todo momento e é como se o pole fosse deslegitimar isso”. Ele é bacharel em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina, professor de dança e homossexual. Apesar de se sentir muito bem acolhido entre as mulheres, enfrenta alguns empecilhos, principalmente relacionados às diferenças fisionômicas. “O toque na barra para a genital do homem é mais sensível, diferente da mulher. Então, esse é um ponto que tenho que me atentar um pouco mais e até chamar a atenção das professoras ‘Ah, peraí que comigo é diferente. Eu não consigo fazer esse movimento com tanta facilidade, preciso tomar mais cuidado’”.

Com todas as mulheres que conversei havia um consenso – o pole dance ainda é um campo com pouca representatividade masculina, principalmente por conta da concepção de que a dança é uma atividade ligada ao feminino. Hoje em dia, portanto, a prática está mais próxima das mulheres. Como ressalta a pole dancer Yas Friedl, “É uma rede muito grande de praticantes que se apoiam, que se acolhem, que se incentivam e que se empoderam. É um ambiente de muita liberdade que nos ajuda a enfrentar o mundo lá fora”. 

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