Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: fenômeno cinematográfico chega às telas brasileiras nesta quinta

Sucesso nos EUA e no mundo, o filme de ficção científica teve a terceira maior bilheteria do fim de semana em sua pré-estreia no Brasil

Reportagem por Jullia Gouveia

Michelle Yeoh em posição de luta com um olho de plástico colado na testa e expressão determinada.
Michelle Yeoh vive Evelyn Wang, uma mãe frustrada que precisa virar heroína e deter uma ameaça desconhecida no multiverso

Parte 1: Tudo

Após dois meses, 16 dias, algumas horas e minutos que pareceram infinitos desde seu lançamento nos Estados Unidos, o aguardado filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo tem sua estreia oficial nos cinemas brasileiros nesta quinta, 23 de junho. Dos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert, que assinam juntos como Os Daniels, o longa-metragem de ficção científica, ação e drama já se tornou a maior bilheteria de todos os tempos da produtora A24, ultrapassando sucessos independentes como Moonlight, Hereditário e Joias Brutas. Com um orçamento de US$25 milhões – “menos que uma comédia romântica”, segundo Kwan em seu Twitter –, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo já arrecadou mais de US$86 milhões em nível internacional antes mesmo de chegar aos públicos de países como Brasil, Índia e Japão.

A história é contada através de Evelyn Wang, uma mãe, esposa, filha e imigrante chinesa que se encontra frustrada e sobrecarregada com a vida que construiu. Repleta de conflitos, desde a relação cada vez mais distante com sua filha LGBTQIAP+ até os problemas que encontra em seus documentos para a Receita Federal, o mundo da protagonista se estilhaça e ela começa a viver múltiplas realidades ao mesmo tempo. Vindo de uma delas, uma versão alternativa de seu marido, Waymond, avisa que Evelyn é a única esperança para salvar um multiverso à beira da destruição.

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo não tem esse nome apenas para levar a etiqueta de título mais longo da A24: as cenas de ficção científica e artes marciais dividem espaço com dramas familiares e pessoais, comédia bizarra e reflexões profundas sobre as escolhas que nos levaram a ser quem somos – e Evelyn vive todos os caminhos que deixou para trás simultaneamente enquanto tenta salvar um multiverso que ainda nem conseguiu entender. 

Os Daniels deram início ao roteiro há seis anos, em 2016, com a grande ambição de criar um “manifesto maximalista para sobreviver ao caos da vida moderna” numa desconstrução de gêneros cinematográficos. E, para a crítica, conseguiram. Ao G1, o jornalista César Soto descreveu a obra como uma “mistura louca de absurdo elevado ao extremo” e “o melhor filme do ano – se não, o melhor dos últimos anos”. Já a crítica de cinema Isabela Boscov, em seu canal no YouTube, disse que a película “faz todas as outras representações de multiversos ajoelharem e pedirem desculpas”.

A atuação da estrela Michelle Yeoh no papel principal é reverenciada pela opinião do público, dos especialistas e dos diretores como espinha dorsal do filme. Já Ke Huy Quan, ator mirim de Os Goonies e Indiana Jones e o Templo da Perdição que vive seu primeiro protagonista num filme estadunidense desde 1992, é o marido de Evelyn, Waymond, numa performance comovente. Se juntam a esta seleção o aclamado veterano James Hong, a multifacetada Jamie Lee Curtis e a recém-chegada às telonas Stephanie Hsu, que construiu carreira no teatro e nas séries de televisão. O elenco de peso encapsula as possibilidades do filme: especialistas em artes marciais icônicas dos anos 1990, terror, comédias dos anos 2000, lendas vivas e caras novas se completam para criar um filme que, realmente, pode dizer que tem tudo.

Ke Huy Quan em primeiro plano, de óculos e expressão espantada. Em segundo plano, desfocados, seu sogro e sua filha aparecem, também espantados e apontando para a frente.
Ke Huy Quan, que vive Waymond Wang, passou décadas fora da indústria cinematográfica devido a falta de papéis para homens amarelos no cinema estadunidense

Parte 2: Em Todo o Lugar

Há quase uma década, três veteranos do cinema estadunidense fundaram a produtora e distribuidora A24 com a intenção de apresentar filmes e séries com um ponto de vista diferente. Ao longo dos anos, se tornou a queridinha do cinema cult ao difundir filmes adorados – ou detestados – como Lady Bird, A Bruxa e O Lagosta. As produções originais da empresa vão desde o hermético O Farol, com Willem Dafoe e Robert Pattinson, à série Euphoria, sensação teen da HBO.

Apesar de referências no cenário do cinema independente da atualidade, não é sempre que os filmes da A24 estão disponíveis para espectadores no Brasil e no mundo. Isso porque a empresa não tem representação própria ou parcerias fixas com distribuidoras em outros países, nem mesmo em grandes mercados como China ou Reino Unido. Para assistir nas telonas uma das produções da A24, os fãs brasileiros precisam torcer para que alguma distribuidora nacional se interesse por aquele lançamento e consiga adquirir os direitos de distribuição. Desde abril, o filme foi lançado em 35 países pelo mundo, em datas variadas.

A partir desta quinta, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo será difundido pelas distribuidoras Galeria e Diamond em 51 cidades brasileiras e 162 salas de cinemas. No final de semana da pré-estreia, que ocorreu de quinta a domingo, entre 17 e 19 de junho, o filme teve a terceira maior média por sessão dos cinemas brasileiros. 

Criado em abril de 2021 e acumulando mais de 35 mil seguidores, o portal não oficial A24 Brasil no Twitter é a maior fonte de informações e conteúdos sobre a produtora em português. Como a A24 só divulga suas notícias em inglês, o fã Leonardo Amorim decidiu criar uma página para celebrar a produtora e veicular as novidades por conta própria. “A gente corre atrás, traduz trailers, matérias, tudo que a gente consegue.”

Hoje, a página conta com uma equipe de cinco fãs e já conseguiu ganhar visibilidade pelo conteúdo que produz voluntariamente, tendo sido convidada para participar da sessão imprensa do filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, em São Paulo. “Os seguidores são tanto pessoas anônimas quanto pessoas da área, pessoas que eu admiro pra caramba. A gente já entrou em contato com algumas distribuidoras brasileiras que nos dão muito apoio”.

Competindo com o blockbuster multimilionário da Marvel, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, a exposição do filme da A24 contou muito mais com a divulgação orgânica dos espectadores do que com propagandas da empresa. Leonardo ressalta que, desde que criou a página, nunca tinha visto uma expectativa tão grande com um filme da companhia, em nível nacional e internacional.Como a obra foi lançada em plataformas digitais estadunidenses no início de junho, não foram poucos os fãs de outros países que não conseguiram esperar e procuraram assistir suas versões pirateadas. A página A24 Brasil iniciou, então, uma campanha diferente. “Mesmo para quem já viu, acho que é importante que as pessoas tentem, pelo menos, rever no cinema, porque acaba virando um ciclo vicioso. A distribuidora acabou demorando um pouco para apostar no filme, o que traz toda a questão do mercado. Então, se não tiver bilheteria, fica cada vez mais difícil de trazer esses filmes próximos da data de lançamento nos EUA”.

A foto está em preto e branco e a equipe está sorrindo, descontraída. Hong, Kwan e Scheinert equilibram guardanapos de papel no nariz, como se fosse um bigode, enquanto Hsu os imita colocando o indicador abaixo do nariz
Elenco principal de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Em pé: Daniel Scheinert (diretor), Stephanie Hsu, Michelle Yeoh, Ke Huy Quan. Sentados: Daniel Kwan (diretor) e James Hong.

Parte 3: Ao Mesmo Tempo

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo não foi a primeira obra de Kwan e Scheinert que abordou multiversos com uma proposta singular. Em 2014, os Daniels lançaram o curta interativo Possibilia, tratando dos rumos que a discussão de um casal pode tomar. Numa cena inicial, o parceiro diz que os dois ainda não tentaram de tudo para fazer a relação funcionar. “Tentar todas as coisas no universo?”, a companheira remenda. “Não tenho tempo para isso”. Quem assiste, então, escolhe as ações dos dois e se depara com diversos resultados, de reconciliações tocantes a brigas e gritaria desmedida.

Em seu multiverso mais recente, porém, os diretores decidiram por uma abordagem mais íntima. Em entrevista à revista Fast Company, eles enumeraram algumas das ideias que tentaram explorar no filme: “saúde mental, atenção, a experiência dos imigrantes, vidas não vividas, sobrecarga de informações, conflito intergeracional, ameaças existenciais, artes marciais, dilemas da internet e do universo. E humor sobre bundas”, esclarece Scheinert. Para costurar esse caleidoscópio de temáticas, os Daniels contam que precisaram se inspirar em suas próprias experiências e perseguir uma pergunta sem resposta: o que fazer quando a imensidão do tudo faz com que nada mais importe?

As jornadas dos personagens se encontraram com as dos diretores em vários aspectos. Eles encontraram representações das próprias mães no caos que Evelyn precisa ordenar todos os dias para manter a família de pé e na forma como ela demonstra amor de maneiras sutis. Além disso, para Kwan, também foi importante refletir sobre as experiências que famílias asiáticas, como a dele, têm nos Estados Unidos.

Inspirados na confusão e simultaneidade dos mundos de Evelyn, os Daniels resolveram escrever a personagem com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) não diagnosticado. Ao pesquisar sobre a condição, Kwan percebeu que tudo aquilo soava estranhamente familiar. “Fiquei acordado até às quatro da manhã, chorando e entendendo que, caramba, eu tenho isso! Caso vocês não tenham notado enquanto assistem o filme”, ele brinca no relato à Fast Company. Posteriormente, o diretor procurou profissionais de saúde mental, foi diagnosticado com TDAH e começou seu tratamento.

A representação positiva e bem informada da neurodiversidade vem, aos poucos, ganhando espaço na mídia. Uma das obras mais conhecidas por retratar o TDAH de maneira otimista é a série de livros infanto-juvenis Percy Jackson e os Olimpianos e suas sequências, escritos por Rick Riordan. Para Bárbara Silveira, mestranda de Letras na Universidade Federal de Viçosa, foi essa a obra que fez com que ela começasse a se entender. “Foi naquele mundo, onde pessoas parecidas comigo tinham superpoderes, que eu me sentia bem em ser eu. Foi essa ressignificação que, anos depois, me fez querer ir atrás e descobrir que eu tenho TDAH e que isso é parte de quem eu sou”.

Segundo Silveira, os estudos de linguística aplicada apontam que a representatividade na mídia tem um impacto na sociedade além das telas. “Quando um grupo como o das pessoas com TDAH é mostrado de forma positiva e sensível, isso quebra estereótipos que estão no imaginário da sociedade. Mesmo que a sociedade inteira não se transforme com isso, essa perspectiva diferente já pode mudar o jeito que aquele indivíduo olha para si.”

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