O Rio nunca é tão Rio quanto no dia de São Jorge

Texto e fotografia por Matheus de Moura (matheusjorvieira@gmail.com)

 

O dia de 23 de abril foi de celebrar a entidade que melhor representa o espírito  fluminense: São Jorge, ou Ogum, para os praticantes das religiões de matriz afro. A data é comemorada nacionalmente, mas só no Rio de Janeiro que se cristalizou como um feriado, um que aparenta ser mais intenso e relevante que a própria Páscoa, que neste ano o antecede em dois dias. Tamanha a devoção dos fluminenses que o santo está prestes a se tornar o segundo padroeiro do estado, ao lado de outra figura sincrética, São Sebastião —  reconhecido na Umbanda como Oxóssi.

Missas e cultos começaram às cinco da manhã, com os típicos fogos da alvorada. Assim, as ruas da Grande Rio se encontravam vazias de gente, e os poucos carros a rodar pelas avenidas foram se desvanecendo com o passar do dia, sobrando apenas os ônibus, transportando pessoas vestidas de branco e vermelho, simbolizando uma das versões de São Jorge — a iconografia católica do cavaleiro de prata e capa púrpura montado num cavalo branco compete com a umbandista do guerreiro de pele retinta, peito talhado à mostras e vestes azuladas.

 

A ubiquidade de São Jorge era visível nas multidões espalhadas por igrejas, terreiros e feijoadas. Dentre todas as festas da Grande Rio, a de maior porte e relevância  é a da Paróquia de Quintino, localizada na rua Clarimundo de Melo, em Quintino Bocaiúva, Zona Norte da capital. A expectativa era de que pelo menos 2 milhões de pessoas passassem pela igreja na terça-feira; isso equivaleria a um terço da população da cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de religiosa, a festa de Quintino carrega o DNA carioca e tinha tom de Carnaval brando, com churrascos em toda esquina, promoções de cerveja em cartazes improvisados e uma intensa competição sonora entre pagodes e sambas, a voz melódica de artistas como Mariah Carey e as orações transmitidas rua afora por caixas de som acopladas a telões que transmitiam ao vivo as missas da igreja.

 

E apesar do catolicismo estar a frente da festa de Quintino, devotos de Ogum compunham facilmente um terço dos transeuntes, vestindo desde vestes completas até pequenos adereços em reverência às religiões de matriz afro. Gustavo e Fabiana, por exemplo, frequentam a festa quase que ano sim, ano não, variando com a igreja do Centro, a segunda mais importante da cidade. Este, entretanto, foi o primeiro ano que decidiram aproveitar a festa para promover uma ação social. Parados a 50 metros da igreja, distribuíam gratuitamente folhas da Espada de São Jorge, planta de origem africana muito popular nas casas suburbanas. Um prato com uma estatueta do Santo ficava à disposição de eventuais doações, que viriam a ser utilizadas para ajudar a alimentar pessoas de rua. Até porque para eles Ogum é sobre ter força e ajudar na batalha, seja sua própria, seja a  do próximo.

Essa mensagem ressoa bem com famílias cristãs. Anualmente, a matriarca Lorinda Pereira da Costa, de 90 anos, ordena que a família participe de churrascos em sua casa, na rua da igreja, no dia de São Jorge. Ela crê que a entidade não só representa as batalhas do dia-a-dia, mas tudo que circunda sua vida. Ela, que é filha de portugueses radicados brasileiros, acredita que foi graças a São Jorge que conseguiu superar o câncer na bexiga, 12 anos atrás. Em gratidão: converte todo e qualquer familiar à devoção do santo, desde bisnetos até cunhado de neto; e monta um singelo altar que monta todo ano às 15h.

 

Espaço para empreender

Concomitante ao festejo, camelôs transitavam tentando tirar um troco com camisas temáticas de São Jorge — muito parecidas com abadás —, pulseiras, esculturas e bijuterias, todas relacionadas ao homem do dia. Fernando Oliveira Martins, de 32 anos, se instalara na Clarimundo de Melo à meia noite daquele mesmo dia, pronto para vender suas pulseirinhas, como faz religiosamente há dez anos. Desempregado, não lhe resta opção senão aproveitar cada oportunidade que tem de trabalhar como camelô, mesmo que isso signifique sair de madrugada de sua casa em Belford Roxo, há 35 km da igreja, para ir embora só no amanhecer do dia 24. Infelizmente, o dia não foi tão lucrativo quanto nos outros anos, pois, segundo avaliação dele próprio, a concorrência aumentou exponencialmente, com camelôs ocupando cada vez mais as alturas baixas da rua. Não à toa, 12 horas de trabalho só renderam 100 reais.

 

Lidiane Alves divide da mesma impressão de que a rua estava mais ocupada por vendedores que nas outras vezes. Apesar de ser a primeira tentativa de trabalhar com suas manufaturas na festa de Quintino — vendia azulejos artesanais decorados com São Jorge —, há tempos que nutre a tradição de passar o feriado na casa da avó do marido. Montou seu estande na entrada da casa e esperou para ver o resultado. Se não fosse sua rede de amigos comprar alguns de seus produtos com exclusividade, não teria vendido mais que 6 peças em 8 horas de trabalho. Ao fim, precisou abaixar o preço dos azulejos de 15 para 13 reais — ela gasta 8 reais para fazê-los.

 

Além dos vendedores de temática religiosa, há quem tente lucrar com objetos prosaicos, do tipo que se vê nas ruas do Centro. Alguns vendem comida e bebida, outros se aproveitam o alto fluxo de famílias com crianças pequenas e se vestem de Patati Patatá, Homem Aranha, dentre outras coisas. Há também quem faça truques de mágica só para vender óleo de copaíba, um antinflamatório oriundo da região amazônica. Negão, como se autointitula o vendedor, não é devoto de São Jorge, nem nada do gênero, mas nem por isso deixava de praticar mágica em seu breve show/merchandising. Usando de truques básicos, o homem cativou dezenas de pessoas, que formaram um círculo ao seu redor e o obedeciam, aceitando passar o óleo nas mãos, esfregá-lo na testa e cheirar as palmas ao final. Alguns compraram pequenas porções do líquido, atraídos pelo cheiro sedutor e pelas promessas exageradas de curar dores de todos os tipos por apenas 10 reais. “Na loja, esse óleo é 22, 23 reais. Eu não tô vendendo aqui, mas as primeiras cinco pessoas que vierem comprar agora vão levar 2 por 10”, dizia ao fim de cada show, os quais ocorriam a cada 10 minutos.

 

 

Veja mais fotos da procissão:

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