Arte sobre foto de Daniel Hooper/Unsplash

Como é a vida de quem não se identifica com os gêneros tradicionais?

Reportagem de Jaqueline Padilha

“É menino ou menina”? A pergunta é frequentemente feita aos pais quando esperam por uma nova vida. Embora sem maldade, essa expectativa sobre o gênero da criança é imposta ainda na barriga da mãe e persegue até a vida adulta. A expectativa encontra resistência quando se encontra com um corpo que não se identifica nem como homem nem como mulher.

Identidade não-binária é um termo “guarda-chuva”, que encobre diversas identidades de gênero que não se identificam como homem ou mulher, independentemente do sexo biológico de seu nascimento.

“Então eu chamo de ele ou ela”? Depende. Atualmente, é possível ver com mais frequência nas redes sociais a utilização do X no lugar do O ou do A. A linguagem, assim como quase tudo, também é binária e usa-se as vogais para definir o que será feminino ou masculino. Pessoas não-binárias podem escolher ser chamadas pelo masculino ou feminino, ou ainda serem chamadas por pronomes neutros. No caso dos pronomes neutros, pode-se utilizar o E no lugar do O/A.  Ou o U para palavras onde o E representa o masculino. O X é mais utilizado em escritas, justamente por ser impronunciável, assim não demarcamos gênero no momento da leitura. Por exemplo, no caso do E:  Minhes amigues ou Minhxs amigxs – Para o X.

O X está sendo repensado, pois softwares que fazem a leitura de conteúdos para pessoas cegas não conseguem ler a letra, o que faz com que a linguagem deixe de ser acessível. De qualquer forma, a decisão de ser chamado por qualquer um dos pronomes é sempre da pessoa não-binária.

Buscar novas formas de falar e escrever sem demarcar gênero foi um dos desafios na hora de escrever esta reportagem. Inclusive, a vontade de produzir essa reportagem surgiu depois de conhecer uma pessoa não-binária, a quem eu não sabia como chamar. Me vi em meio ao limbo de informação, com uma bagagem sobre linguagem totalmente binária. Por compreender que linguagem tem um poder de reforçar estereótipos e preconceitos, não serão utilizados pronomes de gênero quando estiver contando a história de cada pessoa não-binárie entrevistada aqui. A ideia é que, a cada linha de história, você se lembre que são pessoas.

(Foto: Delia Giandeini/Unsplash)

Em 2018 a comunidade Trans conseguiu um importante avanço para o reconhecimento de suas identidades. A Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a transexualidade da Classificação Internacional de Doenças (Cid). Antes a transexualidade e transgeneridade eram categorizadas como transtornos de identidade de gênero. Hoje integram o grupo relacionado a “condições relacionadas à saúde sexual”, utilizando o termo “incongruência de gênero”. 

O termo “incongruência de gênero” refere-se ao desconforto que pessoas transexuais ou transgêneros vivenciam com o próprio corpo ou com o sexo e gênero que designaram no momento do nascimento. A maioria das pessoas chama de disforia. A disforia é a inquietação que pessoas trans sentem com seu corpo, voz, ou performatividades e em muitos casos está relacionada ao gênero.

“Vou ser generalista, mas para mim todo mundo vai vivenciar situações de disforia”.

 É dessa forma que Ale Mujica Rodríguez, 33 anos enxerga a disforia. Com formação em medicina e finalizando o doutorado na área da saúde, Ale pensa que o termo disforia deve ser reinterpretado, já que o problema não está em ser trans e sim na sociedade que é cisgênera e heteronormativa. “É você querer ser reconhecide de uma forma, mas as pessoas lêem de outra”. 

Ser uma pessoa trans não-binárie para Ale não causou disforia. Porém ter crescido sendo uma criança gorda e ter imposições de como o corpo deveria ser, sim. A disforia deve ser encarada não como uma questão individual, mas como um desconforto que todos terão consigo por não se encaixar dentro das normas impostas pela sociedade.  

Ale começou a se re-pensar por volta de 2014 em uma oficina sobre desconstrução de gênero. Cada participante deveria descobrir e redescobrir suas masculinidades. Nessa oficina durante a montagem de uma drag king surgiu Alejandro. O nome escolhido teve inspiração na música da Lady Gaga, também por ver nesse nome força e potência. Depois desse dia, Alejandro começou a aparecer frequentemente. Em uma disciplina decidiu realizar uma performance buscando desconstruir as feminilidades e masculinidades. Ao final da performance, cortou o cabelo. Alejandro esteve ali. Dependendo dos lugares onde estava, Alejandro ressurgia. Mas foi só quando uma amiga próxima perguntou para Ale se já tinha percebido que Alejandro sempre estava ali que o processo de identificação ganhou espaço.

Ale veio da Colômbia, seu país de origem, em 2012, para fazer o mestrado e estudar a saúde de pessoas trans. Esse movimento de ver outras performatividades, outras histórias e outras realidades fez com que todo o processo de reconhecimento da própria identidade fosse lento e seguro. “Durante toda minha vida eu não senti que devia sair do armário. Sempre me senti fora dele, quem me coloca são as pessoas”. 

Alejandro começou a ganhar espaço em documentos assinados junto com seu nome de registro. Mas ao perceber que Alejandro muitas vezes reforçava o masculino, Ale começou a surgir.

O fato de ser imigrante muitas vezes fez com que outras pessoas lessem Ale de formas diferentes. A imigração também impede que faça a retificação do nome, pois seu visto foi expedido para seu registro do nascimento. A burocracia e a falta de regulamentação nesses casos muitas vezes se torna inviável, principalmente pela possibilidade da perda do visto. 

Dentro da área médica, muitos profissionais e até mesmo pesquisadores ainda reforçam que pessoas transgênero e transexuais devem ser patologizadas e enquadradas no gênero binário. O espaço onde Ale mais sentiu o preconceito foi justamente na sua área de atuação. Ouvia justamente de pessoas que estudam gênero que a não-binariedade não existe. 

Ale pretende ficar em Florianópolis, no momento, para continuar atuando na defesa dos direitos à saúde da população LGBTQIA+ e pelo movimento em favor da legalização e descriminalização do aborto. Ainda atua como militante no movimento gordo e a relação da saúde e gordofobia. Ser uma pessoa não-binárie é motivo de orgulho, e de reforçar o poder de ser quem é. 

“É conseguir ser parte consciente da construção da minha identidade. Me nomear foi muito libertador, ter um espaço para eu me reconstruir, construir e desconstruir”. 

(Foto: Mercedes Mehling/Unsplash)

“Alex, tu ainda se identifica como garoto”?

A pergunta feita por uma amiga, encontrou dificuldades de achar um sim como resposta. Foi nesse momento que Alexa da Silva, 19 anos, começou a questionar seu gênero. A mudança surgiu de fora para dentro. No início de 2018, passou a utilizar roupas e acessórios tidos como “femininos”, e os amigos começaram a não enxergar mais um gênero definido em Alexa. Aos poucos, começou a estudar e pesquisar sobre gênero e identidades não-binárias, e entender que a manifestação externada já morava dentro de si desde criança.

Na infância, sonhava com o dia que ia poder usar roupas com brilho, shorts curtos ou brincos. “Hoje eu olho para as roupas que eu tenho e lembro que com nove, dez anos eu já queria muito usar”. A fluidez que via nas roupas permanência na sua identificação como gênero fluido. Ao passo que as feminilidades foram aflorando, nunca se sentiu mulher, foi então que entendeu que a identificação que mais fazia sentido era como não-binária, com A no final. Mesmo buscando entender o que estava acontecendo Alexa não sentiu que foi um processo doloroso. “Eu sempre fui muito fiel ao que sinto”. 

Ser uma criança “afeminada” não era uma possibilidade. O pai era conservador e preconceituoso, e afirmava diversas vezes que não queria ter um filho gay ou afeminado. Se pedisse para usar aquelas roupa poderia sofrer agressões físicas ou verbais. Quando a adolescência chegou, os pais se separaram. Durante a separação, Alexa decidiu morar com seu pai, e foi nesse momento que viu a oportunidade de se aproximar dele. Aos poucos a relação foi se tornando mais forte e o pai começou a desconstruir seus preconceitos. Quando decidiu usar as roupas que tanto queria, viu o estranhamento do pai, mas nunca a falta de respeito. “O maior medo dele hoje em dia é que aconteça algo comigo na rua”. 

O acolhimento que encontrou no pai também foi acontecendo com outras pessoas da família. A mãe sempre aceitou, mas enquanto a separação conturbada acontecia, ela se afastou por quase dois anos. A aceitação da mãe foi mais tranquila que o do pai. “Inclusive ela fez um post no dia das mãe e escreveu ‘minhas filhas’, isso sem eu dizer nada”. Alexa prefere ser chamada no feminino. Os laços fortes com outras pessoas da família também se mantiveram, mesmo que a maioria não compreenda a identidade não-binária. “Eu sempre digo que eu tenho muito privilégio”.

Alexa da Silva foi o nome dado pelos pais, o qual não pretende mudar. A leitura que outras pessoas realizam sobre seu nome e corpo, muitas vezes, causam constrangimentos. Em lugares onde tem que passar por uma revista, Alexa vai na fila das mulheres, porém já barraram sua entrada e indicaram que deveria ir para a fila do homens. A maioria dos espaços públicos e privados ainda mantém uma lógica binária e transfóbica, com funcionários que não estão preparados para entender e lidar com as diferenças.

Apesar de todos os dias pessoas não-bináries terem que lutar por reconhecimento, seus esforços são para que cada pessoa possa ser o que é. “O mais importante é a gente ter amor próprio sem precisar seguir os padrões que impuseram para a gente. É ver que não está sozinha, e com termos ou sem termos, saber que você é uma pessoa válida”. 

Informação para a libertação

Em 2014, surgiu a hashtag #WhatGenderqueerLooksLike (na tradução: com o que o gênero queer se parece). Desde então, o movimento vem ganhando espaço nas redes digitais, onde as pessoas podem se conhecer, conversar e compartilhar suas histórias. Com a visibilidade que a internet e as redes sociais oferecem, muitas pessoas não-bináries conseguem se entender e reconhecer. Apesar disso, os conteúdos produzidos ainda são escassos, principalmente em língua portuguesa.  

Foi com a ajuda da internet que Caetano, 20 anos, estudante de Letras Francês, conheceu os termos e começou a dar nome às coisas que sentia na adolescência. Desde criança sabia que era diferente. Na infância, usava roupas vários números acima de seu tamanho. Embora não sentisse que elas representavam quem era, a largura escondia o desconforto com partes do corpo. O incômodo com o tempo ganhou o nome de disforia. “Desde que eu me entendo por gente eu tenho problemas com gênero”.

Os uniformes da escola sempre eram um problema. Enquanto colegas festejavam poder usar calça jeans, Caetano pensava em que roupas utilizar. Para conseguir se encaixar, usou calça jeans justas, camiseta baby look, e até cortou uma franja. Quanto mais buscava se enquadrar, menos se sentia bem. Até ver no estilo de duas meninas do novo colégio, uma nova forma de se expressar. Decidiu imitar e começou a se sentir melhor. Foi nessa mesma época que começou a conhecer as nomenclaturas. 

Embaixo do guarda-chuva das identidades não-bináries, Caetano ia entendendo cada uma delas. No início, pensava se identificar como gênero fluido, mas com o tempo viu que essa terminologia não abrangia toda a sua existência. Hoje se identifica como agênero e reforça: “Na verdade, eu sou mais eu”.

Durante o Ensino Médio, todos os questionamentos e dificuldades de lidar com o gênero imposto ganharam um escape: o teatro. Foi pela arte que descobriu que era possível se reconhecer e descobrir. “O teatro foi a melhor coisa que  aconteceu. O terceirão foi horrível, mas o teatro era bom”. A arte era o que trazia conforto no ambiente hostil.

Na atualidade, ter alguém ao lado é uma das coisas mais importantes e positivas para Caetano. “A melhor parte é você descobrir que tem alguém que está ali cem por cento. É bom você se sentir abraçado”. Em um relacionamento há mais de três anos, o casal planeja a vida juntos. Além do sonho de ter uma família, Caetano pretende mudar para o curso de Psicologia. 

No momento, está na busca pelo seu nome, um nome que seja seu, pois atualmente usa um de seus sobrenomes. “Eu quero um nome específico que comece com a letra A e não tenha um gênero”. Depois que encontrar o nome e se casar, Caetano deseja mudar todos os documentos e acrescentar o sobrenome da namorada.

Desde junho de 2018, o Conselho Nacional de Justiça modificou as regras do processo de retificação do nome e mudança do sexo para pessoas transgêneros. Dentre as principais mudanças, está a de não precisar ter feito a cirurgia de redesignação para mudar os documentos. Além disso, a retificação pode ser realizada nos cartórios de registro civil. Apesar de ser um importante avanço para a comunidade transgênero/transexual, ainda é necessário declarar o sexo nos documentos e só é possível se declarar homem ou mulher.

Para o advogado Paulo Euclides, na atual legislação brasileira, retirar o sexo do nascimento pode causar alguns entraves. Como no caso de leis específicas para a saúde e proteção da mulher ou o alistamento militar obrigatório para homens, ou mesmo no caso da aposentadoria que possuem tempos diferentes.  “Além disso, a não classificação da pessoa como do sexo masculino e feminino, causará outras inconveniências com potencial de judicialização para a solução”, explica.

Em alguns países, já existe a possibilidade de colocar outros gêneros nos documentos. Na Alemanha, desde 2013, é possível deixar a informação referente ao sexo em branco, para nascidos intersexuais. Em 2018, houve uma reformulação da lei e criou-se um “terceiro gênero” para os registros. Desde 2014, a Austrália reconhece o gênero não especificado em suas certidões.

No Brasil, a discussão ainda não chegou a nenhum dos poderes.

(Foto: Brian Kyed/Unsplash)

Na escola é invisível

“A senhora é homem né professora?”, pergunta o garoto intrigado com a pessoa que vê. Rhai Pezzi é estudante de Pedagogia da UFSC e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid).  Seus cabelos curtos, calças jeans e camisetas largas fazem a maioria das pessoas travarem e pensarem se devem usar ele ou ela. Sua performatividade delicada e nada feminina deixa para que descubram na voz, quem sabe, por qual pronome chamar. Enquanto os adultos brincam de adivinhação, as crianças não escondem a curiosidade e perguntam.

Responder a essas perguntas não é uma tarefa fácil para Rhai que, durante um tempo, replicava com “o que você acha que eu sou?”. As crianças, buscando uma referência familiar, argumentam sobre o cabelo curto, as roupas. Hoje, entende que essa tática já não contempla nem as crianças, nem a si.

Dentro das escolas, os papéis de gênero são reforçados a todo momento. “Fila dos meninos e das meninas”, “A letra de tal aluno parece de menina”, “Aluna tal parece um menino, não para quieta”. Isso acontece em casa e se reforça na escola. Rhai conta que ouvia os professores, diretores e até mesmo os psicólogos fazendo esses comentários sobre os alunos.

Não falar não resolve o problema. Por isso, quando as crianças viam uma oportunidade buscavam aquietar suas angústias com “aquela professora” que chamava a atenção. E, é nesses momentos, que Rhai busca conversar e explicar sobre gênero e sexualidade. É no trabalho de formiguinha que vai mostrando às crianças novas realidades, desfazendo os mitos e estereótipos de gênero.

Essa força não esconde o medo, que ganhou forma quando Rhai estava indo ao banheiro da escola e encontrou outra professora no caminho. Quando chegou na porta sentiu o olhar de reprovação. “Ela me olhou com uma cara de nojo”. Ficou por um tempo trancada esperando a professora se retirar, para depois sair.  Depois desse dia, ir ao banheiro não foi mais uma opção. Ainda convive com o receio de que um dia algum professor ou pai de aluno se revolte e faça algo.

“Dá medo de ir para a escola, dá medo de apanhar”.                           

Apesar de não se identificar com feminilidades, Rhai buscava se encaixar nas normas de gênero. A maior mudança física aconteceu em 2015 quando decidiu raspar o cabelo. “Eu sempre fui o estereótipo sapatão”. As pessoas começaram a ficar curiosas e às vezes diziam que parecia com um “menininho”. Foi só em 2016 quando cursava Química em Blumenau que as coisas começaram a mudar.

“Eu não me identificava com o meu corpo”. Algumas roupas começaram a incomodar, os seios começaram a se tornar desagradáveis, e na angústia do momento começou a pensar que era um homem trans. Durante suas pesquisas, para entender o que estava acontecendo, encontrou um artigo sobre não-binariedade.

Como ainda está no começo da identificação, Rhai tem dificuldades de se posicionar nos espaços e ainda está em um conflito interno. “Às vezes eu penso em escolher dizer que eu sou só um [dos gêneros], para não ter  que lidar com tudo isso”.

No currículo do curso de Pedagogia da UFSC, há duas disciplinas que abordam gênero, ambas optativas. Rhai chegou a participar de uma dessas disciplinas, porém sentiu que não abordava a complexidade do tema, e pouco se discutiam formas de passar esse conhecimento para os futuros alunos.

Em 2017, ocorreu a aprovação da primeira Base Nacional Comum Curricular. O documento tem a intenção de direcionar os conteúdos obrigatórios que devem ser ensinados nas escolas da rede privada e pública da Educação Básica. Para a discussão dos conteúdos, foram chamados gestores, educadores, pesquisadores na área da educação, além de diversos setores da sociedade civil como as igrejas. Durante a elaboração dos conteúdos havia a ideia de discutir gênero e sexualidade nos currículos, porém a proposta foi retirada.   

Dentro da profissão, Rhai vai encontrar muitos desafios e apesar de muitas vezes o pessimismo ganhar força, busca formas de resistir. “Eu me sinto melhor, e por mais confusa que eu esteja por conta de toda a situação atual, quem está perto de mim respeita. E dentro da escola no trabalho de formiguinha eu posso fazer a diferença”.

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