Comida pra quem?

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Não é a “ração humana” que vai por fim à fome. Especialistas garantem que a solução passa por política públicas responsáveis.

Duas mulheres movimentam-se na cozinha. Enquanto eu esperava do lado de fora, observei as crianças brincando no refeitório. A temperatura naquela tarde de primavera beirava os espantosos 38ºC, e a sensação de calor naquele espaço era ainda maior. Lá dentro, a senhora de óculos que usa uma rede nos cabelos é a ajudante da cozinheira. Nesse dia, o comando das panelas ficou por sua conta, já que a colega tinha ido ao médico. A outra mulher, mais nova que a primeira, está perto da porta. Como de costume, Maria Solange de Souza, a Sol, também ajuda na cozinha quando a demanda é alta, e as pessoas, poucas. Ela iria interromper seu trabalho para conversar comigo, mas insisti que roubaria alguns minutos de seu tempo somente quando terminasse. Não queria atrapalhar.

Cozinha

Cozinha Casa São José. Foto: Maria Fernanda Salinet.

Desci em direção à sala dos professores, onde a coordenadora pedagógica da ONG Casa São José, Michelle Setúbal, me ofereceu um copo de suco. A sala era muito pequena, mas limpa e arejada. Esperei a Sol em uma espécie de sofá, estampado com círculos coloridos. Antes de a coordenadora sair, perguntei se a Sol tinha achado tranquilo conversar comigo sobre a sua alimentação. “Sim, estamos acostumados, porque sempre que algum aluno da UFSC — Universidade Federal de Santa Catarina — precisa fazer alguma pesquisa sobre a Serrinha, eles vêm aqui.” Passei os 20 minutos em que estive sozinha pensando sobre isso. Aquilo me incomodou.

A universidade fica ao lado do bairro Serrinha, em Florianópolis. Poucos metros separam a elite acadêmica da Capital da comunidade que convive em meio à pobreza e à falta de condições básicas de moradia. Saí da bolha universitária por algumas horas para tentar compreender uma realidade que está ao meu lado, mas que eu não tenho a mínima ideia de como seja vivenciá-la. Fui me aventurar como alguém que observa em um microscópio uma pequena fração do todo. E permaneço sabendo muito pouco.

A Sol chegou à porta com um sorriso tímido e conversa fácil. A faxineira de 33 anos trabalha desde 2014 na Casa São José, organização não governamental (ONG), onde faz as principais refeições durante a semana. “Uma delícia a comida daqui, é tudo uma tentação.” Enquanto fecha os olhos, parece lembrar com precisão dos sabores do nhoque servido no almoço, horas antes. “Preciso cuidar pra não engordar.” A maceioense conta que sua alimentação é muito balanceada, porque na ONG há controle nutricional e constante variação no cardápio. Em casa, nos finais de semana, o cuidado continua. Ela opta por produtos integrais, muitas verduras e legumes, que compra na feira às sextas-feiras, quando os produtos são mais baratos. Sempre atrás de promoções, visita vários supermercados para poder economizar e garantir hábitos alimentares saudáveis aos três filhos e ao marido, Jerry. Às vezes, ao procurar carnes, mesmo que estejam mais em conta, desiste se percebe que o produto não está fresco. “A carne tá feia, cheia de sangue, eu não compro. Fico pensando que parece uma placenta de vaca e vou em outro mercado, porque eu fico com nojo daquilo”, destaca, com os olhos cerrados e uma expressão visivelmente enjoada.

Maria Solange de Souza também ajuda na cozinha. Foto: Maria Fernanda Salinet.

Maria Solange de Souza também ajuda na cozinha. Foto: Maria Fernanda Salinet.

A reação da Sol ao estado da carne está relacionado ao que a antropóloga Carmen Rial levanta ao apontar que, em todas as culturas, há alimentos que, mesmo com propriedades nutritivas, não são ingeridos, simplesmente por não serem considerados comida por aquelas pessoas. “A noção de dignidade em relação aos alimentos é muito forte, por isso não se pode dar para humanos comidas que eles consideram ser próprias de animais.” Ela pontua também que “comer é uma atividade que serve para responder a uma necessidade biológica do corpo, mas também a uma necessidade do espiríto, a uma necessidade de significar o mundo”. O que é, então, considerado comida?

Para o prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB-SP), a atitude da faxineira em relação à carne pode não fazer sentido. Durante o lançamento do programa “Alimento para Todos”, em parceria com a ONG Plataforma Sinergia, no início de outubro deste ano, disparou que “pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome”, ao justificar a distribuição de um produto feito de excedentes industriais próximos da data de vencimento “às populações que enfrentam carências nutricionais no município”. Depois da forte repercussão negativa, Dória voltou atrás. Não irá mais distribuir o farinato ou a chamada “ração humana” para os mais pobres. Mas para ele, a fome pode ser solucionada com o processamento de — não se sabe quais — restos industriais. Para Dória, isso é comida.

“Ouviu falar do programa de alimentação que o prefeito de São Paulo tentou lançar?”, pergunto à Sol. Ela só balança a cabeça, em resposta negativa. À medida em que eu explico a proposta de Dória, seus olhos ficam arregalados e a boca levemente se abre. Demora alguns segundos para alguma frase ser dita. Houve um impacto. “Ai que horror!”, é a primeira frase. “Meu Deus, eu não acredito. Acho totalmente o contrário. Não é porque tu é pobre que não tem um bom modo de alimentação. Ai que desgraça.” Eu continuo: “ele diz que o programa é pra quem não tem o que comer, pra quem está passando fome”, para fazer com que ela refletisse um pouco mais. Ela insiste que “dar qualquer coisa não é bem assim, não é porque a pessoa tá com fome que eu vou dar qualquer coisa pra ela comer. Vou assar um gato e dar pra ela comer. Se não é pra dar uma alimentação boa pra pessoa, eu já nem dou”. Parece que a Sol também não curtiu a ideia da “comida de astronauta”, que foi como o prefeito a chamou ao defender as propriedades supostamente nutritivas do produto, quando esteve em Milão, na Itália.

Você pode estar se perguntando o porquê de o Dória ter tentado lançar um programa altamente criticável. A Sol se perguntou também, assim como eu. A iniciativa foi alvo de notas de repúdio de diversas entidades, como o Conselho Regional de Nutrição (CRN) da 3ª Região – São Paulo/Mato Grosso do Sul – e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Politicamente, um tiro no pé. Quer dizer, ele não pensou que haveria reações, no mínimo, negativas? Quando conversei com o doutorando em Nutrição, Mick Lennon Machado, e a professora de Nutrição, Neila Maria Viçosa, ambos integrantes do grupo de pesquisa TearSAN – Teia de Articulação pelo Fortalecimento da Segurança Alimentar e Nutricional da UFSC –, pude perceber alguns motivos.

Machado, depois de um tempo de conversa, trouxe a questão que eu levantei antes: o que é comida? Em linhas gerais, ele diz que o que eu considero comida e o que você considera pode ter alguma variação, mas comida é a mesma coisa para mim e para você. “Uma ração ou a multimistura (produto composto por farelo de arroz, trigo e pó de sementes criado na década de 1970) não é considerada comida por quem vai receber esse tipo de alimento.” Ele prossegue, “por que eu penso em uma estratégia para combater a fome transformando comida nisso?”, na sequência o doutorando lança mão de algumas explicações.

Enquanto ouço o que ele diz, na sala do TearSAN, no Centro de Ciências da Saúde, já perto do meio-dia, outras duas integrantes do grupo estão almoçando na mesma mesa em que estamos conversando. Consigo sentir o cheiro da marmita de uma delas, algo como frango com arroz. Pelo assunto, o horário e o cheiro, a fome crescia, do tipo que chega a doer o estômago. Logo, pensei: “imagina se pra saciar a minha fome eu teria de comer esse composto que a gente tá aqui discutindo?”.

O pesquisador levanta a possibilidade de duas concepções para entender a questão da fome. A primeira é de que as pessoas passam fome no Brasil e no mundo porque há uma incapacidade de produzir alimentos para todos. Então, “se não há feijão pra dar pra todo mundo, eu vou dar o que sobra, que é o lixo, a ração”. A segunda é de que podemos produzir comida para todos, “mas sempre haverá uma parcela da população que tem o direito de acesso negado”. Ele acredita na segunda concepção. Mas se você acredita na primeira, talvez concorde com o que o Dória propôs.

A questão do acesso é fundamental para entender o que as pessoas comem, o que precisam e o que podem comer. “Maria Fernanda, que idade você tem?”, pergunta o doutorando. Como uma jovem estudante, essa pergunta normalmente não me cai bem. Respondo “22”. “Bem novinha”, ele observa. Mas foi importante esse apontamento para salientar os progressos conquistados com o passar das décadas. “Quando eu era criança, estudei em uma escola pública e lá eu comia farinha, farelos, pós. Hoje as crianças vão em escolas públicas e recebem arroz, feijão, frutas, saladas. Essa é a grande diferença de mudança de perspectiva baseado no conhecimento de que há comida o suficiente. Só precisa se criar uma estratégia de distribuir isso pra todo mundo. E hoje nós temos.”

O fortalecimento das políticas públicas de combate à fome é defendido pelos dois estudiosos da área da nutrição. “Desde os anos 1990, temos um fortalecimento das políticas públicas de alimentação e nutrição sob uma concepção de garantia de acesso, que se fortaleceu a partir de 2002 com a entrada do governo Lula. Entre eles o Bolsa Família e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar”, pontua Machado. O PNAE oferece alimentação escolar e ações de educação alimentar e nutricional aos alunos de todas as etapas da educação básica pública. Uma das diretrizes do programa é a garantia de que pelo menos 30% do que é servido nas escolas tenha origem na agricultura familiar, o que incentiva os pequenos agricultores e possibilita alimentos livres de cargas exageradas de agrotóxico. Isso contribui para o acesso a uma alimentação balanceada e nutritiva.

A variedade de alimentos que é oferecida na Casa São José é indicada e acompanhada por uma nutricionista. Foi lá que a Sol aprendeu a modificar seus hábitos alimentares, ao comprar opções mais saudáveis. Antes, a nordestina não tinha esse cuidado, porque no interior de Maceió, onde cresceu, não precisava se preocupar com isso. Era só colher da terra o que iria comer. Mas em Florianópolis, onde mora desde 2006, não há espaço para fazer sequer uma horta. Ela e os três filhos, de 13, dez e cinco anos, tomam café da manhã e almoçam na ONG de segunda a sexta. Nos finais de semana, ela e o marido se revezam, para decidir quem irá cozinhar. “Ele é parceiro, então?”, pergunto. Ela elogia: “não gosto muito de peixe, mas quando ele prepara fica tão bom”. A renda familiar gira em torno de três mil reais e eles, sem precisar pagar aluguel, destinam cerca de 500 reais para alimentação, às vezes mais, às vezes menos, graças às refeições que fazem no seu local de trabalho. No período de férias, porém, houve meses em que a conta do supermercado chegou a mil reais. “Aí não dá, né! Tomei um susto”, ela lembra.

Casa São José. Foto: Maria Fernanda Salinet.

Casa São José. Foto: Maria Fernanda Salinet.

O café da manhã é servido cedo na ONG, perto das 8h. Tem suco, frutas, café, geleias, pães, queijo, presunto, bolo. A mesa é farta. “E se tivesse que tomar café da manhã todos os dias em casa, o que as crianças iam comer?”, questiono. Ela diz que só ia ter café e alguma coisa pra passar no pão. A variedade iria diminuir, mas eles iriam se alimentar bem. Isso que a Sol me contou me fez lembrar do que a professora Neila comentou sobre a cultura alimentar.

Um dia ela foi ajudar a distribuir comida para pessoas em situação de rua. Era café com leite e pão. Uma senhora lhe contou que não gostava muito de leite, preferia só café, mas tomava até a última gota porque sentia fome. E porque aquilo era considerado alimento por ela. Então, a cultura alimentar existe. Qualquer pessoa, independente da classe social, possui um hábito alimentar que carrega ao longo da vida. Assim, a professora assinala que “o descuido da proposta do Dória com a cultura alimentar da população é enorme. Estamos desesperadamente tentando resgatar a tradição alimentar, pois ela precisa ser respeitada. Tu não comes o alimento só por conta do nutriente, tu comes por conta das tuas origens, das tuas lembranças, das tuas relações com aquele alimento e com os teus ancestrais”.

Antes de terminar nossa conversa, pergunto à Sol se ela tem o hábito de almoçar fora. Na verdade, questiono se é viável financeiramente. Ela responde prontamente que “com três crianças e dois adultos, não dá, mas nós sempre inventamos alguma coisa gostosa no fim de semana”. Além de almoçarem mais tarde do que o habitual, comem algo caseiro e mais em conta. Optam por uma lasanha de frango a uma de carne, por exemplo. Diferentemente de João Dória, que almoça todos os dias ao meio-dia e meia, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, feita em novembro do ano passado. No shopping Iguatemi da capital paulista, pede seus prediletos: peixe com crosta de alho-poró, de 89 reais, e ravioli recheado de queijo fontina com creme de trufa negra e cogumelos seco e fresco, de 74 reais. Como disse o Mick Machado, comida, em linhas gerais, é a mesma coisa para Sol, para o Dória, para mim e, provavelmente, para você. Mas por quê, enquanto a Sol come lasanha e o Dória ravioli de trufa negra, alguém teria que comer ração?

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