Após primeira morte por Covid, povo indígena Xokleng vê número de casos disparar nas aldeias de SC

Reportagem de Fernando Almeida e Rodrigo Barbosa

O primeiro óbito de um indígena Xokleng ocasionado pelo novo coronavírus foi registrado no último 30 de julho. Francisco Farias de Azevedo, 53, vivia em Doutor Pedrinho, cidade vizinha à Terra Indígena (TI) Laklãnõ/Xokleng, na região do Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Francisco foi cacique regional da aldeia Bugio entre 2004 e 2007 e, embora atualmente vivesse na cidade, ainda mantinha contato com a comunidade e tinha acesso ao território. Até o registro da morte, não havia casos confirmados dentro das aldeias da TI, que é a única a abrigar indígenas da etnia Xokleng em todo o Brasil.

Francisco Farias de Azevedo, 53 anos, foi cacique regional da aldeia Bugio entre 2004 e 2007. Ele foi o primeiro indígena Xokleng a falecer em decorrência da Covid-19 (Foto: arquivo pessoal)

A situação, entretanto, mudou radicalmente assim que o primeiro óbito foi confirmado. Nas semanas seguintes, equipes da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) começaram a realizar testes nas pessoas que vivem dentro da Terra Indígena e que apresentavam sintomas de síndrome gripal. Também foram testados os moradores que tiveram contato com aquele que, até então, era o único indígena Xokleng comprovadamente infectado.

Os resultados deixaram a comunidade em estado de alerta: até segunda-feira, dia 10, de acordo com a Sesai, 109 casos de contaminação pelo novo coronavírus já tinham sido confirmados em seis das oito aldeias da TI. Atualmente, ao menos três Indígenas estão internados.

Na semana seguinte ao primeiro óbito em Doutor Pedrinho, houve ainda um caso na cidade de José Boiteux, onde um bebê Xokleng, infectado pelo coronavírus, não sobreviveu ao parto. A mãe da criança também estava com a Covid-19 e passa bem. Oficialmente, este foi o segundo óbito pela doença entre os Xokleng. De acordo com a Sesai, em todo o Brasil já foram mais de 18 mil indígenas infectados, com 327 óbitos.

Os Xokleng infectados estão em quarentena em suas próprias casas. Não há local adequado para isolá-los nas aldeias. No início da pandemia, a Funai (Fundação Nacional do Índio) havia confirmado a construção de um centro para abrigar os moradores infectados. A promessa, no entanto, até hoje não se concretizou.

A situação ficou ainda mais delicada quando, na primeira semana de agosto, a maior parte dos profissionais de saúde que atuavam dentro da Terra Indígena foram afastados (seja por fazer parte dos grupos de risco da doença, seja por terem tido contato com pessoas infectadas pela Covid). Com os afastamentos, apenas sete profissionais realizaram o trabalho de atendimento de saúde dos mais de 2 mil indígenas da Laklãnõ/Xokleng naquela que foi, até aqui, a pior semana para os moradores desde o começo da pandemia.

Antes mesmo dos afastamentos, já existiam relatos de sobrecarga de trabalho para os profissionais que atuam dentro da Terra Indígena. Além disso, o trabalho na chamada ‘linha de frente’ do combate à doença vinha sendo realizado em boa parte pelos próprios moradores. Isto porque, embora os postos de saúde presentes nas aldeias da Laklãnõ/Xokleng sejam administrados pela Sesai, a mão de obra nestes postos é majoritariamente Xokleng. 

Na semana seguinte, a Sesai enviou reforços para substituir os profissionais de saúde afastados. A equipe é formada por dois enfermeiros e uma técnica de enfermagem, e está realizando atendimentos em domicílio. Os profissionais chegaram no dia 10 de agosto e devem permanecer no local por 14 dias. Existe ainda a promessa de que um médico chegue às aldeias na próxima semana.

Parte dos colchões enviados pelo Exército à Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng. O material deveria ser usado para abrigar pessoas infectadas com a Covid-19, mas foi rejeitado pela comunidade por estar em más condições

Além dos postos de saúde dentro da Terra Indígena, há ainda um Polo-Base, de maior complexidade, na cidade de José Boiteux. Mesmo assim, as lideranças locais seguem em contato com o Poder Público em busca de auxílio. Na última semana, lideranças Xokleng foram até Blumenau buscar ajuda do Exército. Através da Sesai, a instituição enviou 50 colchões para serem utilizados no isolamento das pessoas infectadas. A condição dos equipamentos, entretanto, fez com que a comunidade rejeitasse a doação.

“O material que a gente recebeu está inadequado. Os colchões estão todos velhos, todos rasgados, os cobertores todos sujos. As camas não têm condições de ser utilizadas, tá muito ruim. […] Nós não admitimos, não vamos aceitar e não vamos mexer nesse material. Vamos pedir para a coordenação [da Sesai] recolher e dar um destino porque é capaz de infectar os nossos indígenas. Não vamos pegar nossos pacientes para pôr em qualquer lugar”, relatou Nilton Ndili, liderança Xokleng .

Medidas internas

No dia 6 de agosto, uma semana após a morte de Francisco, um decreto foi emitido pelas lideranças locais no intuito de frear a contaminação pelo coronavírus. Bloqueios sanitários vinham sendo realizados pelas próprias comunidades desde o começo da pandemia, mas a organização social e familiar dos Xokleng torna o processo de isolamento mais difícil, segundo relatos dos próprios moradores. Isto porque a cultura Xokleng preconiza um modo de vida compartilhado e comunitário, com a presença de muitas famílias numerosas que mantêm contato entre si diariamente. Não por acaso, dentre os infectados na Laklãnõ/Xokleng, muitos fazem parte das mesmas famílias.

Aldeia Bugio é a segunda mais afetada da TI Laklãnõ/Xokleng: são 19 casos confirmados (Foto: Fernando Almeida)

Desta vez, porém, as regras de isolamento estão mais rígidas. Está proibida, por exemplo, a visita de qualquer pessoa de fora das aldeias. Sair de lá, só uma vez por semana, e estritamente para emergências ou necessidades básicas (há exceção para aqueles que trabalham na cidade). Mesmo assim, a pessoa que for ao mercado deve ficar em casa pelo período mínimo de uma semana ao retornar. Sintomáticos devem se dirigir prontamente às equipes de saúde e, em caso de confirmação da doença, ficar em quarentena por 14 dias. Cultos religiosos foram suspensos.

As regras dentro da Laklãnõ/Xokleng têm prazo inicial de 30 dias, e há penalidade para aqueles que não as cumprirem. A depender do caso, as punições vão de prestação de serviços comunitários até a perda de direitos políticos dentro da comunidade, como a inexigibilidade para o cargo de cacique.

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