Juliane e Neure já sabem o resultado do ultrassom: serão pais de um menino (Foto: arquivo pessoal)

A chegada de um novo xondaro: gestação e infância em uma aldeia guarani

Reportagem de Rodrigo Barbosa

Quando solteiras, mulheres guarani tradicionalmente dormiam isoladas dos homens. Conta a lenda que, certa noite, em meio à escuridão, sentiram suas pernas sendo tocadas. E na noite seguinte. E na próxima. Sem saber como lidar com o aliciamento, levaram a questão ao cacique da aldeia, que teve uma ideia: passaram tinta de jenipapo em seus corpos e, na manhã seguinte, as manchas pretas nas mãos de Djacy, um renomado guerreiro, indicaram o culpado. Como punição, Nhanderu Tupã, divindade guarani, transformou Djacy na Lua. Suas crateras seriam, portanto, o lembrete do mau causado por ele na Terra. Desde então, as crianças guarani são ensinadas a respeitar a escuridão da noite através da história do antes renomado xondaro (guerreiro, no idioma local). 

Era também quando Djacy aparecia no céu que os animais da floresta se tornavam mais perigosos. Como não havia energia elétrica, a ordem era permanecer em casa para a proteção da família. A regra valia, sobretudo, para as gestantes guarani. Os odores da mulher grávida, eles contam, seriam especialmente atrativos para o apurado olfato das onças. O tempo passou, mas a tradição segue valendo: até os dias de hoje, os futuros pais e mães da etnia Guarani Mbya permanecem dentro de casa todas as noites, durante nove meses, até que a criança, enfim, venha ao mundo. 

A estudante de Letras da UFSC e indígena Guarani Mbya, Ester Antunes, grávida de 5 meses. Foto: arquivo pessoal

Essa tem sido a rotina dos últimos cinco meses para Ester Ara’i Antunes (23) e Vilmone Djekupé Samaniego (22), que só deixam a casa na escuridão quando estritamente necessário. Estudantes da UFSC, os jovens serão pais de um garoto que nascerá em novembro na aldeia Pira Rupá Maciambu, localizada em Palhoça/SC.   

Ara’i e Djekupé optaram por criar o filho seguindo as tradições de seu povo. A diferença entre Ara’i em relação a sua mãe, tias e avós é que, dessa vez, o retiro domiciliar não está restrito ao período noturno: por conta da pandemia do coronavírus, a comunidade já vinha ficando em suas casas, também durante o dia, desde o começo de março. Embora não haja casos confirmados da doença na Pira Rupá Maciambu, aldeias vizinhas de Biguaçu e Major Gercino já registram infecções pelo novo coronavírus. 

O fato tem afetado o acompanhamento pré-natal da futura mamãe, que recebe visitas mensais de médicos da SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena). De acordo com ela, não há estrutura na própria aldeia para a realização de todos os exames e consultas necessárias e a periodicidade das visitas da SESAI não teria aumentado por conta das gestações. Também não há nenhum auxílio específico para as gestantes, que têm que recorrer ao Polo-Base de Saúde Indígena, localizado na cidade vizinha de São José, em caso de emergência. 

O Polo é responsável pela saúde dos mais de 700 indígenas da região metropolitana de Florianópolis e é para ele que as mães devem se dirigir para intervenções de maior complexidade. O exame de ultrassom para descobrir o sexo do bebê já foi realizado por ela – logo mais, chega um menino à aldeia. Assim como Ester, a irmã, Juliane (que vive na aldeia de Linha Limeira, no oeste catarinense), e uma amiga da comunidade vizinha do Morro dos Cavalos, também darão à luz a garotos durante o segundo semestre.

Ainda há mais um fator complicador envolvendo a pandemia e a gestação das três mulheres: a paralisação das atividades econômicas afetou, em maior ou menor grau, quase todas as 17 famílias da aldeia. Por conta disso, o custeio para os enxovais e necessidades básicas da irmã e da amiga de Ara’i foram conseguidos com auxílio de familiares, amigos e pessoas externas à aldeia. Ela e Djekupé, entretanto, ainda não têm o suficiente.  

Embora o pai trabalhe como professor, ambos estão atualmente sem nenhum auxílio financeiro da UFSC, como bolsa manutenção ou auxílio emergencial. Pensando nisso, a estudante criou uma campanha para arrecadar dinheiro e doações de roupas e conta com a ajuda de você, que lê este texto, para que os primeiros meses do bebê que está para chegar sejam mais confortáveis.  

O esposo ainda ressalta a necessidade da doação de alimentos que, embora sejam necessários para todos da comunidade, são ainda mais fundamentais para as gestantes. Isto porque, ao saberem da gravidez, as mães entram numa dieta regrada visando preparar seus corpos para o parto – uma prática similar acontece na época da primeira menstruação das meninas guarani. Medicina e psicologia tradicionais são utilizadas desde o começo da gestação, em um processo que é conhecido em sua totalidade apenas pelas mulheres da aldeia – as mais antigas são, geralmente, guardiãs dos ensinamentos.  

Ao dar à luz, as mães entrarão em quarentena, restringindo ainda mais seus hábitos alimentares. Durante esses quarenta dias, por exemplo, não haverá consumo de carne pois, segundo elas, prejudica a amamentação. Elas também pouco saem de casa durante o período. Os pais costumam restringir a alimentação como forma de apoio às mães e filhos e têm permissão para sair de casa, mas a tradição manda que as saídas sejam feitas pela manhã e apenas após se banhar na fumaça do pitanguá, o cachimbo guarani. A prática serve para que o cheiro da criança não seja levado para fora de casa – tradicionalmente, servia para afugentar animais da floresta, em especial a onça. 

Contra a vontade de muitas das mulheres, os partos são hoje feitos em hospitais da região e não mais por parteiras, como eram tradicionalmente realizados – a prática é hoje vetada por lei. Passados os 40 dias, restrições apenas para a criança: começarão a comer alimentos sólidos apenas por volta dos nove meses de idade, com ajuda da mandioca e da batata doce plantados na aldeia para estimular a mastigação.  

A infância guarani 

“Para nós, guaranis, escola antes dos 6 anos é um absurdo”, comenta Djekupé. A pré-escola guarani é feita em família e, embora os celulares já estejam presentes no cotidiano das crianças da Pira Rupá, é neste período em que começam a aprender sobre a sabedoria tradicional guarani e a rotina da comunidade, bem como seus cantos e danças. O idioma local é o mais falado dentro da aldeia. 

Aos seis anos de idade, vão à Escola Indígena de Educação Fundamental Pira Rupá, fundada em 2014 após anos de reinvindicações. Até o 5º ano, terão aulas de introdução às matérias ditas convencionais, como Matemática e Ciências, sempre adaptadas à realidade guarani. Mas, nesta fase, o foco principal segue sendo o conhecimento tradicional: medicina, música e dança. Isto porque a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) garante às comunidades indígenas “o direito a uma educação escolar específica, diferenciada, intercultural, bilíngue/multilíngue e comunitária”. Ainda assim, adaptar o material do MEC – que segue sendo obrigatório – à rotina da Pira Rupá nem sempre é fácil, e os professores definem a fase de ingresso na escola como “uma das mais difíceis” na vida de um indígena guarani. Com menos de uma década de funcionamento, o conteúdo programático das disciplinas da escola segue em constante mudança. 

É a partir do 6º ano do Ensino Fundamental que começa “a pira da cidade”, segundo relata Djekupé. Ele leciona cinco disciplinas diferentes para os jovens da EIEF Pira Rupá desde que ingressou no curso de Engenharia Sanitária Ambiental da UFSC, há três anos, e conta que é a partir da adolescência que os conteúdos convencionais passam a ser introduzidos de maneira mais incisiva.  

EIEF Pira Rupá, localizada dentro da aldeia, foi fundada em 2014 (Foto: arquivo pessoal)

O fato, inclusive, já gerou reclamação de um pai, descontente com o excesso do uso da língua portuguesa por um de seus filhos, que estuda na escola da aldeia. Mas, segundo Djekupé, esta transição é necessária pois o Ensino Médio só é oferecido na cidade, e muitos dos jovens têm o sonho de ingressar na universidade, a exemplo do professor e de Ester, que é estudante de Letras. 

Ainda assim, é na adolescência e dentro do ambiente escolar onde os jovens aprimoram aquele que talvez seja um dos principais traços da cultura guarani: a dança do xondaro ou da xondaria (guerreiros e guerreiras), uma mistura de passos de dança e de luta, realizados por homens e mulheres em círculos, que sumarizam uma série de ensinamentos de sua cultura e dá aos jovens a força de um guerreiro, pronto pra enfrentar os desafios da vida adulta.

Por conta da pandemia, os estudos estão sendo temporariamente realizados de maneira remota na escola da Pira Rupá. De casa, o professor e futuro pai, Djekupé, e sua esposa, Ara’i, voltam todas suas atenções para a chegada do pequeno xondaro, que deve acontecer no mês de novembro. Até lá, eles seguem protegendo a si mesmos e familiares, e contam com a sua ajuda. 

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