Um ano longe do picadeiro

Os desafios dos circos itinerantes pelo país em meio à pandemia

Reportagem de Hillary Marcos e Marcos Albuquerque

Foi na infância que a avó apresentou a Janayna o trabalho do circo, como um convite à liberdade e um caminho para a independência. A anciã da família entregou à menina de 10 anos um tabuleiro com pirulitos artesanais, aqueles feitos com calda de maçã. Partindo da sabedoria de anos de muita luta entre lonas, carretas e barracas, olhou nos olhos da neta e disse: “Agora essa vai ser a tua defesa, a quitanda, o que a gente vende no circo, agora tu vai ter o teu dinheiro”. As atividades, daquele momento em diante remuneradas, se tornaram parte da rotina da menina que desde o nascimento já perambulava entre o palco e as tendas. Esse trabalho e modo vida fazem parte da essência de Janayna Passos, atriz e pedagoga, que hoje tem 41 anos. 

As experiências debaixo da armação de lona colorida, no entanto, mudaram depois do fatídico março de 2020, quando um inimigo ainda pouco conhecido iniciou sua incursão pelos diferentes estados do país: o vírus da Covid-19. Circo Teatro Biriba, dirigido por Janayna, é um entre centenas de circos itinerantes que durante o último ano enfrentaram  dificuldades no ofício.

“Desde os dez anos eu tinha o meu rendimento e fui guardando. E daí de repente tu não podes mais trabalhar, não tem mais como se sustentar, como que tu vai fazer? 

Janayna (vestindo blusa azul) com parte do elenco do Circo Teatro Biriba   no cenário de um dos espetáculos antes da pandemia | Foto: Arquivo Circo Teatro Biriba

Foram os moradores de Gaspar, no Vale do Itajaí, os últimos a prestigiar um show no picadeiro do Biriba, antes do grupo enfrentar mais de 290 dias de portas fechadas. “Foi a pior fase da minha vida, o pior momento que eu vivi na minha vida profissional que se mistura com a minha vida pessoal, porque eu dou três passos e eu tô no palco”, desabafa Janayna. Antes desse período, o grupo nunca havia tirado férias. De início, a situação foi vista como uma boa oportunidade de descanso depois de anos na estrada, contudo a pausa na rotina de trabalho e no modo de vida nômade gerou questionamentos: e se a pandemia permanecesse por muito tempo? Deveriam vender as carretas, a lona, comprar uma casa para se estabelecerem e desistir do estilo de vida itinerante? 

Antes da pandemia, a companhia podia receber até 600 pessoas em suas apresentações. Após dias de restrições mais rígidas e ausência total do público, para a contenção do vírus, a retomada das atividades ocorreu de forma gradual com as posteriores flexibilizações. Essa situação muda o tempo todo, devido às diferentes fases da crise sanitária. “Tem dias que vem 40 pessoas, outros 50, em peças mais chamativas vem 100. Os ingressos estão sendo vendidos de acordo com a capacidade, respeitando as normas”, explica Janayna.

A Covid-19 também atingiu em cheio a companhia familiar do circense Ítalo Carreiro da Silva, de  59 anos. Desde o início das contaminações, o circo Di Tari estacionou suas carretas no pequeno município de Rio Fortuna, no Sul catarinense. A rotina de espetáculos, que chegava a 40 por mês nos tempos pré-pandemia, não voltou a se repetir em nenhum momento do último ano. Com pouco público e diante das medidas restritivas, a equipe suspendeu as atividades por tempo indeterminado. Pouco antes do coronavírus chegar aos noticiários, as economias que poderiam servir para a manutenção do circo e apoio financeiro aos seus artistas foram investidas em uma necessidade básica em todas as companhias: a troca da lona que cobre o picadeiro e as arquibancadas. 

Lona que cobre a estrutura do Circo Di Tari | Foto: Arquivo Circo Dii Tari

Sem os shows e a arrecadação de dinheiro nas bilheterias, as 19 pessoas que trabalhavam no Di Tari tiveram que buscar outras formas de sustento. Ítalo afirma que a sobrevivência está sendo garantida pelos “bicos”: “Uma das minhas filhas arrumou emprego meio período numa lanchonete. Minha esposa também arrumou emprego, ganha meio salário. Eu fui para São Paulo trabalhar de motorista, fiquei dois meses”. No comércio local de Rio Fortuna, onde estão estabelecidos desde março de 2020, os integrantes do Di Tari também trabalharam com entregas para lojas, propagandas comerciais, fábrica de ração e no corte de lenha para madeireiras. 

Auxílio para artista de circo?

Marlene Querubin, no mundo do circo desde 1978, preside a União Brasileira dos Circos Itinerantes (UBCI) e aponta dois grandes desafios vividos pela maioria das companhias no último ano. Voltando ao início da pandemia no país, ela lembra da discriminação da atividade circense nos municípios em que estavam instalados. Foi necessário um trabalho de conscientização para que os gestores das cidades possibilitassem a permanência das companhias nos locais.

 “As prefeituras nem queriam ficar com o circo na cidade em função do medo. Outras cidades não queriam receber os circos”.

Vindos de uma jornada de grande circulação entre as cidades, justo no momento em que o coronavírus iniciava seu percurso de contaminações, o acolhimento das famílias circenses foi dificultado. 

 Como segundo desafio, Marlene aponta a busca pela liberação de incentivos governamentais para a sobrevivência da atividade. Desencontros burocráticos dificultaram a disponibilização, por exemplo, de recursos da renda emergencial da Lei Aldir Blanc, regulamentada pelo Presidente Jair Bolsonaro e que prevê auxílio financeiro ao setor cultural. Coordenada pelos municípios, as inscrições para o benefício não combinaram com a natureza nômade das companhias e as restrições de circulação impostas pela pandemia. Com o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) registrado geralmente em suas cidades sede para efeito legal, muitos circos não conseguiram receber os incentivos culturais porque as prefeituras das cidades onde estavam apresentando, diante da falta de um alvará nacional, não os reconheceram como munícipes; além daqueles que não tiveram sucesso por não possuírem nem mesmo registro jurídico. 

Para Marlene, a complexidade dos editais também causou problemas de comunicação com a cultura oral do circo, distante da escrita jurídica, fazendo com que muitos saíssem dos sites sem conseguir realizar corretamente a inscrição.  

“Eles fizeram uma coisa muito difícil, muito trabalhosa”, defende Ítalo Carreiro

Opinião semelhante com a de Janayna, “era um mundo totalmente fora da nossa realidade”. Tanto a companhia de Janayna, como a de Ítalo, recorreram aos auxílios disponíveis com o intuito de amenizar as dificuldades financeiras. “Em agosto a companhia conseguiu participar de alguns editais de apoio à cultura, como da Funarte e SC Cultura na Sua Casa“, conta a diretora do Circo Teatro Biriba. O benefício da Funarte foi solicitado também pelo Di Tari, porém o grupo ainda não recebeu o  pagamento, no valor aproximado de R$ 2.600,00. 

Das companhias que conseguiram cumprir os requisitos legais, muitas ainda estão sem receber os benefícios. Erminia Silva, doutora em História da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é de família circense e acredita que a situação escancara uma desvalorização histórica dos artistas. “É um desrespeito! Essa questão por exemplo do auxílio emergencial, nem isso tá saindo, você imagina o que eles vão fazer com um artista de circo pequeno no interior do Nordeste?! Só algumas vidas valem a pena. Imagina o artista circense, itinerante de lona, nessa cadeia alimentar. É uma situação muito difícil”. 

Por muitos anos o circo foi uma das únicas ofertas de arte em cidades pequenas e remotas. Foi no picadeiro que grande parte do público brasileiro teve o primeiro contato com o teatro, a música e a dança. Segundo dados da UBCI, antes da pandemia, o Brasil contava com mais de 600 circos itinerantes, entre pequenos, médios e grandes. 

Para a presidente da organização, Marlene Querubin, dedicar mais atenção ao setor é essencial: “Nesse momento, nós temos que cuidar do circo brasileiro, dar condições do circense sobreviver porque senão ele vai acabar migrando para outras atividades. Ele é muito importante na formação da identidade cultural. O circo inspira toda uma cadeia criativa”. Segundo ela, mais de dez projetos que protegeriam o circo como patrimônio cultural e imaterial encontram-se engavetados na Câmara dos Deputados. “Nós somos já patrimônio de fato, mas de direito, não”.

Quando os risos voltarem às arquibancadas

No início de outubro de 2020, com o relaxamento de medidas sanitárias e diante de um cenário epidemiológico menos agressivo, as portas foram reabertas no Biriba. As três semanas seguintes de volta aos palcos despertaram esperança na equipe de artistas da companhia, entretanto o avanço da doença de forma acelerada depois das eleições municipais de novembro fizeram com que as atividades fossem interrompidas novamente. De lá pra cá, entre períodos de abre e fecha, os números da Covid-19 seguiram tendência de crescimento e um ano depois do início da pandemia no país, o mês de março de 2021 ainda é palco de um futuro recheado de incertezas para o funcionamento dos circos itinerantes.

Segundo a UBCI, somente 10% das companhias ainda se mantêm de pé, ao passo que as demais seguem com atividades totalmente paralisadas e situação financeira crítica. Para Marlene, a vacinação da população contra a Covid-19 deve permitir o retorno à normalidade. Diferente das medidas paliativas adotadas até o momento, acredita que a imunização será a única forma de trazer segurança suficiente para artistas e o público. “Eu acredito que o circo vai sobreviver, como instituição ele continuará porque ele é muito forte e resiliente. Ele vai se moldando conforme a era em que ele está, por isso é sempre contemporâneo”.

Janayna vê a prevenção como o caminho para o futuro. Uma prevenção ligada à saúde, aumentando o cuidado com a vida das pessoas e também relacionada com uma mudança de comportamento nas companhias, que segundo ela devem passar a se preparar mais para possíveis intempéries que possam ocorrer no futuro, semelhantes à Covid-19. Ao falar da pandemia, a atriz e diretora do Circo Teatro Biriba se emociona e lembra da perda de familiares há alguns anos.

“Muitas pessoas perderam entes queridos de forma muito complicada, é uma doença muito cruel. Eu perdi meus pais de câncer, mas podia estar com eles. E muitos não puderam acompanhar nada, isso vai deixar marcas nas pessoas”.

Quando os pais faleceram, o trabalho do circo teve extrema importância na recuperação emocional dos integrantes da companhia. Abrir as cortinas, voltar aos palcos e receber os aplausos do público trouxe força para continuar. No mundo pós-pandemia, ela acredita que o riso terá um papel semelhante. “A prevenção é fundamental e o teatro, o circo, a arte, são essenciais para isso. Por isso acho essencial a gente continuar nosso trabalho para aliviar essas dores”.

No Di Tari, a esperança de dias melhores traz conforto. A grande família circense, sob comando do palhaço “Perereca”, personagem de Ítalo, deseja que o setor possa ter um retorno triunfal. “Eu sinto na pele o que os outros estão passando, e os outros sentem o que nós estamos passando. Eu tenho certeza que o circo não vai morrer”.

Para o artista, nascido em uma barraca de circo e há mais de cinquenta anos na vida itinerante, a pandemia da Covid-19 no futuro será lembrada junto de outros desafios. “Já tive muitos acidentes com circo, com caminhão, já vi circo ser destruído várias vezes por temporais e sempre recomeçamos. Sempre recomeçamos! Eu digo pro meu filho: No circo você tendo uma lata de cola e uma máquina de solda, em dois ou três dias você bota ele pra funcionar de novo”.

 

Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição III, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da Profa. Dra. Melina de la Barrera Ayres.

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