Inauguração da Trilha de Longo Curso do Parque Estadual do Rio Vermelho, no dia 21 de dezembro de 2021, com participação do Instituto Çarakura | Reprodução: Facebook Instituto Çarakura

Trilhando caminhos verdes

O turismo sustentável e a nova tendência regenerativa no setor, proporcionando experiências únicas aos visitantes e novas fontes de rendas às comunidades locais

Reportagem por Clarisse Claro e Leticia Schlemper

O barulho da água das cachoeiras batendo nas pedras, os aprendizados sobre comida orgânica, o cheiro das árvores úmidas, a conservação dos biomas locais e as conversas com a população local. Estas são algumas das experiências que, quando buscadas por um viajante, compõem o turismo sustentável. Também conhecido como ecoturismo, a atividade foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) no relatório Brundtland, de 1991, que definiu o desenvolvimento sustentável.

Baseado nos princípios de desenvolvimento sustentável, o ecoturismo se mantém a partir de três conceitos principais: o mínimo impacto ambiental, o envolvimento comunitário e o conhecimento adquirido pelo turista. “O turista tem que sair com mais conhecimento do que quando ele entra numa trilha, não é só lazer. Esse conhecimento pode ser técnico ou empírico, por exemplo, das comunidades tradicionais indígenas. Se ele passou por isso, se essa atividade turística teve o mínimo impacto ambiental e se a comunidade local foi envolvida na atividade com o oferecimento de algum serviço, aí sim é sustentável”, explica o turismólogo Rafael Freitag.

O ambiente renovador da natureza atrai cada vez mais visitantes. Nos últimos três anos, de acordo com o Ministério do Turismo, cerca de 19 milhões de estrangeiros vieram ao Brasil com motivações turísticas, sendo que 18,6% buscaram o ecoturismo. Porém, não só turistas de outros países buscam destinos sustentáveis. Mais de 60% dos brasileiros optaram por esse tipo de viagem em 2019, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD).

Com a pandemia de Covid-19, essa tendência se tornou ainda mais forte. Há cada vez mais viajantes procurando destinos ao ar livre e integrados à cultura local. Em um momento de isolamento social, o contato com a natureza foi essencial para o equilíbrio mental. “Em um lugar de natureza, até o tempo parece que é um pouco diferente, é mais tranquilo”, relata o turista Fabricio Almeida. Além disso, no contexto da Covid-19, o turismo sustentável não promove aglomeração, já que nunca vão ter 100 pessoas em uma trilha”, aponta Rafael. Além disso, há o contato com as coisas simples, que são a alimentação natural, o contato com a natureza, o contato com as comunidades e os saberes tradicionais.

Nessa lógica de gerar uma relação próxima entre o turista e a comunidade local, surgiu, há 10 anos, o projeto Costa Catarina, que reúne 15 receptivos culturais, como são chamados os moradores locais que acolhem os turistas. A associação tem como objetivo o desenvolvimento territorial sustentável aliado à promoção da identidade cultural nos municípios de Garopaba, Imbituba e Paulo Lopes, no litoral de Santa Catarina. “Um exemplo é o roteiro ‘Dunas do Roncador’. Nesse passeio tem uma parada para café no Chocolates Garopaba, onde fazem chocolate artesanal. Eles têm todo um trabalho de recuperação ambiental na propriedade, além de avistamentos de pássaros e de árvores”, conta Adriane Maria Scopel, responsável pela associação. Os viajantes também podem conhecer ranchos de pesca, engenhos de farinha e comunidades quilombolas, além de provar produtos coloniais e artesanais da região. Tudo isso ao mesmo tempo em que entram em contato com a natureza, principalmente por meio de trilhas.

Pesca Artesanal na Praia Vermelha em Imbituba durante a Safra da Tainha em setembro de 2021 |
Reprodução: Facebook TBC Costa Catarina

Tanto o Chocolates Garopaba quanto os outros receptivos montaram os roteiros em conjunto com o Costa Catarina. Além dessa preocupação na montagem das rotas turísticas, a educação ambiental junto com as famílias e comunidades é um ponto trabalhado pelo projeto. “Por exemplo, no Morro do Fortunato [em Garopaba], no início, eles usavam copo e prato plástico. Na medida do possível, a gente constrói o conceito ambiental com os receptivos para ter um um menor impacto e uma maior consciência. Isso inclui usar produtos que não sejam descartáveis e colocar produtos locais na própria alimentação”, explica Adriane.

Além da consciência ambiental, a valorização cultural traz grandes mudanças nos habitantes locais, já que “faz com que eles permaneçam e queiram desenvolver essa atividade turística. E, hoje em dia, é um trabalho de resistência manter a pesca artesanal e a agricultura familiar vivas”, conclui a responsável pelo Costa Catarina. Todos esses fatores resultam em um olhar de reconhecimento dos receptivos como tesouros locais.

As preciosidades regionais não estão restritas somente às comunidades litorâneas, associadas ao Costa Catarina. Eles estão igualmente presentes no interior do estado, como nas cidades de Urubici, Santa Rosa de Lima e Anitápolis, reunidos pela associação Acolhida na Colônia. Diferente do projeto no litoral, que foca na apresentação da identidade cultural local, a Acolhida tem como principal meta a manutenção da agricultura familiar através do agroturismo sustentável.

Lucilene Assing, que faz parte da equipe técnica da associação, aponta que eles nãooferecem um turismo de massa, onde tem viajantes todos os dias causando um impacto e desfigurando a propriedade. “O número de visitantes não é um número alto, até porque as propriedades não comportam”, explica a técnica. Esse aspecto, inclusive, é um atrativo, como conta o turista Fabricio. “Em um destino com menos turistas as pessoas são mais amigáveis, eu gosto mais. Tem mais hospitalidade, mais relação com as pessoas locais e também com o ambiente natural. Em destinos de massa, nas grandes cidades, você não conhece as pessoas e é difícil conversar”.

Foi justamente o bate-papo com os turistas que mostrou para Marilda Weber, dona da pousada Recanto das Cachoeiras, uma das hospedarias participantes da Acolhida na Colônia, o potencial de sua propriedade. A associação teve participação no início da organização do estabelecimento. “Se a gente não tivesse o incentivo inicial da Acolhida, não teríamos saído da casca, tínhamos ficado fechados. Além disso, foi com a ajuda dos turistas que a gente conseguiu descobrir tudo o que tinha aqui e que ninguém olhava. Essa transformação foi excelente. Hoje temos uma pousada encantadora, com muitas alegrias”, conta a empreendedora. As atividades oferecidas estão totalmente ligadas à natureza e à sustentabilidade, incluindo trilhas, cachoeiras, pesca, banho de rio, alimentação orgânica e produtos coloniais.

Pousada Recanto das Cachoeiras oferece hospedagem em chalés, café colonial, interação com
animais e trilhas autoguiadas| Reprodução: acervo pessoal Marilda Weber

A agricultura sem agrotóxicos não é exclusividade da propriedade de Marilda. Esse é um pré-requisito para participar da associação. Outra exigência é que o receptivo já tenha um compromisso com o meio ambiente. “A preservação ambiental é importante. Se existe algo que deve ser recuperado, como uma nascente ou uma mata ciliar, é estabelecido ao agricultor a necessidade de melhorar essa questão na propriedade e usar isso a favor do turismo, utilizando mais trilhas ou plantando árvores frutíferas para que ele possa fazer geleias, sucos ou comercializar para o turista”, explica Lucilene.

O melhor aproveitamento da propriedade gera um aumento na renda do agricultor e promove conhecimento e valorização profissional. “A maior vantagem de fazer parte da Acolhida é o conhecimento que adquirimos. Conhecemos muita coisa, fizemos muitos cursos, muitas viagens e muitos amigos, e hoje temos qualidade de vida. Meu marido já vai fazer 70 anos e eu 64, estamos aqui para curtir a nossa velhice”, diz Marilda. O sorriso no rosto da agricultora, que estava prestes a se mudar para São Paulo antes de inaugurar o Recanto das Cachoeiras, não nega que está realizada profissionalmente com a sua pousada e sua vida sustentável em torno de belas quedas d’água.

Mais que sustentar, regenerar

O turismo sustentável foi legitimado em um contexto de grandes mudanças econômicas ao redor do mundo. Na segunda metade do século XX, houve uma preocupação generalizada frente à crise social e ambiental mundial. Isso se reflete inclusive na Conferência “Rio 92”, organizada pela ONU, que teve como tema principal a preocupação com os impactos ambientais. Além disso, a própria massificação da atividade turística, ocorrida entre 1950 e 1970, gerou consequências negativas para os lugares visitados e trouxe à tona a demanda de um turismo sustentável. Atualmente, existe um grande debate sobre a necessidade de transformação do turismo: sustentar é suficiente? Ou precisamos de ações que regenerem os ambientes impactados pelo turismo de massa?

A reflexão sobre as consequências das viagens tradicionais fez a jornalista Ana Duék criar o site Viajar Verde, em 2015, como espaço de troca de interação relacionado ao turismo sustentável. Atualmente, ela busca estudar mais sobre o conceito recente de turismo de regeneração, e traz esse tema para os seus textos. “A ideia de desenvolvimento regenerativo já existe desde 1930. É uma coisa muito antiga, mas só está chegando no setor de viagens há alguns anos”, conta Ana.

Se apoiando nos mesmos pilares das atividades sustentáveis, as ações turísticas regenerativas levam em consideração outros dois pilares: o político e o espiritual. A jornalista explica que “a parte de governança é importante na estruturação desse tipo de destinos. Além disso, há uma mudança completa do jeito que a gente vê as coisas. A ideia é a gente desaprender e aprender tudo de novo, pensar de uma forma diferente. O lado espiritual entra junto com a proximidade da natureza”.

Em Florianópolis, Santa Catarina, está localizado o Instituto Çarakura, um sítio que trabalha não só com a conservação da natureza, mas com sua recuperação. “Temos uma proposta a princípio mais voltada para o turismo escolar, com base no desenvolvimento e na educação ambiental. Os visitantes sempre participaram de forma ativa das ações”, diz Andrea de Oliveira, presidente do instituto. Criado em 2002 e transformado em ONG em 2007, o Çarakura, além da educação ambiental, atua com bioconstrução, permacultura e pesquisas florestais.

No sítio do Çarakura, a regeneração está relacionada ao cuidado da área de forma participativa, tanto de técnicos como de voluntários e visitantes, e não apenas vista como projeto teórico. Nele, ocorrem atividades de plantio, de colheita e de preservação da propriedade. Andrea explica que “o sítio não é uma vitrine, não é um local onde as pessoas chegam e está tudo pronto. Tudo que tem lá é construído pelas próprias pessoas que passam. Ao longo desses 20 anos vejo que há não apenas construção e regeneração da natureza, mas uma reestruturação das relações das pessoas com a natureza”.

Além da atuação na própria sede, eles atuam em outras unidades de conservação. A presidente do Çarakura conta que eles desenvolvem práticas regenerativas por meio de manejo de trilhas e a sinalização das mesmas, com o apoio de uma equipe com técnicos, estagiários, voluntários e pessoas da comunidade. Além disso, o instituto faz há sete anos a gestão compartilhada da maior unidade de conservação do estado, o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.

A fim de trazer à tona o tema da revitalização do meio ambiente, a ONU deu início em 2021 à década de restauração de ecossistemas. Seguindo esse lema, o Çarakura conseguiu fortalecer as atuações de regeneração no primeiro ano da campanha e realizar o grande sonho dos fundadores de trabalhar em duas comunidades indígenas, das etnias Kaingang, no Paraná, e Guarani, em Santa Catarina. Andrea conta que deseja ir além da campanha da ONU e continuar expandindo os projetos de restauração do instituto. “A gente deseja, sonha e busca manifestar esses sonhos de primeiro ampliar a escala da restauração, atuar em outros estados, não só em Santa Catarina. Queremos atuar e promover essa troca não só aqui do bioma Mata Atlântica, mas também com a Amazônia, porque realmente ela foi muito foco de degradação no último ano”. Ela ainda reforça que, mesmo sendo guiados por ações regenerativas, devemos sempre fortalecer o que já existe.

Para Ana, o caminho para a transformação ocorre devagar e deve ser constante, “tem muita coisa que eu acho que ainda precisa se transformar e mudar. O importante é começar, e se você for fazendo aos poucos você chega lá”. Andrea, por sua vez, percebe no dia a dia como a sua relação com o mundo é diferente e se sente realizada por seguir um caminho alternativo. “Consigo construir um outro tipo de relação com as pessoas, mais justa, de não exploração e colaborativa. Em termos financeiros, não cultivo aquele sentimento de acumular. Muito pelo contrário, sigo um dos grandes pilares da permacultura que é compartilhar excedentes e não acumular excedentes. Isso me torna uma pessoa muito feliz”. O caminho verde não é apenas a solução para a grande pressão que os seres humanos exercem nos ecossistemas, mas sim uma alternativa que fortalece as próprias relações entre as pessoas. Assim, o turismo verde se coloca como uma saída, para poderemos continuar ouvindo os barulhos da água das cachoeiras batendo nas pedras, tendo conversas com a população local e sentindo o cheiro das árvores úmidas.

Reportagem produzida na disciplina Linguagem e Texto Jornalístico III, ministrada pela Profa. Dra. Melina de la Barrera Ayres, no primeiro semestre de 2022.

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