Atuando pelo Corinthians, Marcelo foi campeão brasileiro na categoria feminina. (Divulgação/Agência Corinthians)

Práticas de liberdade: a transexualidade no futebol

Preconceito, falta de protocolos e apoio são algumas das barreiras enfrentadas pela comunidade trans, que segue em busca de igualdade no esporte mais amado do país

Reportagem por Cael Sobral

Na final da categoria feminina de futebol das Olimpíadas de Tóquio 2021, a seleção canadense venceu a Suécia por 3 a 2 nos pênaltis, após o empate em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação. Nas penalidades, duas bolas na trave e duas defesas da goleira canadense contribuíram para o início da comemoração vermelha. A partida que havia tido seu horário, data e local alterados por conta da preocupação com o calor, proporcionou um “rasgo” positivo na história binária do esporte. O principal motivo não seria o primeiro ouro olímpico do Canadá, que havia eliminado o Brasil nas quartas de final, mas sim a participação de “Quinn”. Com calção, camiseta, meiões vermelhos e a numeração cinco estampada no uniforme, Rebecca Quinn entrou em campo defendendo as bandeiras do Canadá e da diversidade. Ao subir no pódio, Quinn se tornou a primeira pessoa transgênero e não binária a conquistar uma medalha de ouro na história do esporte. Medalhista de bronze em 2016 e de ouro em 2021, sua atuação nas olimpíadas abriu debates no futebol, forçando o comitê olímpico a atualizar as diretrizes impostas às pessoas transexuais.

Quinn mostra a camiseta que recebeu das colegas de equipe com número cinco nas cores do arco-íris e a braçadeira de capitã nas cores da bandeira trans. (Fotos: Reprodução/Instagram)

A eliminação do Brasil nas olimpíadas para o Canadá, uma seleção feminina que abraça a transexualidade, remete ao atraso social brasileiro. Enquanto, aos poucos, o mundo esportivo busca incluir pessoas transgênero, o Brasil, que é intitulado o “país do futebol”, não tem um esporte ou sequer uma sociedade inclusiva. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), em 2020, o Brasil se manteve em primeiro no ranking da violência contra pessoas trans no mundo, com 175 assassinatos. Apenas no primeiro semestre de 2021, 89 pessoas trans morreram, sendo 80 assassinatos e nove suicídios. Também ocorreram 33 tentativas de homicídio e 27 violações dos direitos humanos.

Assim como em outras áreas sociais, no futebol essa violência também é percebida na história de atletas transexuais que enfrentam o preconceito com a bola nos pés. Jogando pelo Desportivo Lusaca, Sheilla Souza, de 30 anos, é considerada a primeira mulher transexual a ter atuado no futebol feminino brasileiro. “Minha trajetória no mundo da bola começou aos 16 anos, porém eu odiava jogar futebol. O meu esporte favorito, na verdade, era brincar de boneca com meus primos”. Na infância, a atleta era forçada pelo seu pai a jogar futebol, para que se tornasse um homem. “Meu pai criou uma rotina para mim, onde eu tinha que chegar do colégio, fazer minhas atividades e depois ir para o campo com ele. Eu comecei a jogar, mas toda vez que eu ia para campo, eu não era o Sérgio e sim a Sheilla”.

Sheilla durante testes realizados na equipe do Vitória. (Fotos: Arquivo Pessoal/Sheilla Souza)

Forçada a jogar, a atleta começou na Seleção da Serrinha, equipe do futebol amador masculino do município da Bahia. O primeiro contato com a categoria feminina ocorreu aos 16 anos quando conheceu Ludmila. A amiga do colégio a convidava para jogar com outras meninas durante as aulas de educação física. No momento de competir em torneios, Sheilla era barrada por conta de sua fisionomia masculina. De acordo com Bernardo Gonzales, homem transmasculino e ativista por um futebol inclusivo, a sociedade impõe restrições à prática do futebol, a partir do gênero. “É curioso a diferença das trans masculinidades e trans feminilidades antes de suas transições. No caso das trans feminilidades, o processo de obrigação de ter que praticar o futebol para se ‘tornar’ um homem. Já no caso dos homens trans, o contrário, essa obrigação de não praticar o futebol, por conta de ser um esporte ‘masculino’”.

Decidida a seguir a carreira no futebol feminino, Sheilla realizou a transição hormonal aos 21 anos, mas a possibilidade de competir na categoria ocorreu apenas com 26 anos, quando conseguiu a retificação de seu nome. Quando se trata da participação de atletas transexuais no esporte, a grande questão é a transição hormonal e seus efeitos no corpo humano. Em um cenário profissional, a falta de protocolos pode significar o fim da carreira de um atleta. A ausência de perspectivas no futuro muitas vezes ocasiona o adiamento da transição. Como no caso de Marcelo, que conquistou três títulos mundiais no futsal feminino e um campeonato brasileiro, o principal título da categoria feminina de futebol de campo no Brasil. “Eu me descobri trans em 2015, tinha 27 anos na época e podia ter iniciado uma transição ali. Mas a decisão pesou porque eu estava vivendo um bom momento na carreira. Eu não queria deixar de jogar, era minha profissão, sempre foi, então decidi adiar. Vou terminar uma carreira no feminino e depois começar a transição”.

Assim como muitos esportistas, a paixão de Marcelo pelo futebol surgiu na infância. Filho de um ex-jogador profissional, o menino que cresceu com fisionomia feminina conquistou espaço nos campos e nas quadras. Com uma história próxima de Sheilla, Marcelo começou no futebol masculino, mas foi impedido de competir pela fisionomia considerada feminina. “Na hora de disputar a partida, eu não podia, porque eu me enquadrava na categoria feminina. Foi aí que minha mãe encontrou uma equipe feminina na minha cidade e, por conta de poder competir, eu decidi ir pro futsal”.

Atuando pelo Corinthians, Marcelo foi campeão brasileiro na categoria feminina. (Divulgação/Agência Corinthians)

Somando a vida no futsal e no futebol, foram 16 anos na categoria feminina. O atleta passou por equipes como o Kindermann, XV de Piracicaba, Santos e chegou a disputar uma Champions League, antes de chegar ao Corinthians, principal clube do futebol feminino brasileiro na atualidade. Mesmo com uma carreira consolidada, em seu auge físico e com possibilidades de convocação para a seleção brasileira, ele não se reconhecia no espelho. Adiar a transição ocasionou um grande desgaste em sua saúde mental, levando-o ao estado de depressão. Ao final da temporada acumulava títulos, mas também dores, antidepressivos e dúvidas. “O mais difícil é se abrir. Você fica muito imerso na situação negativa, a tristeza, que é difícil sair daquilo ali. A gente não sabe quando isso começa”.

Após a transição, Marcelo decidiu seguir no futebol amador. (Fotos: Arquivo Pessoal)

No auge da depressão, o atleta decidiu rescindir seu contrato com o Corinthians e encontrar-se consigo mesmo. “Às vezes, as pessoas pensam muito na minha carreira, mas eu não estava feliz. Independente de ter uma carreira de sucesso, de ter uma carreira consolidada, eu não me reconhecia no futebol feminino. Eu me olhava no espelho e não me reconhecia”, relata o atleta. Hoje aos 33 anos, Marcelo se mudou para a Espanha, mantém a forma física através do Crossfit e pensa em seguir no futebol amador. “Independente de ainda não estar atuando, ou se isso vai acontecer ou não profissionalmente, eu estou feliz com a decisão que tomei e irei seguir de fora defendendo as pessoas trans no esporte. Precisamos de espaço para essas pessoas em qualquer área, em qualquer lugar, como qualquer outra pessoa merece”.

Já Sheilla Souza pretende seguir sua carreira como um ato de representatividade. “Eu só não desisti, porque sei que represento as mulheres trans. É por elas e por mim que eu sigo no futebol”. A atleta, que luta contra o preconceito usando a habilidade nos pés, decidiu rescindir seu contrato com o Desportivo Lusaca. Com otimismo, vem realizando testes em grandes equipes, como o Vitória e o Bahia, e pretende assinar um contrato com um time de grande porte em 2022.

Futebol e preconceito

O afastamento da comunidade trans do futebol remete às práticas de preconceitos e exclusão social ocorridas na história do futebol brasileiroEm relação ao futebol feminino, no período entre 1941 até 1979, as mulheres foram proibidas de praticar o esporte. O Conselho Nacional de Desportos (CND) proibiu jogos de futebol feminino em todo o país, com a justificativa de que “a prática era incompatível com as condições de sua natureza sexual”. Mesmo com a revogação do decreto-lei, o futebol feminino foi regulamentado no país apenas em 1983. Outra minoria social afastada do futebol foi a comunidade negra. Há cerca de 100 anos, entre 1921 e 1922, negros não podiam representar a seleção brasileira. A recomendação veio de Epitácio Pessoa, presidente do Brasil na época. Com a evolução da sociedade e o passar do tempo, algumas barreiras caíram e outras se mantiveram veladas. Em 2022, racismo e machismo não são, notadamente, uma novidade no esporte, que agora debate a participação de pessoas transgênero.

A discussão se tornou corriqueira no Poder Legislativo do país, nos níveis nacional, estadual e municipal. Em dezembro de 2021, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) apresentou um projeto que buscava proibir a participação de atletas trans em competições no Rio de Janeiro, caso escolhessem se inscrever para disputar as provas na categoria oposta ao sexo de nascimento. O projeto foi barrado na Câmara de Vereadores do Rio, após ser considerado inconstitucional. A ideia também gerou debates nas redes sociais. No twitter, muitos internautas apoiaram a ideia do vereador. Outros foram contra, considerando o projeto uma regressão.

Conhecido por ataques à comunidade trans, Carlos Bolsonaro e seu projeto receberam apoio de internautas.
(Fotos: Reprodução/Twitter)
O principal argumento utilizado por apoiadores do vereador é que atletas trans femininas teriam vantagem sobre mulheres cisgênero. (Fotos: Reprodução/Twitter)
Em contraposição, muitos internautas foram contra o projeto do vereador. (Fotos: Reprodução/Twitter)

A transição de uma pessoa não precisa ocorrer apenas de forma hormonal, a saúde trans engloba diversos aspectos. Algumas pessoas optam pela transição através da cirurgia, outras apenas alteram sua forma estética. O principal argumento de pessoas contrárias à participação desses atletas está vinculado às atletas trans femininas que realizaram uma transição hormonal, alegando que mulheres cisgênero seriam injustiçadas de ter uma atleta mulher trans em seu meio, por vir de um corpo biologicamente masculino. Já no caso de homens trans, por possuírem um corpo biológico feminino, teoricamente não ameaçariam atletas masculinos cisgênero. Atualmente, os homens trans não sofrem restrições das instituições do futebol. De acordo com Juliana Gabriel, endocrinologista e especialista em sistema reprodutor, a discussão é ampla por se tratarem de sistemas biológicos diferentes. Nem todos os corpos masculinos são os mais fortes e vantajosos, e nem os femininos, os mais frágeis. “Essa é uma discussão muito profunda e, como você não tem uma forma de padronizar ou mensurar o quanto de hormônio está sendo dado, é mais fácil fechar as portas para esses atletas”, relata a médica. A regra estabelecida pelo COI, no ano de 2015, previa que atletas trans devessem manter seu nível de testosterona abaixo de menos 10 nmol/L. “Nem uma mulher cis tem 10 nanomol, tem mulheres cisgênero que têm testosterona 20, 30. Na minha visão é um pouco arbitrário, até porque dosagem de nível hormonal não é algo simples, pelo contrário, tem diversas variáveis”.

Ainda segundo a médica, os hormônios sexuais de uma pessoa, testosterona e estrogênio, ocasionam dois efeitos no corpo humano: estrutural e metabólico. O efeito estrutural é fruto de um longo prazo e se torna irreversível, como por exemplo, a forma do corpo. Quanto ao efeito metabólico, sua causa é potencialmente reversível. Quando se trata de esporte, um dos fatores importantes para os atletas é a força muscular; o aumento ou diminuição dessa potência é causada pelo efeito metabólico. “Eu não posso mudar a altura de uma mulher trans, não posso mudar o pomo de adão que já cresceu, porque isso é efeito estrutural. O que for efeito metabólico, o que na minha visão impacta mais no meio esportivo, se você faz uma transição, você perde esses efeitos da testosterona. No caso de uma mulher trans, ela passa a perder os efeitos metabólicos da testosterona e ter o do estrogênio, que existem, mas que são de menor intensidade”. Esse conceito coloca por terra a ideia de uma suposta “presunção de vantagem” de atletas trans femininas sobre atletas cis gênero. “Na verdade, eu acredito, como endocrinologista, que há uma desvantagem competitiva, você ter que usar hormônio de fora e não permitir que seu próprio corpo produza. Essa força física vai ser perdida, por isso, eu acho que as pessoas do esporte deveriam se abrir um pouco mais para as pessoas trans. Se a gente pensar biologicamente, são pessoas que estão sempre indo ao médico, sofrem preconceito e estresse emocional por conta da exclusão”.

Sem protocolos precisos, a comunidade trans no esporte segue sem resposta das grandes entidades do futebol brasileiro. “O uso de hormônios masculinos deve ser feito em doses fisiológicas e, se isso for feito dessa forma, não pode ser considerado dopping. Já no caso das mulheres trans, elas têm uma redução dos seus níveis de testosterona e o uso do estrogênio, então teoricamente elas não têm vantagem. Ah, mas elas são maiores, mais altas, mais fortes, mas isso não é precisamente verdade”, conclui a especialista.

O que as entidades pensam

No mundo do futebol, as regras são estabelecidas pela Federação de Futebol Internacional, a FIFA. No caso do futebol brasileiro, quem regulamenta essas regras é a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. Já quem julga e fiscaliza as legalidades no esporte, é o Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, o STJD, órgão custeado pela CBF. Acima das instituições relacionadas ao futebol, está o comitê olímpico internacional, o COI, representado no Brasil pelo Comitê Olímpico Brasileiro, o COB. A função do COI é regulamentar e controlar temas relacionados a todas as modalidades, principalmente aquelas que participam dos jogos olímpicos.

A FIFA, instituição máxima do futebol, não tem diretrizes que busquem viabilizar a participação de atletas transgênero no esporte. De acordo com a instituição, em resposta ao jornal Folha de São Paulo em abril de 2018, a entidade não tem o que declarar por nunca ter precisado analisar uma questão relacionada ao assunto. Dois anos depois, em janeiro de 2020, através de nota para o portal “GloboEsporte.com”, a FIFA admitiu que diante de pedidos formais, será preciso ter um protocolo a seguir. “Situações envolvendo a elegibilidade de

atletas transgêneros no futebol são avaliadas pelas associações-membro da FIFA ou pela FIFA (no caso de competições da intituição) caso a caso”. Já a CBF, que segue diretrizes estabelecidas pela instituição internacional, também não estabeleceu normas específicas para esses atletas. A instituição, assim como outras federações, têm autonomia para formular medidas e protocolos relacionados ao tema. Diferente da CBF, a Football Association, a FA, instituição que rege o futebol na Inglaterra, utilizou essa autonomia e formulou o documento “Política sobre pessoas trans no futebol”, no ano de 2014. A associação afirmou no documento que a identidade de gênero não deve ser uma barreira para a partição no esporte, e definiu sua política para pessoas transexuais no futebol inglês.

A falta de movimentação da CBF fere os próprios princípios apresentados em seu código de ética. O segundo artigo do documento, afirma que o futebol deve ser gerido de forma a promover o desenvolvimento social e a redução de desigualdades econômicas e regionais. Além disso, todos os segmentos do futebol devem estar profundamente comprometidos com o repúdio a quaisquer outras formas de discriminação e intolerância social, política, sexual, religiosa e socioeconômica. Atualmente não há no Brasil uma mulher ou homem trans regulamentado no Boletim Informativo Diário, o BID, onde constam os nomes dos atletas regularizados e atuantes no futebol profissional. No caso de Marcelo, após o atleta realizar a transição, se viu sem perspectivas. “Como eu não cheguei a atuar no profissional, eu não sei os protocolos, são dúvidas que eu mesmo tenho. Não tem nenhuma orientação, não tem muitas diretrizes, seja da CBF, de órgãos internacionais como a FIFA ou de outras federações”, lamenta Marcelo.

A mesma situação pode ser vista em outras modalidades esportivas. De acordo com a assessoria de imprensa do COB, a instituição não estabelece diretrizes próprias sobre o tema, seguindo as orientações do Comitê Olímpico Internacional. No dia 17 de novembro de 2021, o COI publicou o documento “Estrutura sobre justiça, inclusão e não discriminação com base na identidade de gênero e variações de sexo”. O movimento da instituição prevê mudanças no mundo esportivo. O texto, originalmente em inglês, busca substituir as diretrizes de 2015. A partir de agora, federações internacionais de cada modalidade devem estabelecer suas próprias regras. No caso do futebol, as decisões cabem à FIFA e à CBF. Entre as novas diretrizes, a principal se encontra no inciso cinco, intitulado como “não presunção de vantagem”. De acordo com o texto, nenhum atleta deve ser impedido de competir ou excluído com base em uma vantagem injusta não verificada, alegada ou percebida devido às suas variações de sexo, aparência física ou status de trangênero.

O COI não tem um bom retrospecto nesse assunto. A instituição foi responsável por instituir o teste de feminilidade e a ideia de que a competição deve ser “justa”, quando o próprio conceito de igualdade é complexo no esporte, já que se tratam de corpos organicamente diferentes. Para pesquisadores, o movimento de deixar a decisão nas mãos das federações é um ato que retira a responsabilidade do COI. “Quanto mais dispersas forem as decisões, maior a chance de invisibilidade e apagamento dessas pessoas nas modalidades esportivas. Outro ponto é que eles (a instituição), não tocam no assunto da transmasculinidade, como se a entrada dessas pessoas não impactasse em nada. É esse padrão que deve ser revisto, porque esse padrão não satisfaz a pluralidade de possibilidades que existem dentro dos corpos, e essas variações de produção hormonal”, explica Bernardo Gonzales.

De acordo com o presidente do STJD, a instituição não impõe regras sobre a participação de atletas trans.
(Foto: Daniela Limeira/ STJD)

O reflexo da falta de diversidade em campo pode ser visto nas olimpíadas. Em todo o histórico do esporte brasileiro nenhuma pessoa trans chegou a ser convocada para a competição. O mesmo ocorre nas grandes competições de futebol do país, regidas pela CBF. Nas categorias masculinas e femininas, das séries A e B: todos os atletas são publicamente cisgênero. De acordo com Ronaldo Botelho Piacente, atual presidente do STJD, nos últimos dez anos, não houve um único caso julgado ou pedido formal de um clube brasileiro ou de um atleta, em prol da atuação de pessoas trans no futebol. “Essa questão nunca chegou ao STJD, mas, se chegar, o Tribunal a enfrentará com tranquilidade e sem qualquer preconceito”, afirmou o representante da entidade.

O presidente da casa também citou que não há proibições de atletas transexuais no futebol e que o STJD não impõe regras, mas sim os clubes e entidades de administração do desporto. O tribunal tem função disciplinar, cujo objetivo é julgar as infrações ocorridas nas competições. A entidade foi questionada recentemente pela imprensa e por atletas após decisões controversas em ofensas relacionadas a características físicas e étnicas em campo, como racismo. De acordo com o atual mandatário da instituição, caso houvesse ofensas transfóbicas no futebol, caberia ao ofendido apresentar a denúncia e processar o infrator.

O refúgio no futebol amador

Sem espaço no esporte profissional, é na categoria amadora que atletas LGBTQIA + vem encontrando “refúgio”. Com a intenção de unir a paixão nacional e a diversidade, em julho de 2017, surgiu a Ligay, federação brasileira de futebol LGBT+. A associação organiza a competição Champions Ligay, nome inspirado na Champions League, maior torneio de clubes de futebol profissional europeu. A ideia de criar o torneio surgiu a partir do App de relacionamento Hornet. O aplicativo promoveu um campeonato com cinco equipes na cidade de São Paulo. Em 2022, cinco anos se passaram e cinco edições da Champions Ligay ocorreram. De acordo com Josué Machado, atual presidente da instituição, a criação de uma competição com foco na diversidade sexual é um ato de resistência política.“A Ligay é um ato de resistência no meio de um esporte preconceituoso, machista, homofóbico. Somos resistência dentro de um local que não é seguro para a gente”. Com cerca de 2000 atletas registrados, a federação conta com 45 equipes filiadas e presta assistência para 95 equipes catalogadas em todo o país.

Com cinco edições realizadas, a Champions Ligay é o maior torneio de futebol LGBTQIA + do Brasil.
(Divulgação/Ligay)

Entre os times federados à Ligay está o BigTBoys, primeira equipe de homens trans do Rio de Janeiro. A ideia de fundar um time surgiu da cabeça de Cristian Lins, 48 anos, transmasculino e coordenador de esportes do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT). Há cerca de quatro anos, Cris, como é conhecido no BigTBoys, estava no Estádio do Maracanã, zona norte do Rio, cobrindo um evento de MMA como fotojornalista. Após sentir a energia da torcida, o idealizador decidiu criar uma equipe para homens trans. “Os homens, a partir do momento que se identificam trans, não podem mais jogar com as mulheres, por não se encaixarem mais lá. Também a maioria não joga em equipes de homens cis, por não serem bem aceitos. Pensei, já estou aqui mesmo, então aprendi um pouco de arte, criei um logo, dei um nome e lancei o projeto”.

Cristian Lins, idealizador do BigTBoys, primeira equipe de homens trans do Rio de Janeiro.
(Foto: Arquivo Pessoal/Cristian Lins)

A primeira seletiva de atletas contou com poucos adeptos e Cristian pensou: “ninguém quer, vou guardar o projeto na gaveta”. Um ano depois, decidiu relançar a ideia, que dessa vez contou com 22 interessados. Assim, em 11 de abril de 2019, o BigTBoys surgiu. O primeiro passo após a criação do time, foi encontrar um local para os treinamentos. Após buscar a administração do Parque de Madureira, ficou estabelecido que ali seria o local certo para a equipe.

Equipes BigTBoys e Allygaytors posam para foto após amistoso em 2019.
(Divulgação/BigTBoys)

“Então fomos treinando uma vez por semana e levando o projeto para frente. Muitos entraram, outros saíram, a gente passou por perrengue, começamos a pedir material e ajuda de custo para os seguidores”. Com o auxílio financeiro de apoiadores e admiradores, o time conseguiu comprar seu primeiro material esportivo: duas bolas, duas luvas e um conjunto de coletes.

Carregando seu material esportivo e a vontade de buscar espaço no esporte mais amado do país, os meninos do BigTBoys encararam seu primeiro desafio como time em um amistoso, realizado no mesmo ano de sua fundação. “Recebemos convites para disputar torneios em outros estados, mas a gente não teve dinheiro para ir. Não tinha outra equipe aqui para competir. Então conversei com os Meninos Bons de Bola, de São Paulo, primeiro time trans do país e realizamos um amistoso aqui, onde eles ganharam da gente, mas o mais importante foi acontecer o evento”.

Elenco do BigTBoys após treinamento no parque de Madureira no Rio de Janeiro.
(Foto: Cristian Lins/BigTBoys)

As cores azul, branco e rosa do uniforme remetem à bandeira trans. As dificuldades que a equipe encontra não divergem muito da situação de toda uma comunidade no país; a falta de apoio financeiro, o preconceito e a conciliação da vida com o lazer. “Os meninos entram e saem. Eles têm uma agenda bem difícil porque a verdade é nua e crua, tem que trabalhar, estudar, às vezes não tem passagem para vir. Então quando dá, eu tiro do meu próprio bolso e não cobro nenhuma taxa deles. O que fazemos é parceria, às vezes aparece um preparador físico e ele ajuda, às vezes vem um técnico e ele ajuda, então é tudo na base do amor mesmo”.

Atualmente a equipe conta com 22 jogadores e os treinamentos estão retornando aos poucos por conta da pandemia. Apollo Henrique de Souza Fialho, de 27 anos, está entre os atletas que fazem parte do BigTBoys. Nas horas vagas sai da cozinha da pizzaria Verona, em Itaguaí-RJ, e veste a camisa da equipe trans como atleta amador. Sua trajetória no esporte começou ainda na infância, jogando na escola. “Eu sempre gostei de futebol, eu participei de interclasse, isso com dez anos, mas sofria bullying fora do futebol, eu só prestava ali. Fora disso eu sempre era chamado de “Maria-macho”. A alegria do esporte só ocorria dentro das quadras, fora delas, Apollo também encontrava adversidades, inclusive dentro de casa. “Eu tive problemas com meu pai, ele sempre me travou de treinar, isso entre os meus nove e dez anos. Ele achava que era coisa de menino. Só que eu não via problema, eu sempre me enxerguei menino e para mim o certo era estar ali”.

Quando Apollo tinha 18 anos, seus pais se divorciaram. Aos 19 anos foi expulso de casa, precisou abandonar a escola e arranjar o seu primeiro emprego. Já aos 21 anos, se encontrou como uma pessoa trans. “Antes, eu vivia depressivo, não tinha meta, projeto, não tinha expectativa nenhuma de vida. Eu comecei a tomar hormônio sem ajuda de médicos, já tinha até cortado meu cabelo”. Os anos se passaram, Apollo deixou o futebol, se tornou pai e se casou com uma mulher trans. O reencontro com o esporte ocorreu apenas em 2020, durante a pandemia. O convite veio através de um conhecido, que o apresentou à equipe. Interessado, Apollo foi ao seu primeiro treino e começou a frequentar. “Eu me senti confortável no meio de outras pessoas igual a mim”. Morador de Araraquara, uma das barreiras que passa para chegar nos treinos, é a distância. “Para pessoas que moram longe como eu, é bem puxado, sempre falta passagem. Não consigo bancar direto o transporte. O treino é em Madureira, para chegar são três horas”. Mesmo com as dificuldades passadas, o atleta segue acreditando no futuro da equipe. “Eu não saí do time, porque sei que um dia ele vai pra frente”, confia Apollo.

Apollo é um dos atletas que se reencontraram com o futebol após serem afastados pelo preconceito.
(Fotos: Arquivo Pessoal/Apollo Henrique)

Em abril de 2022, o BigTBoys completa três anos de existência. Para comemorar o aniversário, Cris pretende lançar um livro sobre o projeto, com foco nos relatos de atletas da equipe.“Com o time, eu comecei a ver que o futebol, além de salvar vidas, é uma grande

válvula de escape para o pessoal que joga. Tem gente que sofre transfobia dentro de casa, outros já sofreram aborto e até estupro nas ruas”.

Por conta da falta de verba e o alto custo de viagens, a única equipe trans filiada à Ligay ainda não conseguiu participar de um torneio da federação. “A ligay é bem diversa, são todos membros LGBT, quando eu filiei a equipe eles nos deram boas vindas. O que acontece é que o perfil padrão é: um cara mais velho, faculdade, com um emprego bom, nem todos, é claro. Mas aqui a gente pega um cara trans, a maioria estuda aos trancos e barrancos, não tem apoio e não tem como competir financeiramente com atletas de outros times. Porque a equipe tem que viajar para competir, tem inscrição, então não tem como. A ligay não pode abrir gratuidade para todo mundo porque ela sobrevive disso”, afirma Cristian Lins.

Atualmente, apenas sete equipes trans estão ativas no Brasil, um número baixo em relação às equipes compostas por homens gays ou bissexuais. Entre as equipes estão o BigTBoys e o Trans United FC, do Rio de Janeiro. Transviver FC, em Pernambuco. Além de SC T. Mosqueteiros, Mandabuscá FC, Pogonas FTC e Meninos Bons de Bola FC, no Estado de São Paulo. Cinco desses times estão focados no futsal. Segundo Carlos Renan dos Santos, diretor financeiro da Ligay, mais duas equipes trans irão se filiar à federação em 2022. Para Bernardo Gonzales, a resistência da Ligay deve se atentar a essas equipes para que o futebol da federação continue a ser inclusivo. “Isso para mim é um dado sintomático que mostra como as opressões são diferentes, não dá para colocar todo mundo na mesma caixinha e dizer que está tudo certo. A Ligay pode ser chamada de uma resistência, mas ela é uma resistência que devia ser mais crítica, e precisa dessa criticidade porque daqui a pouco pode cair no mesmo limbo. E vamos viver cenários perversos e cooptados, a única diferença vai ser a bandeira LGBT, mas na prática vai ser igual a qualquer outro futebol”.

Já a Ligay admite que a instituição ainda não conseguiu abraçar todas as siglas, mas afirma que o principal fator por trás da federação é o de garantir um espaço seguro e permitir que as pessoas sejam elas mesmas. “Na última edição do torneio, tivemos pela primeira vez a edição da categoria feminina, e a gente teve a participação de uma mulher trans, tanto na equipe LGBT, quanto na feminina. A gente não tem nenhuma diretriz quanto a isso e, pelo contrário, nossa intenção é abraçar todas as siglas. A gente ainda não conseguiu fazer isso, mas essa é a intenção”, conclui Josué Machado.

O futuro do futebol brasileiro

O surgimento de uma atleta trans profissional só foi possível através da luta por igualdade. Entretanto, atualmente nenhum atleta trans está em atuação nas grandes competições, sinalizando que a busca por espaço no esporte deve perdurar por muitos anos. “Não existe nesse momento, mas pode ter certeza que vai vir, claro que não vai ser muito grande pelo número da comunidade trans, mas mesmo assim se deve ter uma diretriz. Eu já tenho uma idade avançada para o futebol, mas daqui a pouco tem uma garotinha, um garotinho na categoria de base sem um caminho para seguir”, acredita Marcelo, ex-atleta profissional.

Segundo a revista “Diagnóstico Nacional do Esporte”, produzida em junho de 2015, pelo Ministério do Esporte durante o governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, o início da trajetória de atletas no futebol ocorre principalmente nas escolas. O estudo também aponta o futebol como o esporte mais praticado no país, por 59,8% dos brasileiros, seguido do vôlei (9,7%), da natação (4,9%) e do futsal (3,3%). São em centros de ensino básico e projetos sociais onde são descobertos talentos. Dados mostram que a falta de representatividade trans no esporte pode ser sintoma de um problema mais drástico. Cerca de 82% da população trans sofre com a evasão escolar, de acordo com estudo da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Quantos atletas trans você conhece? Por que essas pessoas não chegam? É muito mais difícil para uma pessoa trans ser atleta do que para uma pessoa cis. Em todas as áreas, o esporte é só uma repercussão de tudo que acontece na sociedade. Praticar esporte, para um adolescente, para um adulto, isso muitas vezes vai fazer a diferença de ter ou não uma diabete, de ter ou não uma pressão alta; a exclusão não é só a nível de elite, mas sim da base”, pondera a endocrinologista Juliana Gabriel.

Buscando mudar o cenário, Cristian, fundador do BigTboys, criou um novo projeto que une pessoas trans e esporte. Através de uma parceria com empresas privadas e o governo do Rio de Janeiro, planeja inaugurar o primeiro Centro Escola Esportivo Diversidade da cidade maravilhosa. O intuito é criar um espaço seguro para pessoas LGBTQIA + praticarem esportes e receberem encaminhamentos para diversos serviços sociais. O projeto conta com apoio do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), mas também pode ser realizado de forma particular. O local pode ser uma porta de entrada para futuros esportistas trans do país. “A importância dele é imensa para os amantes de esportes, atletas e profissionais da área. Você pode aprender, treinar e ter apoio 100% de pessoas iguais a você, que entendem sua história, que repetiram sua luta”, afirma Cristian Lins, que está à frente do projeto.

O investimento nas pessoas mais jovens também é a aposta de Bernardo Gonzales, que aponta o caminho para um futebol inclusivo para as pessoas trans. “Investir nas crianças, a partir do que já foi feito e entregar o novo. As próprias faculdades pensando nas grades curriculares da educação física. E o futebol amador, porque é onde a gente tá, porque a gente não teve a oportunidade de chegar no profissional, e os que estão lá, continuar incentivando para que eles sejam a nossa potência de entrada”, conclui o pesquisador.

Reportagem escrita para a disciplina de Apuração, Redação e Edição IV do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, com orientação da professora Terezinha Silva.

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