Movimento Antivacina e a volta do Sarampo: falta de vacinação preocupa o mundo

Reportagem por Rodrigo Barbosa (rodrigobpp@hotmail.com) e Georgia Rovaris (georgiarovaris1@gmail.com)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Foto: Fundação Oswaldo Cruz)

Em um mundo onde há mais de 7 bilhões de pessoas, ter o controle sobre o surgimento e a não proliferação de doenças contagiosas é um dos maiores desafios da medicina. As vacinas são até agora o único e mais eficiente recurso de proteção das populações, mas a recente redução da cobertura de vacinações e o ressurgimento de doenças antes erradicadas vêm preocupando as autoridades de todo o mundo. Uma das principais causas pode estar no movimento antivacina, que está crescendo e ganhando adeptos, especialmente na América do Norte e na Europa.

O movimento antivacina ganhou força depois que a renomada revista científica The Lancet publicou, em 1998, estudos sobre uma possível relação entre a vacina da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) com o desenvolvimento do autismo. O artigo era assinado pelo médico inglês Andrew Wakefield. Pouco tempo depois, descobriu-se que o médico tinha fraudado os resultados da pesquisa para seu benefício, enquanto outros cientistas realizavam novos estudos. Wakefield teve sua licença médica cassada no Reino Unido.

A relação entre a vacina e o desenvolvimento do autismo foi desmentido várias vezes desde então, mas o medo da vacinação ganhou força e se disseminou. Passados 20 anos, mesmo depois de vários estudos terem comprovando o erro de Wakefield, ele tem viajado os Estados Unidos promovendo suas ideias. Para isso, ele conta com o apoio de celebridades como Jim Carrey e Charlie Sheen.

O movimento antivacina foi diretamente associado ao surto de sarampo registrado em uma comunidade de Minnesota, assim como na redução da cobertura de vacinação no Texas, onde Wakefield reside.    

Em 2019, o movimento antivacina foi incluído, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu relatório anual sobre os dez maiores riscos à saúde global. Na lista, constam vírus como o ebola, HIV, dengue e influenza, e também a “hesitação em se vacinar”.

Segundo a OMS, essa relutância ameaça reverter todo o processo de imunização das sociedades obtido até agora. A vacinação é um dos recursos que oferece maior custo-benefício para evitar doenças e mortes. Nos dias de hoje, cerca de 2 a 3 milhões de mortes por ano são evitadas pela vacinação. Outras 1,5 milhão de mortes poderiam ser evitadas se a cobertura global tivesse maior alcance.

Mas não é só o movimento antivacina que vem aumentando esses dados. Muitas pessoas alegam que não vacinam seus filhos por motivos religiosos, dificuldades de acesso, além da despreocupação com doenças que parecem ter ficado no passado.

 

NO BRASIL

Assim como no mundo, o Brasil também está sob esse mesmo alerta. Em 2018, segundo o Ministério da Saúde, mais de 300 cidades apresentaram cobertura vacinal abaixo de 50%, sendo que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é 95%.

Pela baixa cobertura e pela descrença da população em relação às vacinas, doenças já erradicadas no país podem estar voltando à tona. São elas: a poliomielite, a difteria e a rubéola. Mas, o sarampo, que é uma doença em que o Brasil já tinha se livrado há anos, também está de volta.

Na década de 1990, o Brasil chegou a ter mais 60 mil casos, número que diminuiu radicalmente no início dos anos 2000. O país já tinha zerado os casos em 2016 e recebeu o certificado de erradicação da doença pela Opas (Organização Pan-Americana de Saúde). Porém, após os casos em 2018, foi avisado que o país perderá esse certificado.

Sem registro em 2016 e 2017, o número de casos de sarampo ficou em mais de 10 mil no ano de 2018. Neste ano, até 19/03, já eram 29 casos. A maior parte deles estão na região Norte do país (em especial no Amazonas, Roraima e Pará). Nesses estados, a cobertura vacinal ficou muito abaixo da meta do Ministério da Saúde.

De acordo com as autoridades de Saúde do país, a única forma de prevenção eficaz é mesmo a vacina. As baixas coberturas vacinais são responsabilizadas pelo retorno da doença: a meta de vacinação contra o sarampo é de 95%, mas em 2017 a cobertura foi de 84,9% na primeira dose e de 71,5% na segunda. Até o momento, foram confirmados 12 óbitos por sarampo em três estados ou distrito do país.

No estado de Santa Catarina, foram confirmados casos de sarampo entre os tripulantes de um navio cruzeiro que passou por Balneário Camboriú, em fevereiro deste ano, causando preocupação, pois a cobertura vacinal do estado também está abaixo do recomendado.

A médica Magali Ferreira, especialista em Infectologia e Medicina de Viagem, fala sobre o movimento antivacina e a atual situação do país em relação às vacinas:

Cotidiano: Qual a sua opinião sobre o movimento antivacina?
Magali: Vejo isso com extrema preocupação. As vacinas salvam vidas, evitam sequelas e complicações graves, previnem tanto o adoecimento individual, quanto coletivo. A vacinação já foi responsável pela erradicação de doenças. Atualmente não temos mais a circulação do vírus da varíola, pois a população mundial aderiu à imunização em massa há algumas décadas, e esta eliminação também seria possível com outras doenças imunopreveníveis. Mas, infelizmente, baseados em dados sem nenhuma comprovação científica, vemos uma queda na cobertura vacinal e o crescimento do movimento antivacina, assim como todos os prejuízos a que isso pode levar.

Cotidiano: Quais os riscos que esse movimento traz para a população mundial?
Magali: Além do benefício individual de prevenir o adoecimento, a vacinação traz benefícios a toda a sociedade, ou seja, aqueles não imunizados também ficam protegidos. Quando uma grande parcela da população se imuniza, ocorre a redução significativa da circulação do patógeno e até mesmo a erradicação local da doença. De modo que não vacinar causa o efeito contrário, criando bolsões de pessoas suscetíveis e aumentando a chance de surto e da rápida disseminação da doença quando o microrganismo volta a ser inserido na região.
Vivemos em um mundo globalizado, em que viagens e deslocamentos se tornaram fáceis e rotineiros. Uma pessoa infectada pode cruzar oceanos em poucas horas, tendo contato com centenas de pessoas. Se esse indivíduo chegar em uma área com baixa cobertura vacinal, com alta taxa de indivíduos suscetíveis, a disseminação da doença será extremamente alta, com surto e adoecimento de grande parte dessa população, e doenças controladas ou mesmo erradicadas voltarão a causar sérios problemas.

Cotidiano: Por que há uma descrença na população em relação às vacinas?
Magali: Quando uma doença imunoprevenível [doença que se pode prevenir com vacinação] tem uma alta incidência e causa uma série de complicações ou mesmo óbito, temos receio de isso nos afetar e assim compreendemos mais facilmente a importância da imunização. Porém, quando se consegue controlar uma patologia por meio da vacinação em massa, passamos a não compreender sua gravidade, desconhecer esse problema e isso pode gerar a falsa sensação de segurança. Se você perguntar a um adulto jovem brasileiro sobre a poliomielite ou a difteria, a imensa maioria nunca viu um caso ou desconhece os prejuízos que essas doenças causam. Toda essa situação, associada aos mitos e às informações falsas envolvendo o assunto, contribuem para a banalização da importância da vacinação.

Cotidiano: O que a falta de vacinação pode causar a longo prazo?
Magali: Quando há falhas na cobertura vacinal durante um longo período, grande parte daquela população fica suscetível, ou seja, sem nenhuma proteção. Com isso, quando o vírus ou bactéria causador da patologia é novamente inserido no local, sua circulação e disseminação será extremamente rápida, ocorrendo surtos ou mesmo a reintrodução da doença no local.
 
Cotidiano: Sobre o sarampo, que já tinha sido erradicado, ter voltado ao Brasil, é preocupante?
Magali: É, sim. O sarampo só voltou a ter casos registrados no Brasil pois encontrou uma população suscetível. Se a população estivesse com sua situação vacinal em dia, o vírus ao ser reintroduzido no país não encontraria indivíduos suscetíveis para infectar, bloqueando assim a disseminação do vírus e do surto. Porém, o que aconteceu foi justamente o contrário. Como o sarampo foi erradicado do Brasil durantes anos, as pessoas deixaram de se vacinar, pois não viam essa doença como um risco, ficando vulneráveis, e isto foi responsável pela reintrodução do sarampo no país.

 

COMO IDENTIFICAR O SARAMPO?

O sarampo é extremamente contagioso. É uma doença causada por um vírus com grande poder de contágio, transmitido por meio de contato direto (tosses, espirros ou outras secreções) e pelo ar. Os principais sintomas são febre alta, dor de cabeça, manchas vermelhas na pele (que surgem primeiro no rosto e se espalham pelo corpo), tosse, coriza e conjuntivite.

Saiba quem deve se vacinar:

Crianças (12 meses a 5 anos):

Uma dose aos 12 meses (tríplice viral: contra sarampo, rubéola e caxumba). Reforço aos 15 meses (tetra viral: com as anteriores, mais a catapora)

Crianças e adultos (5 a 29 anos de idade que ainda não se vacinaram): Duas doses da tríplice, com intervalo de 30 dias.

Adultos (de 30 até 49 anos): Uma dose da tríplice

Onde? Postos de saúde do SUS

Quem não deve se vacinar?

Pessoas com casos suspeitos de sarampo.

Menores de 6 meses

Grávidas

Pessoas imunocomprometidas

Acima de 49 anos

Dúvidas comuns:

“Não lembro se me vacinei. O que fazer?”

De acordo com o Ministério da Saúde, se não há comprovação de vacinação nas faixas indicadas, há necessidade de o adulto receber a vacina. Não há riscos para a saúde. O órgão ainda lembra que a caderneta de vacinação é um documento pessoal e deve ser guardado por toda a vida.

“Recebi no whatsapp que a vacina provoca efeitos colaterais ainda desconhecidos e de longo prazo. É verdade ou mito?”

Mito. É preciso estar atento e “vacinado” contra boatos. As vacinas oferecidas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) são consideradas seguras. Segundo o Ministério da Saúde, a maioria das reações são geralmente pequenas e temporárias, como braço dolorido ou febre ligeira.

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz

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