Monges vivem busca espiritual em Centro Hare Krishna de Florianópolis

“Hare Krishna Hare Krishna Krshna Krishna Hare Hare – Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare”. As palavras de sonoridade estrangeira compõem o Maha Mantra – famoso em referências artísticas- como a música Mantra, de Nando Reis – ou entre curiosos familiarizados com hinduísmo e o Movimento Hare Krishna. Em uma tranquila casa azul e branca do bairro Santa Mônica, são repetidas 16 vezes diariamente por monges diante de um altar sagrado, às cinco horas da manhã. O ritual inicia um dia no Instituto Vrindavana para a Cultura e Estudos Vainavas (Centro Cultural Vrinda Floripa), um dos quatro centros brasileiros do Movimento Hare Krishna adeptos a tradição indiana Vaisnava.
Por trás dos mantras e das roupas indianas utilizadas pelos Hare Krishna está uma associação oriental religiosa, filosófica e cultural, elaborada a partir de estudos filosóficos continuos e interpretação de escrituras milenares. Os seis monges residentes no Centro Vrinda cumprem uma rotina de exercícios, artes, estudo, trabalhos domésticos e busca espiritual. Vivem vidas calmas e pacificas, dedicados a uma autorrealização afastada do materialismo.
O Centro foi fundado em 1984 como parte integrante de Associação Mundial Vaisnava, que reúne representandes da tradição indiana pelo mundo. Organizou-se a partir do ensinamento de monges famosos, responsáveis por estudos filosóficos e espirituais de influência para o Movimento Hare Krishna. Fotos deles são colocadas no altar sagrado, próximo às estátudas das deidades representantes da divindade suprema.
Aos domingos, os Hare Krishna realizam festivais indianos tradicionais de celebração. Abrem os portões ao público às 16h, e enchem a sala do altar com pessoas tocando música, apresentando peças teatrais, entoando mantras e discursando sobre seus estudos. A cerimônia encerra-se cedo, pois os monges dormem antes das 22h. Os devotos seguem para suas casas tranquilos, consolados pela mensagem de paz e sentindo-se preparados para os problemas que surgirem pela semana.
O devoto David Porta conheceu a filosofia Hare Krishna na Argentina em 1999, quando vivia na Paragônia e trabalhava em uma empresa de mergulhos turísticos. Foi atraído pelos aspectos filosóficos que criticam o materialismo e o egoísmo. Mudou seus habitos, canta ma Maha Mantra diariamente e não come carne há 15 anos. “Não acredito que quem conhece um matadouro tem coragem de comer carne de novo, só se talvez a pessoa for muito egoísta”.
O monge Goura Seva Das, chamado Renan antes de receber seu nome espiritual, vive desde março com outros três homens e duas mulheres. Descobriu o Centro Vrinda há um ano. Conhecia devotos do movimento no Paraná, e por isso era familiarizado com a filosofia. “Minha aproximação com o Vrinda foi mística”. Pouco depois de mudar-se para Florianópolis, lia por curiosidade o Bhagavad Gita – texto hindu em que se baseia a filosofia Hare Krishna – quando encontrou o endereço do Vrinda, e percebeu que deveria conhecê-lo.
A filosofia hindu estudada pelos monges inicia-se com uma busca transcedental, pela superação do materialismo rumo à sabedoria espiritual. Eles fazem quatro votos: não comer carne por compaixão com a vida animal; não usar drogas ilegais ou tabaco e alcool; não fazer “sexo ilícito”, como chamam relações sexuais sem comprometimento amoroso; e não praticar jogos de azar. Nos momentos de entoar o Maha Mantra e meditar, buscam a purificação do espírito.
Durante a semana, os monges têm uma rotina de rituais, trabalhos domésticos e atividades para a comunidade. Varrer a casa, lavar banheiros e arrumar os quartos são atividades de todos. No fundo da casa, cuidam da pequena horta provedora de alimentos para seu dia-a-dia e para vender em uma barra que montam na UFSC às quartas-feiras. Revezam-se na cozinha para fabricar refeições, tortas, bolos e, recentemente, panetones vegetarianos de chocolate sem leite. Vendem o que não consomem. Tudo que cozinham não é provado antes de ser servido, em respeito a tradição hindú.
Os devotos que não residem no Centro – e os curiosos que gostam de visitá-lo – podem desfrutar da programação cultural oferecida. Diariamente, são realizadas três cerimônias de meditação e oração, e duas aulas de Filosofia Védica. O Bhagavad Gita é interpretado às segundas-feiras, no curso de Filosofia Clássica; e as quintas-feiras são ensinados ritmo e música indiana. Oficinas de Yoga, culinária vegana, xilogravura e outros assuntos de interesse aos Hare Krishna são marcadas ocasionalmente. Os professores são devotos voluntários, ou monges visitantes de outros centros.

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