Cultura surda: conheça a poesia em Libras

Texto e vídeo: Bruna Ritscher (brunaritscher@gmail.com) e José Djalma Júnior (j.djalma.jr@gmail.com)

O curso de Letras-Libras da UFSC foi o primeiro de licenciatura em Letras com habilitação em Língua Brasileira de Sinais (Libras) da América Latina e envolve as habilitações de Licenciatura e de Bacharelado, formando professores e intérpretes de Libras, respectivamente. O curso foi implantado na UFSC em 2006, na modalidade a distância – no mesmo ano em que a Libras foi instituída como segunda língua oficial no Brasil, por meio do decreto 5.626 – e é oferecido desde 2009 também na modalidade presencial, tanto em licenciatura quanto bacharelado.

 

Setembro Azul

A última semana de setembro é comemorada pela Comunidade Surda como a “Semana Mundial dos Surdos”, sempre fechando no último domingo do mês com o Dia Mundial dos Surdos. O mês inteiro é considerado o mês mundial das lutas dos movimentos surdos, que adotaram a cor azul como símbolo e chamam o mês de “Setembro Azul”. A data nacional de comemoração é no dia 26, reconhecido como “Dia Nacional do Surdo” por lei desde 2008.

Essas datas são celebradas entre as comunidades de cada lugar com programações variadas, como palestras e oficinas, e são importantes para chamar a atenção das autoridades e do público para a cultura e as conquistas da Comunidade Surda e também para incentivar que novas políticas de direitos sejam promovidas.

 

Cultura Surda

A cultura da Comunidade Surda é definida basicamente pela linguagem dos sinais de cada país e pela sua história de opressão e de luta por direitos, fazendo com que os defensores do movimento o identifiquem como uma única comunidade que é dividida em colônias pelo espaço territorial. A surdez, vista pela maioria das pessoas como uma deficiência limitante, para a Comunidade Surda é apenas algo que exige uma reestruturação da comunicação e não algo que precise ser “curado”.

A linguagem de sinais é o que difere esta de outras culturas e é a única fronteira entre surdos e ouvintes, assim como qualquer outra língua pode ser uma fronteira entre outras culturas ouvintes. Assim, a comunidade surda acaba se aproximando muito mais de movimentos sociais como o feminismo e o anti-racismo e anti-xenofobia do que de movimentos de deficientes.

“Segundo Harlan Lane, um dos principais genealogistas da cultura Surda: ‘…assim como falamos “os franceses” ou “os ingleses”, é também correto falarmos “os Surdos”. A expressão “pessoas com deficiências auditivas” é externa à cultura Surda…’” afirma Débora Diniz, em seu texto “Autonomia Reprodutiva: um estudo de caso sobre a surdez”

 

Poesia Surda

A poesia tem se tornado uma das manifestações da cultura surda mais populares, utilizando como suporte para divulgação canais de vídeos como o Youtube. Além dos códigos da linguagem de sinais, também são essenciais os diferentes gestos e movimentos do corpo de quem faz a poesia.

Confira a entrevista sobre poesia surda com a professora do Departamento de Libras e Artes da UFSC, Fernanda de Araújo Machado. Fernanda deu uma palestra sobre poesia surda num evento  organizado pela Associação de Surdos da Grande Florianópolis em comemoração ao Dia Nacional dos Surdos.

Qual a importância da cultura para a Comunidade Surda?

O desenvolvimento da Cultura Surda é importante, pois através desta expressão temos o desenvolvimento da identidade surda, que é a forma como os surdos se enxergam socialmente, tem sua experiência visual, e apreendem o mundo através da sua identidade se expressando através da Libras – Língua Brasileira de Sinais, tendo esta como sua língua materna e possibilitando a inserção social deste surdo.

Como é o sentimento que a poesia surda traz?

As experiências do surdo são através de sua perspectiva visual, explorando assim sua expressividade, corporalidade, diferente dos ouvintes que se expressam oralmente e centrados na teoria grafocêntrica. Os surdos, por exemplo, podem explorar toda essa expressividade através de seu ritmo, repetição, simetria ou assimetria, metáforas, tudo isso respeitando a estrutura sintática da Libras, compondo as estrofes através das expressões faciais presentes na Libras.

Como esse tipo de poesia é divulgado?

Diversas empresas já trabalham com a publicação de poesias surdas, por exemplo a LSB Vídeo que publica as poesias em formato de DVD. São publicadas também em palcos de festivais de Cultura Surda, Congressos e em ferramentas tecnológicas como o Youtube que hoje já tem algumas destas poesias publicadas.

Quais os grandes nomes da poesia em Libras?

Temos alguns poetas famosos como Nelson Pimenta que foi um dos precursores na questão teatral, produção de poesias, narrativas e outros materiais produzidos por ele, posso citá-lo como uma das principais influências atuais na produção deste gênero textual. O próprio já teve oportunidade de levar nossas produções para vários eventos mundiais. Outra grande influência vem da poeta Ella Mae Lentz, dos Estados Unidos, e de Ben Bahan, em questões mais literárias. Estas são as principais referências mundiais e o Nelson é a referência nacional.

Uma poesia traduzida para Libras pode ser considerada uma poesia em Libras?

O principal fator que marca uma Poesia Surda é ela ser formulada diretamente em Libras, não passando pelo processo tradutório, pois quando a poesia é produzida diretamente em Libras ela tem os elementos que citei na primeira resposta e que são inerentes aos surdos. Os intérpretes ouvintes não partilham dessas percepções.

 

“Voo sobre Rio”, de Fernanda Machado.

Traduzido por  Marilyn Mafra Klamt e Valdemir Klamt

I

O astro distante: terra.

(gotícula de terra viaja na ponta do dedo)

O planeta de percorrer com as mãos: terra.

(o tamanho da terra quando polegar e dedos

se encontram grávidos no espaço)

O chão coberto de terra

(mãos de embalar um ser frágil)

e a névoa anuncia o dia.

O corpaço da ave voa.

Voa no espaço ao longe.

Sobrevoa o Corcovado,

em envergadura

(sobre a pedra, plantado, um homem de asas

de cimento)

como o Redentor em cruz.

(os olhos do corpo de pena se aproximam do

corpo de pedra)

Cristo de braços abertos

sobre a Guanabara assiste:

(o poeta corpóreo, a redenção)

O corpaço da ave voa.

Voa no espaço ao longe.

Sobrevoa o Pão de Açúcar.

Voa ao longe.

Voa a ave corpórea.

Voa ao longe.

Sobrevoa os andarilhos

no calçadão de ondas negras e brancas.

Voa ao longe.

Voa a ave corpórea.

Freia o voo:

pisa nas ondas pétreas de Copacabana.

II

O de corpaço busca.

A de corpóreo sorri, se enfeita.

Ela espia, gira o corpo de vergonha.

Ele não compreende.

Põe-se esbelto, ele dirige a vista e investe.

Ela não nota, não se vira.

Ele fala no dorso; ela não vira as costas.

Nada sucede, apenas a dúvida.

Nova tentativa; nova falha.

O de corpaço conclui com assombro:

— É surda! Como eu! É surda! Como eu!

O toque e ela vira sem demora.

Os olhares são de pressa.

Ela gira o corpo de vergonha e sorri.

O corpaço e a corpóreo se entendem.

— Você é surdo?

— Sim. Sim.

Olhares namoram.

III

A ave e a ave se beijam; sorriem os olhos.

Ele dá mimo de migalha: ela refestela.

Ele abocanha o naco, aprecia: presente dela.

Ela esvai, assim envaidecida.

Tocam-se, se enroscam.

Beijam-se em movimento de gangorra.

Se enroscam em retrato de quase um.

Mas as cabeças se chocam.

Ela sente dor; há mais carinho.

Mais beijos de gangorra.

Mas é hora da partida.

Ela contempla o horizonte.

Ele tem receio: desacredita.

Um último olhar, o encarar.

É tempo de partir.

 

IV

Voa ao longe.

Voa a ave corpórea.

Voa ao longe.

Sobrevoa os andarilhos

no calçadão de ondas negras e brancas.

Voa ao longe.

O corpaço da ave voa.

Voa no espaço ao longe.

Sobrevoa o Pão de Açúcar.

Voa no espaço ao longe.

O corpaço da ave voa.

Voa ao longe.

Voa de asas abertas

como os braços do Redentor em cruz,

sobrevoa a cidade.

Sobrevoa, a ave, o Corcovado.

Voa ao longe.

Voa a ave corcovada.

A névoa anuncia o dia

sobre o chão coberto de terra.

É planeta incorpóreo

de percorrer com as mãos: terra.

O astro distante: terra e uma

[Via-Láctea pra correr.

(adeus)

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