Foto por Glenn Carstens-Peters em Unsplash

Brasileiros On Demand

O avanço dos serviços de streaming reformula as pautas que ditam o mercado audiovisual no país

Reportagem por Lucas da Hora e William Canan

Imagine a cena: Fernanda é uma jovem do interior de Pernambuco vivendo o auge dos seus 20 anos em 2001. O tão aguardado final de semana chega e ela pode, enfim, ir ao cinema desfrutar de um bom filme. Como a sala mais próxima fica em Recife, a capital do estado, o planejamento começa logo pela manhã. Fernanda almoça cedo, pega as chaves do seu Celta cinza e vai para a estrada. Ao chegar na bilheteria, procura por uma boa película nacional. Decepcionada, o que encontra são apenas sessões de filmes estrangeiros. Para não perder a viagem, decide assistir Harry Potter e a Pedra Filosofal, o mais recente sucesso internacional. Como ainda deseja experienciar o melhor do cinema brasileiro, toma a decisão de, na volta para casa, parar em uma locadora, e alugar um longa-metragem em VHS, assim, não será preciso voltar a sair. Ao menos, não até a data de devolução da fita.

Em 2021, a realidade de Fernanda é outra. Nos dias de hoje, devido a popularização dos serviços de streaming e a enxurrada de empresas do ramo entrando no mercado, tornou-se mais fácil para o brasileiro médio ter acesso a conteúdos sob demanda de qualquer lugar. Aparelhos celulares, computadores e até mesmo as televisões já se conectam à internet, permitindo acessar plataformas que possuem um catálogo gigantesco de filmes, séries e documentários. Algumas empresas, inclusive, oferecem categorias destinadas a conteúdos 100% verde-amarelos.

Tamanha facilidade se reflete diretamente no setor cinematográfico do país. O artigo Tempos de streaming. Implicações na produção audiovisual no Brasil, de Bruna Malta Victal, mostra que, em estudo realizado em 2019, cerca de 85% das pessoas abordadas aumentariam o consumo de conteúdo nacional, caso a quantidade e variedade de obras fossem maiores. As empresas do ramo já reconhecem esta demanda e investem em projetos criados localmente. 

Infografico com três meios de se assistir um filme em casa, o VHS, DVD e os Vídeos on Deman (Void) que são os serviços de streaming

O mercado e a busca por novos olhares

Durante boa parte de sua história, o audiovisual brasileiro sobreviveu a partir de financiamentos governamentais. Os investimentos podem ser diretos, através de editais que distribuem recursos de fundos, ou indiretos, através de leis de incentivo. Desde 2002, toda criação do ramo paga uma taxa para alimentar o próprio setor, a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (CONDECINE). Obras independentes são viabilizadas graças ao dinheiro do fundo, conforme explica a pesquisadora Bruna Malta Victal, “Muitas pessoas pensam que o governo dá dinheiro para as produtoras fazerem filme, mas não funciona assim, é o dinheiro da própria indústria”.

Boa parte deste fomento para a área cinematográfica é dever da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), responsável pelo patrocínio e regulação setorial. Apesar da importância dos estímulos ao mercado interno, nos últimos anos a agência vem sofrendo um desmonte sucessivo. Dentre as principais medidas que têm tirado a autonomia do órgão podem citar-se cortes de verba, trocas de diretoria sem motivos técnicos e censura de temas contrários à ideologia do governo. Quem mais sofre com essas questões são os pequenos produtores.

Alessandra da Rosa Pinho é autora, roteirista e uma das fundadoras da Raça Livre Produções, responsável por Crisálida, série licenciada para a Netflix no início de 2020 que coloca em primeiro plano a vivência de pessoas surdas. A autora afirma estar pronta para iniciar as gravações da segunda temporada, porém, enfrenta problemas com a disponibilização de recursos. “As pessoas querem assistir a segunda temporada e eu falo ‘Gente, ganhamos um edital super difícil e concorrido. O órgão estadual cumpriu todas as etapas e fez tudo certinho. Quando chegou no Governo Federal não liberaram o recurso’, e é complicado a gente explicar”.

Para piorar a situação, no ano de 2020 a pandemia de COVID-19 provocou mais danos a essa indústria no Brasil. Parte do mercado ficou paralisado e muitos trabalhadores do ramo ficaram sem sua fonte de sustento. Com isso em mente, ainda no primeiro ano da pandemia, a Netflix criou um fundo junto ao Instituto de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros (ICAB) e doou R$ 5 milhões para ajudar até 5000 profissionais e freelancers que passaram por dificuldades durante o período. Já em 2021, a empresa desembolsou mais R$ 3 milhões para ajudar cerca de 2500 pessoas. Mas a contribuição da multinacional não resolve o problema.  

O cenário presente força determinadas empresas brasileiras do setor a buscar alternativas para avançarem em seus trabalhos. Novos caminhos se abriram através dos serviços de video on demand (VoD). Eles ganham cada vez mais força no Brasil desde o início de 2020, sobretudo, quando o consumo aumentou consideravelmente. Segundo João Roni, sócio e produtor da Ocean Films, “A COVID veio, os streamings bombaram, e por estarem bombando eles tiveram dinheiro para fazer o que almejavam, investir em produções. Então o mercado aqueceu muito”.  E os investimentos feitos pelas empresas não são em vão. O primeiro longa de natal da Netflix feito por aqui, Tudo Bem No Natal Que Vem, foi lançado em 2020 e conseguiu a marca de 26 milhões de visualizações ao redor do mundo, isso nos primeiros 28 dias de lançamento.

Os efeitos gerados pela circulação destes recursos acarretaram numa espécie de descentralização da criação de conteúdo. João observa que, antes, as obras nacionais com maior projeção no país concentravam-se principalmente na região sudeste. Agora, criações de lugares mais afastados do eixo Rio-São Paulo conseguem maior visibilidade. Um exemplo concreto da mudança é a série Crisálida, gravada totalmente em Florianópolis, capital de Santa Catarina.

Uma mulher branca de descendência asiática conversa com um homem negro em um banco de madeira
Imagem retirada da série Crisálida. Na foto, Morgana (Angela Eiko Okumura), personagem surda, conversa com Jaks (Leandro Batz), personagem ouvinte. Na história, a dificuldade inicial de comunicação o motivou a estudar LIBRAS. A série tem motivado muitas pessoas na vida real a fazer o mesmo. Imagem: REPRODUÇÃO/SÉRIE CRISÁLIDA

Além dos efeitos positivos, a expansão das plataformas pode causar uma redução no número de empresas audiovisuais. Afinal, o mercado tende a ficar saturado de ideias, e as empresas de streaming mais fortes do ramo voltam seu foco a nomes já consolidados para a criação de conteúdos exclusivos. João percebe a dificuldade de seus colegas, pois como ilustra, “A gente na Ocean recebe muitos projetos de outras produtoras que são bons, mas não têm network, não têm background para produzir. ‘Quem vai me entregar isso? Maravilhoso isso que você criou, mas quem é que me entrega? O que você já fez para me entregar isso?’”.

Foi exatamente o que Alessandra presenciou ao tentar vender seu projeto para a Netflix. Antes da série entrar oficialmente no catálogo da empresa, a cineasta recebeu muitos “nãos”. Somente após a estreia na TV Cultura e a ótima recepção do público, Crisálida conseguiu gerar interesse na plataforma. Contudo, ainda precisava de uma ponte para fornecer seu material, pois a autora entendeu que “Não é chegar direto para a Netflix, tem que ter uma distribuidora para te representar”.

A dificuldade de aceitação de Crisálida por um serviço de streaming foi recompensada ao estrear na gigante do setor. O lançamento ajudou Alessandra a realizar o sonho de ter um alcance além do público surdo. Pessoas ouvintes do Brasil e Portugal assistiram e se emocionaram com as histórias contadas ao longo da primeira temporada.

“Quando falaram que a Netflix comprou [Crisálida] e ia estrear tal dia, eu fiquei ‘meu Deus, eu tô na Netflix’, um sonho”, lembra Sofia Pisani, atriz que representou Alice, personagem da série. A exposição agregou mais valor ao seu trabalho. Sofia acha que “É muito legal a visibilidade que isso traz e poder colocar no currículo ‘olha, eu tenho uma série na Netflix’, já dá um tchan a mais para as pessoas que queiram me contratar”.

Existem ainda outros atores que se beneficiaram com a crescente popularidade da série catarinense. Desde o início, a proposta era dar protagonismo aos surdos, não só no meio ficcional. Para isso, foram contratados atores e atrizes não ouvintes. A ideia gerou benefícios mútuos. Por um lado, a série recebeu uma repercussão positiva por abrir espaço para que as pessoas surdas possam mostrar o seu trabalho. Por outro, os próprios atores puderam colher bons frutos. Atualmente é possível encontrar estas pessoas participando de lives e entrevistas em diferentes endereços da web.

Ao ser questionado se os serviços de streaming abrem portas para trabalhar temáticas de diversidade social, João respondeu que sim.

100%. É quase obrigatório você incluir, se não no tema, na equipe. A gente tem quase uma obrigação de contratar diversidade total, sabe? Incluir pessoas de comunidades, da localidade onde está filmando. Eles botam orçamento extra no dinheiro para pagar pessoas que tenham o interesse de acompanhar a filmagem na comunidade, seja como for.

João Roni

No entanto, este tipo de incentivo só é dado a filmes, seriados e documentários financiados e desenvolvidos com exclusividade para os serviços de VoD. Por essa limitação, há muitas representações da pluralidade cultural do país que acabam ficando fora dos catálogos. Tendo em vista essa realidade, estão surgindo iniciativas como a AmazôniaFlix, um serviço aberto e gratuito, focado em conteúdos da região amazônica. Manoel Leite, um de seus fundadores, acredita que a iniciativa já nasceu “filha” do intercâmbio cultural entre todos os povos amazônicos. Isso faz com que os conteúdos ali disponibilizados apresentem assuntos não usuais no restante do país.

Grandes investidores estão de olho nessa tendência. O Banco Itaú, por exemplo, criou seu próprio serviço de VoD destinado a divulgar as criações nacionais. O Itaú Cultural Play disponibiliza acesso livre a seu acervo para qualquer pessoa, sem necessidade de ser cliente do banco. Entre as diversas obras, estão conteúdos da cultura negra e indígena. Para o serviço: “Esta nova produção indígena e negra não traz apenas novas personagens e histórias, pautas e agendas, mas também propõe outras formas de olhar o audiovisual, novas linguagens e formas de roteirizar, iluminar, filmar e contar histórias com uma câmera”.

Mais do que um catálogo com diversos materiais de filmes e séries, os VoD dão oportunidade para que, quem sempre teve dificuldades em expor seu trabalho, possa aparecer. De acordo com Manuel, a missão central da AmazôniaFlix é a “Expansão da visibilidade do audiovisual brasileiro com a inclusão, no campo de escolhas do público, do cinema amazônico, em todas as suas formas, formatos e gêneros. Lutamos pelo direito de existir, de sermos visíveis”. Dentro de certos limites, os novos meios de transmissão abrem espaço para se explorar e discutir estas realidades através da percepção de quem as vive diariamente.

Muita gente tem sido tocada por temas voltados às minorias sociais. Alessandra comenta que, após o lançamento de Crisálida na Netflix, está conseguindo cumprir um de seus objetivos. A criadora tem recebido relatos de pessoas com o desejo de aprender a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). O elenco foi igualmente contagiado por essa vontade. Sofia, após participar da série, desenvolveu amizades com o elenco surdo, e quer aprender LIBRAS para ter uma melhor convivência com seus colegas e outras pessoas desta comunidade.

As visões retratadas refletem um anseio da sociedade, tanto de assistir a filmes brasileiros, quanto de ter uma perspectiva temática diferente. Nesse sentido, os streamings apresentam-se como uma saída interessante para o espectador em busca de novos tópicos. Com a inserção de assuntos e abordagens que antes não possuíam espaços na televisão e nem nas salas de cinema, novas pessoas são acolhidas e atraídas para este universo. Aos poucos, narrativas e vozes antes não ouvidas estão alcançando seu espaço. “Acho esse o grande diferencial, poder ter novos olhares para poder trazer essas produções diferentes, com temas mais diversos que possam estar mostrando nossa realidade”, reflete Alessandra.

Reportagem produzida para a disciplina Linguagem e Texto Jornalístico sob orientação da Profa. Dra Melina de la Barrera Ayres, em agosto de 2021.

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