Pandemia, solidão e riso se misturam na obra “Circulando”
História da palhaça Tchuvis foi contada por Carla D’ambroz no Teatro Carmen Fossari
Por Maria Clara Sebben
Peça interpretada por Carla D’ambroz e dirigida por João Quinalha, “Circulando” teve seu início em dezembro de 2020. A obra se originou em meio à pandemia, acontecimento que impactou diretamente o decorrer da história de Tchuvis, a personagem principal. Carla e João, estudantes do curso de Artes Cênicas, trabalharam em conjunto moldando a ideia, que foi modificada e aperfeiçoada de 2020 para cá. O projeto não nasceu na UFSC, mas foi abraçado pelo projeto de pesquisa “Estudio Trabalho em Cena”, orientado pela professora Priscila Genara Padilha.
Na apresentação de aproximadamente uma hora, o isolamento se torna vilão em uma era de correria, trazendo à tona facetas até então desconhecidas de Tchuvis. Passando por estágios de tranquilidade, diversão, desconforto, tristeza, raiva e descontrole, a palhaça busca conforto em hobbies como tocar instrumentos musicais, fotografia e, a mais marcante, degustação de chás. A personagem também se volta para seu rádio, que a acompanha durante todo o período e a ajuda no processo de quarentena, oferecendo dicas e conselhos.
A peça “Circulando”, assim como muitas apresentações clownistas, é o retrato de um palhaço dentro de seu espaço, reagindo ao contraste entre o que ele representa- a alegria e diversão- e o meio em que vive, regado de decepções. Tchuvis recebe um desafio assim como outras sete bilhões de pessoas receberam em março de 2020, e até mesmo seu bom-humor não a impede de sentir os efeitos negativos da pandemia. Sua confusão diverte a plateia, que é bombardeada de sensações nostálgicas de um tempo solitário e único.
Além do pertencimento sentido pela platéia ao longo da apresentação, a interatividade da obra é outro fator que a aproximou de quem assistiu. De forma espantosa, as brincadeiras com o público pescavam sua atenção, o que contribuiu para as constantes gargalhadas que ressoavam no teatro. Apesar do assunto abordado com certa constância em séries, stand-ups e filmes, “Circulando” não deixou de garantir originalidade ao trazer hobbies pouco explorados em outras obras- nesse caso, a degustação de chás. A prática trouxe um lado pouco esperado pelo público e que trouxe a leveza do transporte de uma paixão, que veio da própria Carla, para os palcos.
É uma peça memorável de uma época em que, em meio às lágrimas, foi possível encontrar o riso.
