Motoboy relata seu cotidiano em diário da pandemia

Reportagem por Fernanda Biasoli

Anderson Marinho é jornalista e trabalha atualmente no ramo de entregas na cidade de São Paulo; ele utiliza suas redes sociais para compartilhar pensamentos e impressões sobre o momento atual.

A partir de hoje, estarei aqui relatando a rotina de um motoboy em meio a uma guerra biológica planetária. Fotos de uma cidade assustada e de ruas vazias, dividindo por aqui as dificuldades e angústias encontradas pelos caminhos em um momento tão singular em nossas vidas.

São essas palavras que dão início ao novo projeto de Anderson Marinho: ‘’Diário de um motoboy no front de uma guerra biológica’’. Filho de uma professora e de um borracheiro, Anderson, que é jornalista por formação, encontrou em suas redes sociais uma maneira de relatar a sua rotina em um serviço que faz parte da linha de frente do momento atual: o de entregas em domicílio.

Paulistano, criado em Diadema, Anderson compartilha diariamente em sua conta pessoal do Instagram o seu dia a dia como motoboy na cidade de São Paulo, mas mais do que isso, analisa e descreve suas impressões da maior metrópole do país afetada pelo isolamento social. Os textos, cheios de movimento como se o leitor estivesse dirigindo pela cidade junto com o autor, são carregados de subjetividade e análises pessoais da pandemia. O Cotidiano conversou com Anderson sobre sua vida e esse novo projeto. Confira:

  • De onde surgiu a vontade de relatar o seu cotidiano? O que te fez exteriorizar os seus pensamentos?

Já existia esse desejo de escrever. Eu como um transeunte da cidade, digamos assim, via muita coisa que sentia desejo de relatar mas não encontrava uma forma de fazer. Ficava pensando em muita coisa, mas não conseguia me decidir, não encontrava um meio de iniciar. Pensei em vários nomes para dar para um blog, um produto, seja lá qual fosse. Um dia, conversando com o Marcelo, proprietário da casa onde moro e que também é jornalista, eu pensei “pô, acho que vou escrever um diário porque a gente vai entrar em quarentena, situação de pandemia, vou escrever um diário relatando a rotina, porque é um período histórico, um acontecimento histórico e que muda muita coisa na cidade”. E foi aí que surgiu o diário.

Ele surgiu de uma maneira muito natural porque eu não tinha um formato específico, esse formato foi se desenvolvendo, então eu não pensava em escrever algo com uma linguagem objetiva, muito pelo contrário, um diário tem muita subjetividade, eu falo muito dos meus sentimentos, de coisas pessoais, enfim. É um relato que busca ser sincero com aquilo que eu estou vivendo, sentindo e que não é um relato objetivo como a gente encontra no jornalismo, por exemplo. Não se prende apenas a números e a detalhes, fala das impressões de um ser humano.

O diário para mim é uma realização pessoal de um sonho que eu sempre tive de escrever e que fui boicotando durante muitos anos por uma série de fatores e um pouco de insegurança por não saber como iniciar. O curioso é que eu me sinto muito feliz no sentido de estar realizando esse grande sonho, que é poder externar o que eu acredito ser a minha principal arte, escrever, mas daí vem uma coisa bastante ambígua: feliz por essa realização pessoal, no entanto muito mexido sentimentalmente com o que está acontecendo, é um período muito triste falando de forma coletiva. Tem muita coisa envolvida, muitas pessoas estão sofrendo seja pelo fato de terem parentes acometidos pela Covid-19 seja pelo fato de terem suas vidas afetadas pela questão econômica. É muito difícil tentar balancear isso, é um exercício diário não deixar pender pra indiferença, mas também tentar não carregar tudo nas costas, tudo que está acontecendo. É preciso tomar cuidado para não adoecer nesse sentido.

Mas falando sobre a produção do diário: eu escrevo na rua mesmo, chegando em casa eu dou uma pequena editada, mas geralmente eu já vou escrevendo, editando, lendo e relendo na rua. Faço isso nos intervalos das entregas, por exemplo, chego para entregar uma refeição no edifício e enquanto a pessoa não desce eu estou escrevendo, pensando em alguma coisa, passando pro texto e fotografando (às vezes a foto sai em cima da moto mesmo). E o texto tem um pouco disso, dessa dinâmica: acelero aqui, subo ali, desço para tal rua, estou na avenida tal, o que é realmente a rotina corrida.

  • Qual sua leitura da cidade de São Paulo? Quais são suas impressões, lembranças, apegos?

São Paulo é a cidade do meu coração, é a cidade que eu amo. Acho que posso conhecer o mundo inteiro e São Paulo vai permanecer como aquela que é a minha cidade. Tenho muita memória afetiva com vários cantos, com a região central e com a região de Pinheiros, onde tinham casas noturnas que eu frequentava quando adolescente.

Depois vieram outras memórias. A minha primeira experiência como motoboy foi quando comecei a conhecer geograficamente São Paulo. Já me perdi muito, xinguei muito em cima da moto (risos). Passei bastante “veneno”, bastante dificuldade, São Paulo é uma cidade enorme. Até hoje, não há uma pessoa que diga que conhece ela inteira, impossível, pode ter os anos que for de experiência, mas não conhece a cidade inteira, é muito grande, cheia de bairros complicados e vias complicadas. São muitas as memórias de ir conhecendo os bairros, até os mais distantes. Conhecendo mais a fundo a Zona Leste, mais a fundo a Zona Norte, Zona Sul, Oeste. Aliás, tem uma memória que eu colocaria entre as mais especiais: o show de Gilberto Gil e Caetano para comemorar o aniversário de 450 anos da cidade que eu assisti da esquina da Ipiranga com a São João. Esse foi um momento muito marcante para mim.

  • Essa leitura mudou após o coronavírus?

O olhar que eu tenho em relação à cidade hoje é que é uma cidade cheia de ambiguidades. Tem muita gente rica, mas tem muita gente pobre, tem muito morador de rua. Tem muita coisa bela, mas tem muita coisa de embrulhar o estômago também. Muita gente trabalhadora, batalhadora, mas muita gente egoísta, que só olha pro seu, elitista. Rodar pela cidade é passear por essas diferentes impressões. O que eu percebo é que a chegada da pandemia dá holofote pra todas essas questões que já existiam, ela coloca luz, ela desnuda. Estava tudo aí o tempo todo, mas entrou no cotidiano das pessoas e elas pararam de observar e acabaram naturalizando, “uma pessoa dormindo na calçada? Normal, é um mendigo”; “pessoas se prostituindo? Normal”; “favela? Normal”. Todas essas mazelas se naturalizaram com o passar dos anos na sociedade, mas a pandemia veio com o efeito de evidenciar tudo isso. Então aquilo que não se olhava antes está todo mundo olhando e o mais irônico: de dentro de suas casas. Quando todos tinham a oportunidade de estar na rua, passavam direto e não olhavam, não ligavam e agora que as pessoas estão em suas casas é que elas percebem essas coisas. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho com as reações que eu percebo que as pessoas têm com os relatos que faço.

  • Como a pandemia afetou a sua rotina de trabalho?

Afetou bastante. Primeiro porque agora tenho duas funções: a de relatar o que está acontecendo e a de continuar com o meu trabalho de motoboy. E não é fácil fazer as duas coisas juntas, tem momentos que eu fico estressado para conseguir dar conta, tem que correr e às vezes acaba até atrapalhando um pouco o trabalho. Se eu deixo de escrever naquele momento, eu perco, vai embora, então preciso escrever para o produto sair de maneira natural. Acho que essa é a principal mudança que a pandemia me trouxe.

Mas também há outras mudanças, a outra mais notada é a questão do trânsito. Estamos acostumados a andar nos corredores. Agora a grande quantidade de carros está voltando um pouco por conta do afrouxamento do isolamento social, inclusive cheguei a pegar muitos trechos de trânsito esses dias. Não como antes, antes da pandemia o trânsito era bem maior e essa é uma mudança muito evidente. Eu também ainda estranho muito ver os comércios fechados, os grandes parques como o Ibirapuera e Aclimação. Custa a acreditar, isso é bem difícil. Shoppings centers fechados em um pleno sábado, no horário de pico, com as luzes apagadas, as lojas fechadas. É uma coisa de causar muito espanto, o negócio é sério, parou tudo.

  • Algum momento te marcou mais durante esses tempos de isolamento? Um encontro, um gesto, um acontecimento?

Foram muitos momentos, mas teve um em especial com o José, um carroceiro que eu encontrei na tarde de Sexta-feira Santa. Ele estava com sua carroça, parecia um senhor já com mais de 50 anos. Eu perguntei se ele não tinha medo do vírus e ele me respondeu que tinha apenas medo de Deus. E aí você vê uma pessoa simples e destemida por talvez ignorar a letalidade da coisa com a qual estamos lidando. O José estava totalmente desprotegido, não usava nenhum tipo de equipamento. Aquilo mexeu muito comigo, foi marcante.

Esses dias eu tive um outro encontro com o Geraldo, um morador de rua. Tem um lugar onde eu compro esfihas quando chego do trabalho cansado e não quero cozinhar e do lado desse lugar tem uma agência bancária. Um dia eu passei e vi uma pessoa deitada ali e pensei ‘’bom, deve ser alguém que vem toda noite dormir aqui’’, então sempre passava e observava. Um dia, quando estava comendo umas esfihas em cima da minha moto no estacionamento dessa agência, eu vi esse senhor vindo caminhando do lado oposto da avenida com um galão de água e uma mochila. Ele veio, se acomodou no canto dele, esticou umas cobertas, sentou e começou a fumar um cigarro. Eu fui me aproximando como quem não quer nada pra conversar, pensei ‘’as pessoas vivem na rua, sozinhas, às vezes sentem uma carência, não só a material das coisas, mas a carência de atenção’’ e com o intuito de oferecer um pouco do meu tempo para ouvir, comecei a conversar com ele. Descobri que o Geraldo é um funileiro, um profissional experiente que estava vivendo naquela situação. Eu não entendi muito bem, ele falava um pouco enrolado, mas parece que fazia três anos que morava na rua. Ele se queixou dos aluguéis e falou que mesmo na periferia o aluguel é alto, falou sobre uma série de coisas. Enfim, foi um encontro muito marcante. E aquilo, infelizmente acaba sendo natural ver as pessoas morando nas ruas o que não deveria ser. Todo mundo deveria ter direito a um lar, um lugar para descansar, dormir, enfim, fazer todas as atividades. E quando você conversa e começa a ouvir a pessoa, isso choca sabe? Porque hoje eu vou dormir debaixo de um teto e ele não. Então esse foi um encontro bem marcante também.

Sem dúvida nenhuma, o trânsito é a atividade que eu gostaria que fosse suspensa e que não voltasse mais. E aí, pegando carona com o trânsito, a gente pode pensar em alternativas, porque a quarentena mostra uma série de outras possibilidades. As pessoas estão trabalhando em suas casas e se locomovendo menos e o que a gente pode aprender com esse momento? Precisa todo mundo estar em uma empresa o tempo todo, full time, com esse modelo de trabalho super ultrapassado baseado no modelo fabril onde você tem que bater cartão e trabalhar diariamente em um mesmo local? É pra gente pensar quais são as novas possibilidades. Por exemplo, posso trabalhar de casa, posso ir atender uma necessidade naquele dia específico e ter uma mobilidade nesse sentido, acho que isso ajudaria a reduzir o trânsito.

Podemos pensar em uma forma de deixar a cidade mais saudável porque se tem uma coisa que eu percebi muito é que você consegue notar e observar mais a cidade, suas as áreas verdes e suas belezas arquitetônicas com o trânsito reduzido. Quando tem o tráfego muito intenso, ele nos consome, ficamos tensos, são muitos carros, precisamos ficar atentos. A redução drástica do trânsito nessa quarentena no começo foi impressionante, assustador, as ruas estavam vazias e assim eu comecei a observar mais a cidade. Então, sem dúvida nenhuma, o trânsito, essa movimentação maluca que eu gostaria que não voltasse mais. Eu sei que o motivo é terrível, sem dúvida, mas é agradável estar rodando na cidade nesse momento.

  • E existe alguma atividade/mudança que iniciou agora e que você gostaria que continuasse no pós-pandemia?

Sem dúvida nenhuma, a atividade que eu quero continuar no pós pandemia é continuar fazendo esses registros da cidade, talvez com outro formato que não o diário. A minha ideia é continuar com o diário até onde a quarentena se estender. Depois, eu estou pensando muito em uma narrativa pós pandêmica, com tempo, porque o diário não permite que você mergulhe demais na história de uma pessoa, de um personagem.

Então a ideia é que acabando a pandemia eu possa me dedicar mais a temas de maneira mais profunda. Ter um deadline maior, não de um dia em que o texto precisa estar pronto até meia noite porque a narrativa é daquele dia, é um diário, passou não é mais né (risos). Quero ter um prazo maior que me permita fazer esse trabalho mais extenso, talvez um jornalismo literário de pegar relatos e transformar em um livro. A ideia é que o diário também se transforme em um livro. O que eu quero que continue é essa atividade que eu finalmente iniciei.

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