Apesar de maioria nas universidades brasileiras, negros representam menos de um quinto dos estudantes da UFSC

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Reportagem de Rodrigo Barbosa (rodrigobpp@hotmail.com) e Georgia Rovaris (georgiarovaris1@gmail.com)

Na última quarta (13), um estudo divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que, pela primeira vez na história, os negros são maioria nas universidades públicas do Brasil – 50,3% dos estudantes da rede pública se autodeclaram pretos ou pardos. Na Universidade Federal de Santa Catarina, entretanto, a porcentagem segue distante da média nacional: negros representam menos de um quinto dos estudantes da UFSC.

Os números mais recentes divulgados pela SAAD (Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades) são referentes ao ano de 2017 e mostram que os estudantes negros eram pouco mais de 5 mil dos cerca de 30 mil estudantes da instituição. O número representa 16,7% do corpo discente. De acordo com Marcelo Tragtenberg, secretário em exercício da SAAD, em 2019 este percentual segue próximo aos 16%. Ainda segundo ele, o panorama da UFSC “é de igualdade racial em relação ao percentual de pretos e pardos em Santa Catarina”.

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De fato, o número é maior que o percentual da população negra no estado de Santa Catarina, que é de 15,4%, de acordo com o Censo de 2010. A UFSC, hoje, destina 16% das vagas do vestibular a estudantes negros. Com isso, a universidade está de acordo com a Lei de Cotas, sancionada em 2012, que determina que o percentual destinado a estudantes pretos, pardos e indígenas não pode ser menor que o percentual desta população no Estado da instituição.  

Ainda assim, há quem não se sinta suficientemente representado na universidade. É o caso do estudante de Ciências Sociais, Caio Xavier: “Eu entrei numa sala onde nela, apenas três estudantes eram negros. Não bate com esta porcentagem. Ao menos no CFH, isso não se faz realidade”.  

Curiosamente, o CFH (Centro de Filosofia e Ciências Humanas), mencionado por Caio, é um dos centros que tem percentual de estudantes negros acima da média da Universidade – são 18,3% dos estudantes. Mas em nenhum dos 15 centros da instituição, este percentual atinge sequer um quarto dos alunos. O menor percentual está no campus Araranguá – 12,2% – e o maior no CDS (Centro de Desportos), com 24%. 

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O impacto das cotas

Apesar de ainda pequeno frente à média nacional, o percentual de estudantes negros na UFSC vem crescendo desde a adoção ao sistema de cotas. Em 2008, ano em que as cotas começaram a ser aplicadas na universidade, o número de negros ingressos quase dobrou em relação ao ano anterior (de 389 para 651).  

Nos últimos anos, este número vem sendo superior a 1500 novos alunos por ano – ou seja, é quase quatro vezes maior que os números registrados antes da adoção ao sistema de cotas. Em 2017, aproximadamente dois terços dos estudantes negros da UFSC ingressaram na instituição através das cotas. A partir de 2016, uma cota de 3% de vagas suplementares também é oferecida a cotistas negros. Em 2019, foram 202 vagas. 

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Para a professora e pesquisadora de questões étnico-raciais Leslie Chaves, a mudança no perfil do estudante universitário na última década é visível: “Pude acompanhar gradativamente essas mudanças enquanto estudante de graduação, depois como pesquisadora-estudante no mestrado e doutorado. Durante essa trajetória tive pouquíssimos colegas negros e nenhum professor negro”. Segundo ela, o ambiente universitário hoje é mais diverso, enriquecendo o aprendizado através da introdução de novas realidades e pontos de reflexão. 

Apesar disso, ela afirma que ainda há um longo caminho a ser percorrido para diminuir as desigualdades sociais historicamente estabelecidas no país. Ela destaca, em especial, o acesso a direitos básicos, como a saúde, e a oportunidades de emprego. De acordo como IBGE, o salário de um trabalhador branco no Brasil é 75% maior se comparado ao salário de um trabalhador negro. Segundo a pesquisadora, somente a partir da redução destas desigualdades “poderemos ter uma sociedade mais justa e um país que reconheça a totalidade de sua população, sua história e sua verdadeira imagem, com todas suas as cores e contribuições”.