Cuidar dos filhos e da casa também é dever do pai

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Reportagem: Júlia Mallmann (juliamallmann4@gmail.com)

Novo paradigma leva mais homens a assumir a corresponsabilidade por tarefas antes atribuídas apenas às mulheres

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Ninguém nasce sabendo como ser mãe ou ser pai. Na maioria das vezes, é com a prática que se aprende. A novidade hoje é que o papel dos cuidados para com os filhos, historicamente atribuído à mulher, sobretudo na tradicional sociedade brasileira, cada vez mais conta com a participação do pai, ou melhor falando, com a corresponsabilidade assumida pelo novo pai.
“Novo” é aqui utilizado porque se trata de um comportamento que representa a quebra de um paradigma, inclusive porque muitos homens estão assumindo o protagonismo desse papel. A mudança, porém, não tem sido fácil. Até porque o entendimento tradicional de que cuidar dos filhos é papel da mulher está por todos os lados. Basta observar.

O trocador de fraldas, por exemplo, algo necessário e comum, nos espaços públicos está, com raras exceção, presente apenas nos banheiros femininos. Já nos filmes que inundam o imaginário, para citar outro exemplo, a figura de um pai que cuida sozinho dos próprios filhos é sempre romantizada, com toques de diversão, e quase sempre no desfecho da história a mãe volta para casa, colocando “todas as peças” em seu devido lugar.

Ainda que a tradição resista, é fato que a inserção da mulher no mercado de trabalho, a busca constante pela igualdade de gêneros, a aceitação de novos modelos de famílias e uma maior compreensão da cidadania são fatores que levam a sociedade a novos padrões civilizatórios, contribuindo para não se encarar a mudança como uma “inversão de papéis”, mas como o reconhecimento de que cuidar da prole é papel dos dois progenitores.
Márcio Alexandre e Michael Camilo são dois exemplos de pais aqui de Florianópolis que estão contribuindo para esse novo cenário. O Cotidiano foi ouvi-los para saber o que pensam e como dividem com as mães de seus filhos as tarefas mais diárias de educação, marcando presença, dando exemplos e assumindo afetos. Acompanhe. [As respostas foram editadas, por questão de espaço]

Márcio Alexandre, 43 anos, pai aos 37. Formado em Comunicação Social – Jornalismo

Cotidiano UFSC: Quando e por qual motivo você e sua esposa tomaram a decisão de que você seria responsável pelos cuidados da criança enquanto ela não está presente?

Márcio Alexandre: Se me permitir comentar, não vejo como uma “inversão de papéis”, pois o tempo todo estamos assumindo papéis naturalmente, assumindo responsabilidades (e não com o fardo pesado que conferimos a esta palavra, mas a partir de nossa habilidade inata, espontânea, natural de dar respostas às necessidades). As novas responsabilidades que assumimos surgem instintivamente, quando não estamos presos a crenças, julgamentos, pensamentos e hábitos condicionados.
Já ouvi comentários do tipo “homens não sabem trocar fraldas”, “não sabem dar banho” etc, mas é justamente o reforço dessas crenças que, se deixarmos entrar em nossas mentes, vão acabar fazendo com que as perpetuemos e limitemos as nossas capacidades.
Vou contar algumas das cenas que vivi no dia a dia com meu filho. A falta de fraldário em banheiro público masculino é uma dificuldade recorrente. Já cheguei também a ser abordado numa fila de prioridade em um supermercado, pois estava com meu filho dormindo no sling e a pessoa não o viu e veio querendo discutir. Acredito que não imaginou que um homem poderia estar sozinho com um bebê ali. Por outro lado, toda vez que levei meu filho quando bebê a ambientes públicos, eu me diverti com as sugestões das pessoas preocupadas em me dizer como eu deveria cuidar dele. Na verdade, sou grato por isso.
Sobre nossa decisão de eu assumir as tarefas diárias com ele e com a casa, foi decorrente de uma conjunção de fatores. Primeiro, veio nosso entendimento de que a melhor educação vem pelo exemplo. Estar mais presente seria uma maneira de dar exemplos a ele. Em segundo lugar, optamos por matriculá-lo em um Jardim Waldorf, uma escola com filosofia diferenciada, mas, para que ele ficasse o dia inteiro lá, eu precisaria de uma posição no mercado de trabalho que cobrisse todos os cursos, inclusive o das tarefas diárias em casa – e não encontrei. Daí a opção por mantê-lo na escola em meio período e eu assumir essas tarefas. Mantendo uma postura aberta a mudanças e ciente de que papéis são construídos socialmente, isso não representou nenhum problema, pelo contrário.

Cotidiano UFSC: Conte um pouco sobre o seu dia a dia (estudos, trabalho, atividades de casa e com as crianças/ a criança).

Márcio Alexandre: Atualmente minha vida se resume a cuidar da casa, do meu filho à tarde, lavar roupa, fazer faxina, fazer comida, levar e buscar meu filho em um Jardim Waldorf, realizar atividades administrativas (banco, resolução de situações domésticas, da família…), ir a feiras orgânicas e empórios, apoiar minha esposa… Em suma, cuidar do que for possível para que possa proporcionar o melhor em termos de maturidade, prevenção e saúde familiar, conciliando tudo com o desafio de gastar o menos possível. Com apenas uma pessoa trabalhando fora, é preciso reduzir gastos.
Esporadicamente, atualizo site e Facebook de uma pousada, com a qual faço permuta de trabalho, assim como me mantenho aberto a oportunidades. Ano passado fiz alguns cursos para voltar ao mercado de trabalho. Atualmente, estou inteiramente aberto a possibilidades fora da minha área de atuação.

Cotidiano UFSC: Como é a relação de pai e filho, entre vocês?

Márcio Alexandre: Harmoniosa, amorosa, estabelecendo limites de forma firme e gentil. Somos bastante companheiros e, ao mesmo tempo, a autoridade de pai ocorre naturalmente quando a situação é solicitada.

Cotidiano UFSC: Quais as maiores dificuldades que você sente no dia a dia?

Márcio Alexandre: Minha esposa chega em casa muitas vezes tarde do trabalho, e dá toda atenção a ele, assim como nos finais de semana. Ele sente a falta da mãe, sim, mas acontece da mesma forma quando o pai está trabalhando e chega tarde em casa ou só nos finais de semana. Pelo menos, vários pais me relatam que é a mesma coisa.
Sinceramente, não sinto dificuldade em ser pai. Eu amo o que faço e não há esforço algum nisso. Para mim, a maior dificuldade é como viver de forma sustentável e saudável com um custo de vida tão alto.
Meu maior desafio hoje está nos questionamentos e pensamentos. Do tipo: “preciso encontrar um trabalho para ajudar a sustentar a casa”, “como posso ser mais eficiente em casa?” “como conseguir servir almoço e jantar balanceados/saudáveis prontos na hora certa (criança tem que dormir bem e ter ritmo) e sem ter que recorrer a refeições externas?” etc.
As crianças não tem noção de tempo, nós temos. E muitas vezes, isso se torna desgastante, principalmente por causa do mundo de horários e compromissos. Eu busco sempre o melhor equilíbrio, procurando educar pelo exemplo.

Cotidiano UFSC: Com a sua experiência, que dica você daria para os pais que se encontram em situações parecidas com a sua?

Márcio Alexandre: Relaxe. Olhe as pessoas, o mundo à sua volta. Perceba. Pergunte-se: “que mundo você quer para o seu filho?”. Então, mãos à obra.
Se quisermos que o mundo seja melhor, compreendo que é preciso despertarmos, expandindo nossa consciência, para nosso verdadeiro papel neste mundo. A mudança tem de começar por nós mesmos.
Eu desejo um mundo para meu filho em que haja mais cooperação do que competitividade. Como faço isso? Demonstrando aquilo que sinto, percebo, desejo. Pelo exemplo. Eu me pergunto qual fase da vida a personalidade está mais suscetível a aprendizados? Para mim, os primeiros anos de vida são cruciais, são muito mais importantes. Por isso a importância de estar presente agora.
Acho importante dizer que a intenção não é construir, projetar um ideal de perfeição de filho, que é comum em nossa sociedade, o que muitas leva alguns pais a se decepcionar com a escolhas do próprio filho. Meu desejo é que o tempo dele viver, brincar, experienciar, aprender seja respeitado e, com isso, ele se sinta cada vez mais consciente e sintonizado com suas escolhas.

Cotidiano UFSC: Qual é a maior satisfação de acompanhar o crescimento de um filho?

Márcio Alexandre: É poder oferecer a cada percepção o que há de melhor em mim. Mesmo percebendo que em algumas situações não foi o melhor, que falhei, é uma bênção aprender a lidar com elas, evoluir junto com ele, e oferecer a correção de uma atitude antes pouco apropriada para algo visando benefício mútuo e planetário. Ao meu ver, equilíbrio emocional é vital para uma educação saudável.

Michael Camilo, 25 anos, pai aos 22. Estudante de Eng. de Controle e Automação na UFSC

Cotidiano UFSC: Conte um pouco sobre você. Quando e por qual motivo você tornou um pai solo?
Michael Camilo: Eu vim de Campinas/SP, e tenho 25 anos. Descobri que seria pai com 21, mas quando ele nasceu eu tinha 22. E eu estudo, faço Eng. de Controle e Automação na UFSC. Me separei no final do ano passado, por falta de comunicação no relacionamento que vivia, e que nos impedia de trabalhar os outros problemas.

Cotidiano UFSC: Conte um pouco sobre o seu dia a dia.
Michael Camilo: Hoje meu dia a dia é corrido, eu estudo de manhã e à tarde, e final da tarde busco meu filho duas ou três vezes durante a semana (três quando é meu final de semana de ficar com ele). Recentemente comecei um estágio em um laboratório no INE/CTC, então estou vendo como conciliar esse novo acréscimo na minha rotina com todas as demais responsabilidades. Mas agradeço muito que a UFSC dá suporte para alunos que são pais, principalmente na questão da alimentação, já me ajuda bastante não precisar dispender tempo comprando ingredientes, cozinhando e lavando louça depois.
Normalmente eu pego meu filho na creche, levo no RU, e depois do jantar voltamos para casa, tomamos banho juntos e cama. Quando tenho algo urgente para o dia seguinte, eu sento na cama com o computador na frente, para ele deitar no meu colo e dormir lendo Turma da Mônica ou outro livro. O ruim de entrar noite adentro estudando é que ele acorda cedo de qualquer jeito. Estando solteiro, não tenho outra pessoa para ficar com ele de manhã, para dormir um pouco mais. E por mais que meus pais me apoiem, eles moram em outro estado, então tenho que me virar. Limpar a casa, por exemplo, eu acabo fazendo nos finais de semana em que ele não fica comigo, mas lavar roupa às vezes eu coloco-o para me ajudar, ou deixo-o brincando e vou fazer rapidinho.

Cotidiano UFSC: Como é a relação de pai e filho entre vocês?
Michael Camilo: Minha relação de pai e filho é ótima, a gente se dá super bem. Estamos sempre brincando e rindo. Quando não tem nada muito sério a ser feito, e sempre me proponho a levar ele para lugares legais, experiências novas, acho que isso vai beneficiá-lo muito, é um ritual que me aproxima dele.

Cotidiano UFSC: Como você consegue conciliar os dois papéis, de pai e estudante?
Michael Camilo: Quanto a conciliar o papel de pai e estudante, não é algo tão simples, pois não é só uma questão de quanto tempo eu fico com ele, mas toda uma questão do cansaço físico gerado, e de algumas preocupações básicas que não tem como sair da cabeça (“será que ele está agasalhado o suficiente?”, “será que vai ter uniforme limpo pra ele ir amanhã para a escola?”, “eu peguei a capa de chuva?”, “amanhã vou ter que levar ele no médico”, “ontem ele estava ficando resfriado, acho que vou direto pra casa fazer uma sopa hoje”), coisas assim que só pais entendem. Quando ele não pode ir à creche porque está um pouco mal, ainda tenho de enfrentar a decisão de levá-lo ou não junto comigo para a aula na UFSC (já levei algumas vezes). Outras vezes não tem jeito, e tenho de faltar mesmo.
Em geral, quando preciso faltar, os professores entendem e refazem provas ou relevam a questão da presença, mas o conteúdo que se perde em uma semana de filho com febre, depois só tirando tempo do além para recuperar mesmo.

Cotidiano UFSC: Qual é a maior dificuldade em ser pai solo?
Michael Camilo: Acho que a maior dificuldade de não ter parceira e não ter família perto é conciliar todas as tarefas e ter que estar sempre bem, porque seu filho depende de você. E além de tudo isso, ainda ter que cuidar muito com o que falo, àquilo a que posso expô-lo, como educá-lo, ese estou incentivando-o suficientemente, porque o papel de pai vem com tudo isso.

Cotidiano UFSC: Que dica você daria para pais solos?
Michael Camilo: Dicas são coisas complicadas, pois cada situação é uma situação, mas acho que o segredo é não querer abraçar o mundo, não querer fazer coisas demais. Ser pai toma tempo, e família é a coisa mais importante que temos, e a mais gostosa se você aprender a apreciar esses momentos. Se não se der conta disso agora, com certeza se arrependerá no futuro. E ir atrás de coisas que auxiliem a ser um pai melhor seria minha segunda dica, porque em geral homens são um pouco mais resistentes a isso, achando que sabem das coisas. Criar é fácil, mas educar não, e por mais que nos esforcemos há detalhes que às vezes perdemos, e esses detalhes perdidos de maneira sistemática formam, ao longo do tempo, uma lacuna em algum aspecto de criação. Então, buscar um livro, uma palestra, um workshop ou simplesmente uma simples conversa com outra mãe – ou pai – já podem nos ensinar muito sobre como educar nossos filhos melhor.

Cotidiano UFSC: Qual é a maior satisfação de acompanhar o crescimento de um filho?
Michael Camilo: Acho que a maior satisfação é ver o laço que estou criando com ele. Seja quando ele precisa de algo e grita “papaaaaiiiiii”, ou quando está com medo e quer colo, ou mesmo quando eu o vejo fazendo algo da mesma forma como eu faço, como um jeito de falar, umas caras e bocas, isso toca o meu coração, e me confirma que toda essa troca é realmente mágica, que você dá o seu máximo e vê que o seu melhor está ficando nele.