A turma da tranca da Felipe Schmidt

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Texto e fotografia: Joelson Cardoso (joelsonc.cardoso@gmail.com)

O termômetro da Rua Felipe Schmidt marcava 15ºC naquela quarta-feira às sete horas da manhã. Muito antes de o comércio abrir e as calçadas serem tomadas pelo movimento de pessoas no centro de Florianópolis, um grupo de senhores começava a aquecer seus dias jogando baralho. O ponto de encontro é uma mesa de cimento de aproximadamente um metro quadrado, com quatro banquinhos de concreto, em frente ao famoso café Senadinho. É ali, em meio aquele calçadão que é como uma das veias que pulsam o coração da capital catarinense, que a turma da tranca – “pode botar assim”, disse um deles ao descrever o grupo ainda sem um nome oficial – se reúne todos os dias para jogar, tanto baralho quanto conversa fora.

Os jogadores, a maioria aposentados, formam uma pequena associação informal que reúne hoje 68 pessoas. O grupo se organiza há cerca de seis anos. “A mesa é bem eclética, tem delegado, ex-jogador de futebol, funcionários federais, estaduais, municipais”, conta um deles enquanto distribui as cartas. Todos se conhecem, mas nem sempre jogam juntos. “Pela manhã costuma vir um pessoal, a tarde tem outros”, explicam. Cada um contribui com dez reais por mês para a associação. O dinheiro é para os custos com a mesa, como elástico e baralho. No momento, a arrecadação será utilizada na compra de uma lona para o toldo que irá cobrir o espaço onde jogam. A estrutura de ferro que se ergue por cima da mesa a partir de um único pé lateral foi montada pela prefeitura, mas está sem cobertura há meses. Nos finais de ano, costumam fazer também uma confraternização entre eles. Naquela mesa jogam apenas os associados do grupo. Apesar de o espaço ser público, as pessoas costumam respeitar e não sentar no local, até porque, quem passar por aquela rua sempre encontrará alguém jogando. As cartas rolam de segunda a sexta durante todo o dia e aos sábados pela manhã. É dessa forma que a turma da tranca faz parte da vida do centro da Capital.

Como o nome sugere, ali se joga apenas a tranca, um jogo de baralho sem os números três, cujo objetivo é formar canastras e somar o maior número de pontos possível. Cada jogador recebe 11 cartas e vai comprando e descartando-as o tempo todo. Os três de paus e espada, também chamados de terno preto, quando jogados no topo do lixo trancam a compra de cartas do adversário na lixeira, enquanto os três vermelhos, as copas e os ouros, valem 100 pontos no final se a dupla tiver uma canastra, caso contrário, perdem 100 pontos. Para o jogo, são utilizados dois baralhos e o curinga será sempre as cartas de número dois. A canastra é quando se forma uma série com sete cartas em sequência. “Baixar um jogo” é o momento em que se colocam as cartas formadas ou em formação na mesa. Cada time recebe ainda uma pilha com 11 cartas extras, chamada de morto, para quando acabar as que tiverem a mãos. Uma partida tem em média cinco rodadas e dura de 40 minutos à uma hora.

Sobre a mesa, coberta por uma manta verde amarrada por elásticos amarelos começa a serem distribuídas as cartas. Uma nova partida vai iniciar. Seu Jorge, 78 anos; Pepeu, 68; Cau, 67; e Dilmo, 65; formam as duas duplas que começavam a se enfrentar. Os resultados são anotados em um bloquinho de papel amarelo, dividido em duas colunas. Apenas um membro da dupla baixa o jogo. “O mais ruim arruma as cartas”, provoca um deles. Os jogos são marcados por muita descontração entre os jogadores e também por provocações típicas. Nas rodadas soltam diversas piadas comuns de ambientes masculinos, assim como, entre uma jogada e outra, conversas sobre os jogos de futebol – Avaí e Figueirense principalmente –, comentários sobre as últimas notícias da política nacional e até sobre a vida de alguns conhecidos em comum. Às vezes, os ânimos se exaltam e gera algum desentendimento mais sério por causa do jogo, mas logo se entendem novamente. “Claro que a discussão é só aqui. Somos todos amigos, depois é normal”, esclarece Dilmo. Não há apostas entre eles, tudo é apenas pela diversão e distração dos participantes. “Se de graça já dá uma briga danada, imagina se tivesse dinheiro”, pensa Cau. O máximo que pode acontecer é alguém pagar um café para o outro, depois da partida, no Senadinho ali do lado.

Mas quem costuma causar mesmo no local durante a brincadeira são os perus, para a diversão de quem assiste e a irritação de quem está jogando. Os perus são as pessoas que ficam ao redor da mesa, rodando e palpitando sobre o jogo. Em alguns momentos até entregando jogadas pelos seus comentários. Quando alguém pergunta ao jogador se ele vai pescar, por exemplo, significa que está cheio de curinga, que é chamado de anzol devido ao formato enganchado do número dois. Eliésio Chaves, 60 anos, é o peru mais chato, segundo ele mesmo, da mesa. Trabalhando como cambista de dólar na esquina entre a Felipe Schmidt e a Trajano, está sempre passando pelo local e dando “uma provocadinha”. “Chego ali, aporrinho e volto. Dou duas faladinhas e saio”, conta se divertindo. “Nunca levei um corridão, mas não vai demorar muito”, orgulha-se. A maioria dos perus são também jogadores que estão ali apenas assistindo ou aguardando a sua vez. “Eles peruam no jogo da gente e nós peruamos no jogo deles”, comenta Cau. Sete perus acompanhavam o jogo naquela manhã. Em um momento, assim que cada um levantou suas cartas, três espectadores exclamam “Meu Deus!”, entregando que o jogo estava fácil para um deles.

São muitos os palpites por parte dos perus. Eles não se aguentam em apenas olhar e logo acabam soltando e indicando jogadas quando percebem que um jogador na mesa está perdendo uma oportunidade supostamente óbvia. “Fica quieto! Deixa para falar depois, porra”, reclama um deles indignado. Isso porque, ao ser corrigido, o adversário atento pode deduzir as cartas que possuem na mão. “O peru tem direito”, defende os colegas um dos espectadores. Mas quando uma oportunidade é realmente perdida ou uma jogada é mal executada, os perus não perdoam e vira uma grande gozação. “Tu para ser ruim tem que melhorar muito”, grita um peru.

– Semana passada esse aqui perdeu uma canastra.

– Semana passada foi semana passada. Já tamo nessa semana.

– Na semana passada o Figueirense perdeu e essa semana ele perdeu de novo.

2

Aqueles que cometem vários erros e são bastante desatentos em suas jogadas são chamados de pangarés. “São os que só fazem bobagens durante um jogo”, descreve Márcio, 71 anos, também associado do grupo. “A partida tem uma sequência, os momentos certos para cada coisa, quando pegar carta, jogar, a hora de baixar o jogo, de comprar e pegar do lixo. Tudo tem uma regra”, detalha o aposentado. Queimar uma etapa do jogo e bater sem estar com uma canastra formada são os erros mais graves que levam um jogador a ganhar o nada honroso título de pangaré por algumas horas e virar o grande motivo de zombaria do pessoal. Ao serem questionados quem é o jogador mais temido do grupo, todos não demoram muito em apontar um tal de Seu Cem. Logo, descobre-se que ele, na verdade, é um legítimo pangaré. “O Cem é o cara mais chato da roda, o pior jogador que tem, joga mal pra caralho e vive dizendo que é o melhor da mesa”, revela Pepeu, aos risos, sobre o parceiro.

Enquanto a maioria cede às provocações e brincadeiras dos perus, Seu Jorge permanece concentrado na partida. É o mais sério da mesa naquele momento, conduzindo o jogo com muita observação. Já somava duas canastras e tinha um três de copas preso no elástico no seu lado esquerdo. Era ele quem baixava os jogos na mesa da sua dupla. Dividia-se apenas com as tragadas que dava nos cigarros e em receber as cartas do companheiro de partida. Durante o jogo de cerca de 40 minutos, foram três cigarros. “O Seu Jorge é sempre o primeiro a chegar, cedinho ele já está aí”, entrega um colega. De fato, toda manhã, o aposentado vem se distrair com a tranca com seus amigos. “É uma diversão boa pra gente que nem vemos a hora passar”, diz ele.

Já Pepeu é um dos mais falastrões da turma. Morador do centro, ele trabalha como cambista trocando dólar na Rua Felipe Schmidt. Chega cedo todos os dias para jogar antes de começar a trabalhar. “Sempre quando chego, já tem gente esperando para jogar”, conta. Ele brinca até por volta das nove horas, quando os bancos abrem e aparecem os primeiros clientes do dia. Pepeu fica ali por perto, mas não gosta de “peruar”, mesmo parando para assistir de vez enquanto. Cau também vende dólar no mesmo local. Ele sai cedo do bairro Jardim Atlântico, bairro na região continental de Florianópolis, para sempre poder “jogar um pouquinho antes de começar a trabalhar”, fala. “É uma diversão pra mim”. Quando tem muitos associados reunidos, ao fim de uma partida, trocam-se os jogadores, permitindo que todos participem e aproveitem o espaço. Das duas horas da tarde em diante costuma ser o horário com maior movimentação ao redor da mesa.

Apenas uma mulher faz parte da associação, seu nome é Maria. Ela trabalha como faxineira e cuida de uma idosa em uma casa de família no centro da cidade e sempre que pode, aparece para jogar no período da tarde. Ultimamente tem jogado poucas vezes. É descrita pelos colegas como uma boa jogadora. Desbocada e extrovertida, não se importa com as piadas, muitas vezes machistas, que os homens fazem na sua frente. Até participa de muitas delas, sem constrangimento. Foi com esse seu jeito particular e mostrando que também manda muito bem na tranca que ela conquistou uma vaga na associação.

É com uma pluralidade de histórias, risos e descontrações que aquela aglomeração em torno de uma mesa em meio a uma movimentada rua, que a turma da tranca segue se divertindo e entretendo quem passa pelo local. É a distração de muitos aposentados que já passaram por ali um dia também na correria. Hoje não vejam a hora passar nem a temperatura subir aos poucos naquele começo de inverno, enquanto estão envolvidos de amigos e distração.

Contam-se os pontos, Pepeu e Seu Jorge venceram. Uma nova turma senta-se a mesa.

 

 

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