Recusa vacinal começa na maternidade e preocupa equipes de saúde em Florianópolis
Equipe que acompanha recém-nascidos na capital estima que, por dia, ao menos dois bebês ficam sem imunização contra tuberculose e hepatite B por decisão dos pais
Reportagem por Arthur Westphalen e Maitê Silveira

Desde 1997, os recém-nascidos em Florianópolis têm uma visita em comum à espera. Todos os dias, a equipe do Capital Criança percorre as três maternidades da cidade para orientar as mães sobre a saúde do bebê, entregar um kit de primeiros cuidados, aplicar vacinas e marcar a primeira consulta no Centro de Saúde. Esse é o protocolo básico de atendimento. Entre a implementação do programa e o fim do ano 2000, a taxa de mortalidade infantil na capital de Santa Catarina caiu de 21,6 a cada mil nascidos vivos para 8,8.
Entretanto, no checklist da equipe multidisciplinar, um “não” cada vez mais frequente virou sinal de alerta. “As meninas falam que, de uns dois anos para cá, intensificou muito a recusa vacinal”, relata Luana Branga, enfermeira responsável pelo Capital Criança em Florianópolis. Ela estima que, da média de 40 nascidos por dia na cidade, pelo menos dois saem sem as vacinas previstas no Plano Nacional de Imunização (PNI) por recusa dos pais. A vacina BCG, que protege contra formas graves de tuberculose, e a Hepatite B são consideradas de cuidado imediato, ou seja, devem ser feitas nas primeiras 12 horas de vida. As duas são ofertadas pelo SUS.
Apesar de treinadas para aconselhar sobre a importância da imunização, enfermeiras afirmam que muitas vezes a recusa vacinal vem do próprio pediatra da criança, o que dificulta ainda mais o trabalho de conscientização. O vínculo de um médico que acompanha todo o pré-natal é diferente de quem chega no dia do nascimento, e as profissionais reconhecem isso. “A mãe fica insegura. A gente dá uma informação e a equipe que acompanhou a família dá outra”. A mesma coisa vale para as doulas. “Há algumas semanas, uma paciente disse que ia aguardar o que a doula ia dizer sobre a vacinação. No fim, falou para não vacinar”, conta Luana.
Famílias estrangeiras tendem a ser mais resistentes com as vacinas, segundo o Capital Criança. A cidade abriga várias pessoas de origem de países com demandas sanitárias distintas. “Diferente de outros países, por exemplo, o Brasil ainda tem muitos casos de tuberculose. Por isso, a recomendação é de aplicar a BCG e que o melhor período é logo após o nascimento”, explica Anelise Souto, neonatologista do Hospital Universitário da UFSC.
“O PNI prevê as vacinas, dependendo das condições do país, e o melhor momento de aplicação. É baseado em evidências, não em opinião ou achismo”, argumenta a médica. Em meio à expansão global do movimento antivacina, as famílias estrangeiras não entendem o impacto da recusa na saúde pública brasileira. Sem fluência em idioma estrangeiro, o esforço das equipes de Florianópolis passou a contar com um folder bilíngue de orientações. Na persistência da negativa, o termo de responsabilidade por recusa de vacina também ganhou tradução para o inglês.


Quem acredita em práticas mais naturalistas da saúde também costuma negar os imunizantes, completa Anelise Souto. “Essas pessoas têm o pretexto de que gostariam que a vida fosse completamente natural, sem nenhum ‘aditivo industrial’”. Ela reconhece que essas recusas sempre foram pontuais, “mas, infelizmente, a vacinação entrou na política, né?”, desabafa. Desde então, o trabalho de Anelise, do Capital Criança e dos agentes de saúde do município virou uma luta diária pela garantia do direito do bebê à saúde.
Planos de parto personalizados ajudam pais a não vacinarem filhos
Pelo que ele próprio lembra, o advogado Tales de Melo sempre foi referência nacional em um assunto espinhoso: homeschooling, a educação domiciliar. Ele contabiliza mais de três mil consultas a pais que gostariam de retirar os filhos do sistema escolar brasileiro. Recentemente, um novo grupo começou a procurar seus serviços. Tales passou a atender responsáveis que buscavam manter, dentro da lei, os filhos sem vacinas. Mas, não é nada pessoal. “Eu não sou antivacina, entendeu? Inclusive, os meus filhos são vacinados”, esclarece.
“A minha questão tem a ver com liberdade. Eu acho muito grave o Estado dizer o que você tem que fazer sob o risco de perder a guarda do seu filho”, afirma. A fim de garantir a “liberdade parental”, Tales realizou uma postagem nas redes sociais ensinando pais a prepararem um plano de parto. O documento informa à equipe da maternidade, entre outras demandas, que o recém-nascido não deve ser vacinado após o parto — como acontece com os bebês atendidos pelo Capital Criança, por exemplo.
Inicialmente, os planos de parto surgiram para assegurar direitos às mulheres e evitar violências obstétricas. Na prática, entretanto, têm servido de muleta para que os pais neguem um direito fundamental aos filhos. O advogado Tales Melo explica que o documento evita que mãe receba hormônios e estimuladores ou passe por procedimentos sem o consentimento dela. “Foi ali que eu vi essa possibilidade. A questão não é que ‘não vai dar a vacina’. É que não vai dar a vacina nesse primeiro momento”, justifica.
Tales orienta os pais que, em algum momento do plano de parto, coloquem, especificamente, que não desejam dar as vacinas antes do teste de pezinho ampliado. Diferente do tradicional, esse teste detecta mais doenças imunológicas. A realização do exame adia a aplicação da BCG em alguns dias, sob a justificativa que a vacina pode ser prejudicial ao recém-nascido caso ele tenha alguma das doenças detectáveis. “O que os pais fazem depois que estão em casa, ou seja, dar ou não a vacina na rede particular, aí já é um critério e uma escolha deles”, defende Tales.
Quando decidem vacinar os filhos, essas famílias costumam optar por clínicas particulares, o que acende outro alerta: a BCG tem baixa disponibilidade na rede privada. Além de vir em frascos multidose — que precisam ser consumidos em até seis horas, algo incompatível com a baixa demanda e passível de desperdício —, a técnica de aplicação é intradérmica, mais complexa, e precisa de formação específica.
Tales Melo garante que não há um padrão socioeconômico, filosófico ou político das famílias que buscam seus serviços jurídicos. “São pais que estão preocupados. Eles estão estudando, procurando alternativas para a saúde dos filhos e é aí que vem a recusa da vacina”. Da preferência pela homeopatia ao medo de “uma dose a mais de alumínio no cérebro” causar autismo, o advogado defende que as famílias querem preservar a saúde dos filhos.
A neonatologista Anelise Souto, que atua há mais de 30 anos na área, lamenta o comportamento. “Eles têm a boa vontade de fazer o melhor possível para os seus bebês, acreditam que não vacinar é a melhor coisa a se fazer. Só que é um pensamento ingênuo e completamente desinformado”.



