Projetos de jovens brasileiros concorrem em programa de Harvard

Texto: Bruna Andrade (brunandrade92@gmail.com)

Projetos de cinco brasileiros concorrem entre os 15 finalistas do mundo todo na final do programa da Universidade de Harvard “Village to Raise a Child”. A iniciativa de universidade norte-americana tem por objetivo identificar  jovens empreendedores pelo mundo, para fornecer ferramentas e recursos para que coloquem seus projetos em prática. O programa já teve uma fase de votação do público que, junto com a análise dos jurados, determinaram os finalistas que agora passam por entrevistas feitas pela internet.

Para participar, o projeto deveria antes de qualquer coisa mostrar o envolvimento do jovem com a sua comunidade. O nome do programa vem de um provérbio que diz “it takes a village to raise a child” (em tradução livre, “é preciso uma vila para criar uma criança”). Por isso a importância em procurar desenvolver os locais onde vivem e terem conhecimento da realidade que os envolve. Em novembro, os cinco estudantes ganhadores irão expor suas ideias no seminário anual de Harvard “Igniting Innovation Summit”, que debate ideias inovadoras.

Dos finalistas, dois brasileiros conseguiram a vaga por obterem maior número de votos. Georgia Gabriela Sampaio, de Feira de Santana(BA), conseguiu 3.578 votos. O projeto da baiana de 18 anos busca desenvolver um diagnóstico barato e menos invasivo para endometriose. A doença é uma inflamação causada por células do endométrio que, em vez de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal, onde voltam a multiplicar-se e a sangrar, sendo uma das grandes causas de infertilidade entre as mulheres.

Georgia interessou-se pelo assunto depois que uma tia foi diagnosticada com a doença e ela percebeu a dificuldade das mulheres de sua comunidade em buscar tratamento. A estudante havia procurado financiamento em um laboratório em uma cidade vizinha para desenvolver o projeto, mas as dificuldades  de locomoção e de comunicação com o pesquisador fizeram-na suspender o projeto. Quando viu em um grupo do Facebook uma postagem sobre a iniciativa de Harvard, reconheceu a oportunidade de retomar seus planos. Foi através da rede social que angariou os votos.

Outro dos jovens que conseguiu a vaga através da votação foi Allan Costa, de Bauru (SP), concorrendo com o “Além da Lousa”. A ideia surgiu com o intuito de unir vários projetos e experimentos de ciência em um único programa. O objetivo é integrar sociedade, cultura e tecnologia em uma gradual reforma da educação, aplicando a ciência como método. Allan sugere isso seja realizado através de aulas práticas, palestras e feiras científicas até com o uso de aplicativos, laboratórios e eventos de criação e produção. “Além da Lousa” oferece uma oportunidade de divulgar a ciência, além de possuir um potencial educacional.

Além dos mais votados, os avaliadores escolheram aqueles projetos que julgaram ser mais qualificados. Nessa categoria, outros três jovens brasileiros foram classificados: Raíssa Müller, André Hamra e Patrícia Riedel.

Raíssa, 19 anos, é de Nova Hamburgo (RS) e ficou sabendo do programa de Harvard através da Fundação Estudar, do qual participa. Seu projeto é a revitalização do Rio dos Sinos, que abrange boa parte da região metropolitana de Porto Alegre. A jovem faz curso técnico de química e sempre se interessou por ciências ambientais.

A ideia do projeto surgiu depois de uma pesquisa sobre meio de conter derramamento de óleo, quando descobriu um material altamente poroso, mas com potencial pouco explorado, que poderia ser utilizado na técnica. O material ainda pode ser reciclado e reutilizado sem perda na capacidade de absorção, além do óleo poder ser recuperado e voltar para a indústria. “Já participei de diversas feiras de ciência e já ganhei alguns prêmios em dinheiro, mas é muito difícil conseguir algum tipo de financiamento para levar seu projeto para algo realmente concreto. Infelizmente, vivemos numa cultura em que se compram produtos, não ideias”, lamenta a estudante.

O jovem de Catanduva (SP), André, 17 anos, já teve a oportunidade de visitar Harvard por duas vezes durante cursos de férias de inglês e de economia. Agora ele pretende voltar para apresentar o “Futebol: Lazer, Saúde e Esperança” no seminário de novembro.  O projeto é um trabalho beneficente que André já desenvolve na cidade, atendendo cerca de 70 crianças de bairros pobres. Fazendo trabalho voluntário desde os 14 anos, em 2013 criou o programa, onde poderia conciliar a ajuda ao próximo com a paixão pelo futebol. O projeto é uma forma de recreação para as crianças que ficam ociosas no fim de semana, além de aproximá-las do esporte. Ele conta com o apoio de duas empresas da cidade, que custeiam o lanche dos participantes e o campo de futebol.

Patrícia, 17 anos, também faz trabalho voluntário. Ela faz parte do grupo teatral “Doutores P“, que com fantasias de palhaços leva alegria ao Hospital São Sebastião Mártir, em Venâncio Aires (RS). A estudante ficou sabendo no último dia das inscrições do Village to Raise a Child através de uma amiga e decidiu participar. O projeto foi criado em 2008 pelo atual diretor Geison Aquino e conseguiu o patrocínio da Unimed. O grupo visita o hospital todos os sábados, por cerca de quatro horas, interagindo com os pacientes. O trabalho é baseado na atuação dos Doutores da Alegria, organização sem fins-lucrativos que atua junto a crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde na busca por uma melhora no quadro clínico.

Esta é a primeira vez que Harvard realiza o programa. A fase de entrevistas segue até o fim do mês. São avaliadas a maturidade, dedicação, personalidade, potencial, iniciativa e capacidade de resolver problemas dos candidatos. Os cinco projetos vencedores serão anunciados no dia 5 de outubro.

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