Fachada do Banco Palmas em Fortaleza, no Ceará. (Foto: Instituto Palmas/Divulgação)

Banco Comunitário beneficia famílias e comerciantes da periferia da Grande Florianópolis

 Reportagem de Gabriel Philippi e Suzan Rodrigues

Florianópolis é conhecida, no Brasil e no mundo, pelas suas belas paisagens, praias paradisíacas e qualidade de vida de seus habitantes. A capital catarinense tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,847, nível comparado ao de Portugal. Não à toa é conhecida como Ilha da Magia. Entretanto, esse cenário esconde a desigualdade social.

Nos morros que cercam a cidade e os municípios vizinhos, vivem famílias que enfrentam todo tipo de dificuldade de acesso à direitos básicos, como alimentação e saneamento, além da falta de informação. Por este motivo, os impactos da pandemia da Covid-19, crise que vem afetando o mundo inteiro, tomaram proporções muito maiores nessas comunidades.

De acordo com o padre Vilson Groh, presidente do instituto que leva o seu nome e atua em comunidades vulneráveis da Grande Florianópolis há nove anos, a periferia “tem uma relação muito profunda com o processo da indiferença em relação ao centro”. Essa desigualdade é vivenciada por Greice Michele Pereira, moradora da comunidade Pedregal, em São José, na Grande Florianópolis, e mãe de cinco.

“Eu trabalho com reciclagem. Muito ferro velho fechou, porque deu na televisão como estava transmitindo (a doença) pelo papelão, pela latinha […] O ganho da gente era aquilo ali, então para pagar o aluguel, comprar a comida para dentro de casa, foi o que fechou legal”.

Aos 31 anos, ela conta que, por mais que tenham receio em sair para trabalhar recolhendo materiais para reciclagem, o dinheiro dos auxílios não supre as necessidades da família: “Eu digo para o meu marido, a gente vai de máscara, a gente vai de luva, mas a gente vai”. Mesmo com trabalho de sobra, Greice alega que está vendendo menos: “Pode ver que meu material fica ali, e até eles buscarem demora. É um dinheiro que não sai”.

A necessidade de isolamento, imposta pelo novo coronavírus, desacelerou a corrida dos grandes centros e escancarou a urgência de se discutir a iniquidade social. “A realidade, ela é muito envolvente, ela não permite que você se acomode ou que você cruze os braços diante dela” destaca Padre Vilson Groh, que acrescenta “a periferia, na verdade, vive sem uma presença de políticas públicas”. 

Frente a tantos problemas, por conta da crise sanitária, o Governo Federal criou o Auxílio Emergencial, uma ferramenta que oferece certa quantia às famílias vulneráveis neste período de incertezas. Porém, a falta de acesso às tecnologias e informações básicas, tornaram esta política de apoio cada vez mais difícil. “Muitas famílias relataram para a gente as dificuldades que elas têm para realizar esse cadastro. Porque eles não têm familiaridade com os aplicativos”, aponta Aline Bittencourt, assistente social que trabalha na Ação Social de Barreiros, entidade filantrópica que atua na comunidade Pedregal, em São José. Outra grande dificuldade relacionada ao auxílio é a demora da análise, tendo em vista que o atendimento é para todo o Brasil. “Meu marido faz três meses que pegou o auxílio. […] Tinha que esperar uma análise que demorou muito tempo pra vir”, relata Greice. 

Engajadas com trabalhos dentro das comunidades, diversas organizações de cunho social também adotaram medidas emergenciais, como a arrecadação de cestas básicas e produtos de higiene e limpeza. No entanto, com o avanço da doença e o agravamento das condições econômicas, notou-se que o assistencialismo tradicional não era o bastante. “A gente começou a notar: [as pessoas] recebiam a cesta básica e levavam para a família. Mas aí não tinham gás, ou não tinham água para cozinhar”, comenta Stefani Ceolla, coordenadora do Instituto Comunitário da Grande Florianópolis, o ICOM. O Instituto, fundado em 2005, realiza um trabalho em rede com ONGs (Organizações não governamentais) comunitárias. Empresas e pessoas investem na instituição, que faz a gestão de um fundo destinado às organizações que estão próximas da comunidade. 

Preocupado com este cenário, o ICOM sentiu a necessidade de promover a independência e a responsabilidade financeira a essas famílias. Assim surgiu a ideia de criar o primeiro banco comunitário de Santa Catarina, inspirado e apoiado na iniciativa do Banco Palmas, de Fortaleza, que foi o primeiro do Brasil. “E no mesmo dia a gente ligou pro Joaquim de Melo, do Banco Palmas […], isso na sexta. Na segunda-feira a gente estava implementando a moeda social”, relata Stefani. Como complementar ao Real, a moeda social surge da necessidade do fortalecimento da economia comunitária. Ela funciona através de um sistema de cooperação, onde a instituição investe os recursos, os comerciantes abraçam o projeto passando a  aceitar a moeda, e as famílias, por sua vez,  são beneficiadas, comprometendo-se a consumir produtos e serviços locais. Lucieni Braun, pedagoga e gerente executiva do IVG, acredita que “investindo na moeda social, você investe no território”.

Além de fomentar a economia, o sistema dos Bancos Comunitários proporciona autonomia às famílias. “É importante dar a opção de divulgação aos comerciantes e prestadores de serviços. Além de dar a opção para as famílias atendidas de adquirirem o que acham que falta em suas casas, sem limitar as doações que lhe seriam dadas”, ressalta Sandro Maro da Silva, morador e comerciante da comunidade Pedregal.

No caso do ICOM, não existe uma moeda física, as operações são feitas através de um aplicativo para smartphones. Nele, cada usuário pode gerenciar os valores em conta e efetuar o pagamento dos produtos e serviços usando a moeda. Pensando nas famílias que não possuem acesso a essa tecnologia, o ICOM também disponibilizou alguns aparelhos para os comerciantes, possibilitando que o morador efetue a compra utilizando apenas o número do seu CPF.

 

Moradora faz compras em supermercado da comunidade da Serrinha com o benefício da moeda social (Foto: ICOM/Divulgação)

Durante este processo de implantação surgiram muitas dúvidas, dentre elas: como selecionar as famílias contempladas? O ICOM definiu alguns critérios básicos para esta escolha como, por exemplo, famílias chefiadas por mulheres, com muitos filhos ou pessoas idosas. As ONGs, parceiras do projeto, se tornaram uma espécie de agência do banco e ficaram responsáveis por fazer esta seleção – já que conhecem melhor a realidade das comunidades em que atuam – e cadastrar os comércios participantes. O processo de implementação do banco comunitário foi feito totalmente online.

A iniciativa, que começou em abril, disponibilizou três parcelas de R$ 200,00 para cada família. A primeira comunidade atendida foi a do Morro da Serrinha, no bairro Trindade, em parceria com a Casa São José, que favoreceu 30 famílias. Em seguida, o projeto se estendeu para a comunidade Chico Mendes, no bairro Monte Cristo, em conjunto com a Associação Revolução dos Baldinhos e a Cooperativa das Mulheres.

Em uma parceria inédita com o ICOM, o Instituto Padre Vilson Groh (IVG) expandiu o projeto. Em maio, foram selecionadas 385 famílias para serem contempladas com a moeda social. Hoje, considerando as duas entidades, 612 famílias devem ser beneficiadas até o fim de novembro. Esta união de esforços levou o projeto para outras três comunidades: Monte Cristo, em parceria com Centro de Educação e Evangelização Popular (CEDEP); Morro do Mocotó, junto à ACAM (Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Morro do Mocotó); e a Comunidade da Praia, em Palhoça.

Inspirado na ideia do ICOM e do IVG, o Instituto José Berkenbrock (IPE), localizado na cidade de São José, vizinha a Florianópolis, lançou o projeto “Rede Comunitária – Vale Social IPE”. Um dos aspectos que diferenciam essa iniciativa das demais, é a ausência de um banco.  “Nós não tínhamos o recurso adequado para montar um banco comunitário, onde pensamos uma via um pouco diferenciada que alcançasse o que o banco oferece”, aponta Alceoni Berkenbrock, diretor-geral da instituição.

Entrega dos “Vales” às famílias das comunidades Pedregal e Vila Boa Esperança, em São José  (Foto: IPE/Divulgação)

O Vale IPE funciona como uma moeda física, que leva o nome do próprio instituto. Cada IPE equivale a R$ 2,00. Em um primeiro momento, o projeto distribuiu 100 Vales para 20 famílias que vivem nas comunidades do Pedregal e Vila Boa Esperança, ambas localizadas em São José. A seleção foi feita através de visitas presenciais, respeitando as orientações de prevenção ao novo coronavírus.

Os recursos para desenvolver o projeto foram levantados por meio de um bingo online, organizado pela equipe do instituto e parceiros. Atualmente, a manutenção do Vale é feita através de bazares e ações entre amigos. Dentre os meios de incentivo à utilização do Vale Social IPE, também estão as campanhas sustentáveis de coleta do óleo de cozinha usado e a separação do material reciclado. O Instituto compra esses resíduos das famílias com o Vale e ainda promove a conscientização ambiental na região.

Agora, com o projeto em prática há mais de três meses, o IPE busca um parecer dos primeiros beneficiados: “Já estamos chamando as famílias, para ver como elas estão se percebendo como autoras dele, e não apenas como objeto de um projeto”, finaliza Alceoni.

“A nossa proposta é que seja gerada mais vida nessas famílias, e não que elas fiquem esperando mais um vale”, afirma Alceoni.

Primeira reunião com os comerciantes que apoiam o “Vale Social IPE”  (Foto: IPE/Divulgação)

As moedas sociais têm dois lados, ao mesmo tempo em que fortalece a comunidade e viabiliza o acesso a bens e serviços, fortalece o comércio local, que em grande parte, também é  de  moradores da região. Uma dessas pessoas é Zilma Ferreira, moradora da Serrinha, em Florianópolis. Proprietária de um mercado há 22 anos, conta que ficou assustada no início da pandemia, e viu no banco comunitário uma oportunidade  de amenizar a situação, “A gente foi afetado de uma forma assustadora. Até que chegou a moeda social que foi a nossa salvação”.

A compreensão da necessidade de envolvimento e de apoio da comunidade na expansão do projeto, também é observado pelas famílias: “Se todo mundo participar, vai ajudar bastante, eles [os comerciantes] vão crescer mais. Vai ter mercado, vai ter ‘lojinha’”, destaca Greice.

Os resultados alcançados pela iniciativa do banco comunitário e da moeda social já são visíveis.  “Foi um vale que veio para mim e para a minha família em uma ótima hora. Foi um R$200,00 que me ajudou bastante dentro de casa”, relata Mariane de Araújo, 31 anos.

Franciane Pires de Morais, 37 anos, e seu marido já estão empregados, no entanto, reconhecem a importância do projeto, “ainda tem muitas famílias carentes que dependem muito desse vale social. Então, por isso, eu acho que devia continuar sim”. Assim, além dos benefícios já citados, as iniciativas despertaram o desejo de cooperação na comunidade e tornaram os moradores capazes de compreender as demandas do lugar onde vivem. 

A efetiva promoção da dignidade através da moeda social ou do banco comunitário, é percebida no dia a dia daqueles que vivem nos morros da Grande Florianópolis e de tantas outras comunidades pelo Brasil. Para Stefani, coordenadora do ICOM, a iniciativa parte do desejo de ultrapassar o conceito de pobreza que está no senso comum e que o associa à falta de oportunidades. Ela destaca que, embora este seja um dos agravantes, as famílias periféricas podem ser agentes capazes de transformar sua própria realidade.

“A gente acredita muito que a própria comunidade tem capacidade de reação”.

Diante dos resultados positivos obtidos até aqui, as instituições planejam ampliar o projeto com novas ferramentas fomentando, ainda mais, a economia local. “Já estamos estudando para 2021 uma linha de microcrédito para pequenos empreendedores das comunidades”, finaliza Lucieni, gerente executiva do IVG.

O primeiro banco comunitário do Brasil

Fundado em 1998 no Conjunto Palmeira, bairro periférico de Fortaleza, no Ceará, o Banco Palmas surgiu em uma das diversas reuniões da associação de moradores daquela época. O grupo, liderado por João Joaquim de Melo Neto Segundo, um ex-seminarista que chegou à comunidade através de trabalhos relacionados à igreja, realizou pesquisas e desenvolveu um mapa de consumo da região, buscando responder à pergunta: “Por que somos pobres?”.

Os resultados mostraram que cerca de 90% de tudo o que era consumido no Conjunto Palmeira vinha de outras regiões, por falta de investimento na economia local. Com o objetivo de resgatar a capacidade produtiva da comunidade, a primeira iniciativa do Banco Palmas foi lançar o “PalmaCard”, um cartão de crédito local, usado apenas em serviços e estabelecimentos do bairro. Para tornar a comunidade independente das grandes empresas, o Banco também lançou uma linha de crédito dedicada à criação de cooperativas locais, produzindo desde materiais de limpeza até roupas e calçados. Nos anos 2000, foi criada  a moeda social “Palmas”, contribuindo ainda mais para o fortalecimento  da economia local.

Não demorou muito para a ideia se espalhar pelo Brasil. Em 2005, já havia três unidades do banco: uma em Paracuru, no Ceará, e mais duas no Espírito Santo. Atualmente, são 118 bancos espalhados por todo o país e, cada qual é responsável pela gestão de sua agência.

Agora, o foco é continuar a expansão pelo Brasil e levar o projeto para outros países. O Banco Palmas busca, ainda, tornar a moeda totalmente digital, trazendo praticidade a quem a utiliza.

 

Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição III, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da Profa. Dra. Melina de la Barrera Ayres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.