O tesouro escondido no cobertor

Abril de 2018. No terminal rodoviário Rita Maria, em Florianópolis, Carlos[1] tomava uma ducha antes de ir para o culto na Igreja Evangélica Livre em Jesus. Depois da pregação do pastor, foi conversar com uma amiga, como sempre fazia. A noite estava especialmente fria, e ele havia perdido seu único cobertor.

Carlos: Taty, posso te pedir uma coisa?

Taty: Claro, fala.

Carlos: Será que tu não conseguia um cobertor pra mim? Acabei perdendo o meu.

Taty: Consigo sim! Me espera que eu passo lá.

Mais tarde, ela apareceu na escadaria do Teatro da Ubro, que faz as vezes de dormitório para Carlos. Entregou o cobertor ao rapaz, sem descer do carro, e foi embora. Para muitos, esta poderia ser uma ação de altruísmo na medida certa para manter a consciência tranquila. Para Taty, não foi suficiente. “Eu entrego um cobertor e vou para casa como se tivesse feito grande coisa? Porque não é”. Então ela fez o que lhe parecia o aceitável: arrecadou fundos na Igreja e alugou um quarto para Carlos. Arcou com as despesas dos novos documentos, já que o extravio dos antigos o fez perder uma oferta de emprego e o colocou na rua. O trabalho na Igreja hoje garante a Carlos um salário mínimo. Mas o coração de Tatyana não havia se aquietado totalmente. Provavelmente nunca se aquietará.

[1] nome fictício para preservação da identidade.

 

Espiral de lembranças

Junho de 2018. A chuva começa a cair, e sorrimos uma à outra por já estarmos do lado de dentro do Instituto – nossos cachos continuaram intactos. Tatyana de Oliveira, 38 anos, me olha e pergunta: “e então, vamos conversar?”. Dividindo um café e um bolo de banana, não preciso de muito tempo para encontrar o fio condutor de suas histórias. Sendo assistente social e cofundadora do Instituto Bem-Viver, uma entidade não-governamental que desde 2007 oferece apoio à mulheres com câncer, seu trabalho e sua vida são completamente voltados ao auxílio dos outros. Para ela é difícil manter a distância profissional tão citada na faculdade de Serviço Social. Taty gosta de se envolver, criar vínculos e ver transformações positivas nas pessoas.

Ela é assim desde sempre, segundo sua mãe. A primogênita de Dona Edinéia era daquelas que nunca reclamavam de ajudar, não levantava a voz nem mesmo na adolescência. A decisão de fazer Serviço Social na Universidade Federal de Santa Catarina viera naturalmente. “Ela perguntou pra mim sobre assistência social, e eu disse que é pra quem tem o coração bom e duro ao mesmo tempo. Que vê as coisas, não sofre e tenta ajudar. E ela foi lá e fez”.

Taty não é do tipo que deixa o trabalho no escritório. Seus expressivos olhos azuis estão sempre atentos às injustiças no mundo, vendo oportunidades de mudar as estruturas, uma pessoa por vez. Em tudo que faz, ela se “joga de cabeça”. Se deixa envolver completamente em todas as emoções e histórias que a cercam. Geralmente, a mão que a segura pela manga e a mantém firme na realidade é a do seu marido, Cristiano. Nas longas noites em que se pega chorando, remoendo alguma cena que viu mais cedo, é ele que a acolhe nos braços e lhe oferece um apoio para sua ânsia de mudança.

Um leve toc-toc na porta interrompe a conversa, e nos coloca de volta no presente. Cristiano entra, com as mãos para trás do corpo.

Cristiano: Oi amor, te trouxe um presente.

Ele estende um potinho de danone e uma colher com um pequeno lacinho roxo. É Activia, porque Taty quer emagrecer um pouco e ele lembrou.

Taty: Ah, Cris, obrigada!

Cristiano: De nada. Depois a gente se fala mais, viu? As coisas tão bem corridas. Vou esperar vocês ali na recepção.

Já são quase 17h e percebo que estamos conversando a mais de duas horas. O restinho de café na caneca já está frio a tempo. Apesar do tic-tac veloz do relógio, não me acelero nas perguntas e a conversa flui novamente.

 

Pote de ouro no fim do arco-íris?

Desconstrução é palavra da vez em alguns grupos sociais e, por vezes, em discussões acadêmicas como as que Taty costumava participar nos idos anos 2000. Com sutileza, ela tenta passar isso para os filhos. Na criação dos dois meninos, procura combater os preconceitos que a sociedade constrói. Cristiano brinca: “todo mundo tem que se desconstruir, menos você, né Taty? Você já nasceu desconstruída”.

Não é só o marido que percebe isso. Há tempos o pai, Hamilton, a alertara: “o mundo não é cor de rosa com bolinhas amarelas que nem você pensa, não”, preocupado com a inocência da filha ao lidar com as pessoas. Mas que o mundo não era perfeito ela já sabia, e muito bem. Isso não a impedia de brincar com as crianças que dormiam na rua de sua Igreja, tantos anos atrás. E de sempre buscar o melhor em cada ser. “Não acho que [as pessoas] sejam más na essência. Se alguém fez algo de ruim, acredito que as circunstâncias levaram ela a isso, e a gente pode tentar resgatar o lado bom. Eu tento”. Algumas vezes essa tentativa não percorre um caminho muito tranquilo, à exemplo da criação do Instituto Bem-Viver.

Depois de perderem o emprego após a falência do Grupo de Apoio à Pessoas com Câncer (GAPC) de São José, Taty e a colega Patrícia se encheram de esperança. Um programa de TV local as contatou dizendo que apoiaria a abertura de uma nova instituição para atender as pessoas antes assistidas no GAPC. Ao chegarem no estúdio, receberam o apoio em uma sacola: liquidificador, ferro de passar, sanduicheira, cafeteira e batedeira. Com 100 reais emprestados da mãe, Taty imprimiu talões e se pôs a vender rifas cujo prêmio eram os brindes do programa. Com o dinheiro arrecadado, pagaram o aluguel da primeira sala onde funcionou o Instituto, pouco maior do que a sala que hoje, 11 anos depois, opera o telemarketing da instituição, que sobrevive das doações recebidas. Taty é diretora da assistência social do Instituto, Patrícia da psicológica. Nenhuma das duas quis saber daquele programa desde então.

 

Debaixo do cobertor: um coração

O telefone toca e nos espantamos pela segunda vez naquela tarde com o avançar do relógio. Ela se apressa para buscar Kaio e Théo na escola Paulo Freire, a algumas quadras dali. Saímos da sala, encontramos Cristiano na recepção e tomamos a rua. A chuva parara – mais uma vez sorrimos e nossos cachos agradeceram. Me dirijo para casa, mas ela é irredutível: “não tem porquê ir sozinha, tem espaço no carro”. Me aperto entre bolas, guarda-chuvas e a cadeirinha de criança. E lá vamos nós.

A entrada da escola se impõe, mas com simplicidade. Sempre foi o sonho da avó ver seus netos estudando onde havia sido professora, e em 2017 o sonho se concretizou. Talvez por isso Taty mostre tão orgulhosa as instalações do lugar; as salas de brincadeiras, o laboratório de culinária, os quartos de soneca. Um grupo de mães também espera seus filhos, e logo acenam e sorriem.

Oi, gurias! Essa é a Mahara, ela é jornalista e está escrevendo uma reportagem sobre mim.

É a primeira vez que alguém me chama de jornalista mesmo, e me acho a tal. As três mulheres sorriem ao mesmo tempo.

Nossa, tá importante!

Moça, se encontrar algum podre dela, nos conta, viu? Que essa aí é uma concha.

Aparentemente, Taty segue o mandamento do Evangelho: não saiba a mão esquerda o que faz a direita. Não há nela a superficialidade e exibição muitas vezes encontrada em pessoas que decidem ‘ajudar o próximo’ para garantir seu pedacinho no céu. Tia Carol já esperava com Théo na portinha da sala, e vejo a Taty mãe entrar em ação pela primeira vez no dia.

taty
Theo mostra à mãe as novidades do dia – o rabinho de leão que ganhara enquanto aprendia sobre os animais, e a folha seca que acabara de achar no chão. Tatyana ouve atenta. Foto: Mahara Aguiar.

 

Depois chega Kaio, descendo as escadas que levam às salas dos mais grandinhos. Seus dedos ainda doem por causa da aula de bateria da manhã, e ele quer contar isso para os pais. Espera paciente pela sua vez, enquanto o irmão pequeno conta sobre o seu dia.

Vendo-a como uma entre tantas outras mães, não é fácil imaginar as emoções e olhares atentos que a preenchem diariamente. Onde outros transeuntes veem apenas uma trouxa de roupas mal-cheirosas, Taty encontra vida e uma história a ser ouvida. Nos seios afetados pelo câncer das mulheres no Instituto, ela encontra corações que batem ansiando por viver. Se Drummond a visse pelas ruas, não demoraria a perceber uma personificação de seu poema: “Enquanto no mundo tem gente pensando que sabe muito, ela apenas sente. Muito.”**

O carro chega em frente à minha casa, me despeço dela, de Cristiano e das crianças, que sorriem e acenam felizes.

 

** Mudança do poema = “eu apenas sinto” para “ela apenas sente”

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