O propósito do pescador

Quando em  companhia de Adnir Antonio Ramos, ouvidos atentos: há muito o que aprender sobre os ciclos da vida

Reportagem de Fernanda Biasoli


Basta um olhar mais atento para perceber como as plantas e os animais se relacionam profundamente com os ciclos naturais, diferentemente de nós, ‘’criaturas racionais’’. Ao longo do tempo, o ser humano parece ter se descolado desses ciclos e criado os seus próprios, de maneira artificial. O ano de 2020 talvez seja a prova mais explícita e recente de que esse afastamento da humanidade com o natural não deu certo. O planeta parece nos forçar a parar e voltar a um estilo de vida menos pré-fabricado. No entanto, para muitos, uma existência em consonância com o planeta e com os tempos naturais não parece possível no ritmo de vida que nos foi estabelecido. Mas há quem tenha esse objetivo como um estilo de vida.

Adnir Antonio Ramos é uma dessas figuras. O manezinho é pescador e observador do mundo, estudioso dos ciclos naturais e pensador de teorias que pregam a reconexão e a sincronicidade do ser humano com o universo e seus vários seres. Nascido em 7 de outubro de 1962, tem para si o propósito de tentar mudar alguns aspectos da sociedade, por meio da união dos seres humanos e natureza.

Não foi em meio à natureza que o conheci. Se vivêssemos em um contexto ideal, minhas conversas com o Adnir provavelmente teriam acontecido em algum cenário natural, vendo com meus próprios olhos essa conexão que o manezinho tanto prega. Mas infelizmente, como a pandemia não nos permite abraços e aproximações, os encontros que tivemos aconteceram de maneira remota. Pelo pequeno enquadramento da webcam, pude perceber que a decoração de sua casa é composta por painéis de inscrições rupestres e outros objetos de pesquisa. Enquanto conversávamos, Adnir ouvia uma música que me parecia um mantra.

Formado em biblioteconomia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), com pós-graduação em Antropologia, ele considera que encontrou a missão de sua vida tardiamente, aos 26 anos. Talvez tenha sido mesmo durante seus 20 e poucos que esse sentido se tornou mais evidente, mas ao ouvir seus causos e histórias, ficou bastante claro que Adnir segue esse caminho desde os primeiros passos.

‘’Em 1962 minha mãe se mudou para onde a gente mora agora. Ela se mudou no dia 18 de janeiro de 1962. Eu acredito que fui fecundado bem aqui onde eu moro agora, nessa região. Quando eu vejo tudo isso, parece que foi uma coisa meio programada, que estava no script eu nascer aqui’’, conta.

Construída em um terreno comprado pelo seu avô, a casa na beira do rio, na Fortaleza da Barra da Lagoa, fez parte do processo de conformação do que Adnir é hoje. Crescer em um lugar de contato tão próximo com a natureza teve forte influência sobre o pescador. Foi ali, em dois momentos pontuais, que teve sua vida transformada pelo ambiente que o rodeava.


O primeiro aconteceu ainda menino, quando iniciou sua trajetória na pescaria. Adnir lembra que tinha uma vontade incontrolável de pular a cerca colocada por seus pais e ir pescar piavinha escondido no rio (nome indígena para peixes de água doce), travessura que chegou a realizar algumas vezes. Mas o que ele queria mesmo era pescar outro animal: ‘’Meu sonho era pescar siri, porque eu via o pessoal pescando siri e eu… Puxa, era apaixonado por aquilo!’’.

Adnir (à esquerda) e seu amigo Rubens José de Oliveira (já falecido) durante pescaria no ano de 1990 (Foto: Arquivo pessoal)

Filho mais velho de onze irmãos, sempre foi encantado pela água e pela pesca: ‘’Eu era um peixe!’’, recorda. Porém, foi aos seis anos que se iniciou no mundo da pescaria. Foi nessa idade que ganhou o primeiro Jereré (instrumento de pesca para crustáceos, como siris e peixes miúdos), que além de facilitar a tarefa, vinha com a mensagem implícita de que agora estava autorizado a pescar. Quem deu o presente foi seu pai, que ao puxar a rede mais cedo, percebeu o aparelho preso junto aos peixes. Algum outro pescador distraído devia ter esquecido por ali. Sorte do Adnir. No mesmo dia, o então menino correu para a beira do rio e conseguiu pegar o primeiro siri! E o Jereré ainda por cima veio presenteado… com cocô de cavalo. Não deu para aproveitar o animal pescado, mas isso nem importou. ‘’Acho que esse foi o dia mais feliz da minha vida’’.

Adnir na Pedra do Frade em 1991 (Foto: Arquivo pessoal)

O outro momento transformador ocorreu quando, aos 26 anos, descobriu, também em seu quintal, um conjunto de pedras que pareciam ter sido calculadamente sobrepostas e alinhadas com os movimentos solares e estelares. ‘’Naquele momento, parei na pedra e o Sol começou a viajar. Eu fiquei parado e o Sol começou a fazer a dança dele no horizonte’’. Essa dança é hoje um dos principais objetos de pesquisa de Adnir. Há mais de trinta anos ele se aprofunda na Arqueoastronomia, campo que investiga como povos antigos interpretavam o céu por meio de monumentos arqueoastronômicos (pedras como as encontradas por Adnir em seu quintal). Ele foi um dos precursores destes registros no estado de Santa Catarina. 

Alinhamento de solstício de inverno em um monumento arqueoastronômico localizado na Praia Mole, registro de Adnir no ano de 1989 (Foto: Arquivo pessoal)
Adnir no Cálice do Morro da Galheta em 1993 (Foto: Arquivo pessoal)

Grande observador, Adnir lembra que desde pequeno tinha curiosidade sobre essas pedras espalhadas pelo litoral da ilha. ‘’Quando criança, eu ia para a praia e via uma pedra aqui no morro que hoje a gente chama de Menir Central. Do lado do caminho para a Galheta ela fica bem visível. E lembro que eu ficava olhando para ela e ficava muito intrigado com como essa pedra foi parar lá. Parecia que ela queria falar comigo, mas eu não tinha a mínima noção do que ela poderia ser’’. Demorou alguns anos, mas no fim das contas o pescador conseguiu ouvir o que as pedras tinham para contar. 

Adnir durante pesquisa arqueoastronômica no Costão do Santinho em novembro de 1993 (Foto: Arquivo pessoal)

E saber ouvir é uma das mais fortes características de Adnir, principalmente quando a voz vem de dentro. ‘’Eu sinto que o Adnir é uma pessoa que traz muito essa percepção de que você deve seguir o seu mestre interior. Ele é uma pessoa muito intuitiva, que escuta o coração dele e eu acho que é isso que nos inspira tanto, sabe?’’, conta Jennifer Janine Avi, terapeuta natural e companheira de pesquisas arqueoastronômicas de Adnir. ‘’Acho que talvez por isso sinto tanta admiração, de ver que ele confia tanto nos processos dele, nos ciclos dele, nessas percepções que ele tem a partir de uma verdade que brota do seu próprio coração. É isso que ele passa, para confiarmos nos nossos sentires’’, finaliza a terapeuta. 

Adnir (primeiro à esquerda) em pesquisa no Costão da Barra da Lagoa com o arqueoastrônomo Manoel dela Torre e o astrônomo Alexandre Amorim, em registro mais recente de 2014 (Foto: Arquivo pessoal)

Foi num desses sentires intuitivos que Adnir elaborou uma de suas principais teorias: a do ‘’Ciclo da fertilidade’’. Para ele, uma das consequências do afastamento da humanidade dos ciclos naturais é que nós não respeitamos os momentos mais apropriados para a reprodução. De acordo com o ciclo da fertilidade, a mulher deveria ser fecundada na metade do verão, para que a criança venha a nascer na metade da primavera. Adnir explica: ‘’Por que? Porque ela vai ter uma gestação super saudável! A mulher vai passar o inverno inteiro gestando. Quando começa a esquentar, que ela começa a sentir o efeito do calor, a criança vai começar a sentir o efeito também e aí está na hora de nascer a criança. Então vão nascer crianças menos ansiosas. Imagina você no ventre da sua mãe. A temperatura já é alta dentro do útero, imagina mais uns 30 graus. É um estresse para a mãe que vai passar para o filho. É um estresse para a criança. Ela vai estar louca para nascer, a mãe vai estar louca para que a criança nasça. Então já nascem crianças estressadas, ansiosas’’.

Antropólogo, Adnir encontra respaldo para sua teoria em estudos de datas culturalmente comemorativas tradicionais, como o Natal e o Carnaval e também em importantes passagens bíblicas. Para ilustrar, a comemoração do Natal no dia 25 de dezembro é, em sua essência real, uma festa de comemoração do solstício de inverno no hemisfério norte. ‘’Por que a festa de solstício de inverno é uma festa celebrada pela mulher e ela faz o quê? Ela prepara uma janta para receber os seus parentes. Seus parentes vão trazer o que? Vão trazer presentes. Para quem? Para a criança. Que criança? A criança que está no ventre dela, entendeu? Que é aquela simbologia de Jesus Cristo. Todo mundo foi levar presente para Jesus Cristo’’, explica Adnir. E não para por aí: ‘’O próprio Cristo nasceu no dia 6 de abril no hemisfério Norte, quando é metade da primavera lá’’, finaliza.

Mas a vida sincrônica de Adnir não se resume a observações e teorias. Como diria Dorival Caymmi: ‘’o pescador tem dois amor… Um bem na terra, um bem no mar’’. E o amor terrestre desse pescador tem nome e sobrenome: Tereza Stachelski. Juntos há dez anos, Adnir define o encontro do casal como uma ‘’coisa de louco!’’. Depois de trocar mensagens por e-mail durante aproximadamente um mês, Terezinha (como prefere ser chamada), que é natural do Paraná, veio para Florianópolis e os dois tiveram o seu primeiro encontro. ’’Conhecer um ao outro foi um reencontro de outras vidas’’, define a paranaense.

Adnir e sua esposa, Terezinha (Foto: Arquivo pessoal)

Determinada a encontrar um parceiro ideal com quem pudesse se casar até o dia 31 de dezembro de 2010, Terezinha conta que o encontro desta vida com Adnir foi algo fabuloso. ‘’Você tem que determinar para sua vida aquilo que você quer, da forma que você quer. Se você coloca para o universo e cria em espírito, você recebe. E isso realmente acontece. Não é a primeira vez, não é a primeira coisa, mas umas das bem extraordinárias foi encontrar esse ser amoroso que é o Adnir na minha vida’’. 

Adnir a recebeu com chás e beijos em sua casa, depois de ter perguntado aos monumentos megalíticos se a relação com Terezinha poderia vir a se tornar algo mais sério. Ser intuitivo, ouviu o universo, arriscou que sim e terminou por acertar. Era para ser. ’’Até algumas cicatrizes em nossos corpos são nos mesmos lugares’’, conta Terezinha.

Adnir e Terezinha no dólmen ‘’O pensador’’, no Morro da Galheta (Foto: Arquivo pessoal)

Difícil colocar em algumas páginas a complexa figura de Adnir Antonio Ramos. O manezinho é uma pessoa perfeita para se encontrar em uma mesa de bar. Quando em sua companhia, ouvidos atentos. Sempre tem uma história boa para contar. Professor da vida, em poucas palavras parece modificar alguma coisa dentro de cada um que encontra. A partir de suas teorias, espalha por aí a sementinha da dúvida: ‘’e não é que pode ser isso mesmo?’’. E com calma, Adnir segue trilhando seu caminho de reconexão com os ciclos naturais. Ao seu lado, caminham juntos cada vez mais adeptos à esse estilo de vida mais sincrônico e intuitivo.  Assim o pescador vai cumprindo seu propósito.

Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição III, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da Profa. Dra. Melina de la Barrera Ayres.

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