“O primeiro caso de preconceito que acontece é sempre com você mesmo”

Texto: Bruna Ritscher (brunaritscher@gmail.com)

“A maioria das pessoas quando começa a se descobrir gay, começa a ter preconceito consigo mesmo por saber que é ‘errado’, se martiriza por isso, é um caso que acontece dentro de você e você tem medo daquilo. Eu tinha vergonha de mim mesmo, eu tinha 12 anos e pensava nessas coisas e me sentia um lixo, um demônio. Eu tinha muitos amigos evangélicos e como eu sempre tive o ‘jeito de gay’ eles sempre falavam: ‘Tu sabe o que acontece com pessoas que são assim? Tu sabe o que acontece com a alma dessas pessoas? Elas ficam queimando eternamente no mar de fogo do inferno’. Eu tinha que ouvir isso direto e eu me sentia um lixo por saber que eu era assim. Resumindo: o primeiro caso de preconceito que acontece é sempre com você mesmo.”

Fernando* é estudante da UFSC, é gay e passou recentemente por um caso de homofobia em uma festa na cidade de Jaraguá do Sul. Ele conta que estava no lugar reservado para as universidades que participavam da festa quando ele e um menino começaram a se beijar: “do nosso lado tinha um casal de meninas se beijando também e um outro casal de meninos”. Foi quando, segundo eles, dois seguranças chegaram e separaram os dois a força e os conduziram até a saída. “Eles passaram a impressão de que se eu voltasse iriam me bater, fiquei desesperado e fui lá pra fora.” Houve uma grande comoção por parte dos amigos dos rapazes que estavam lá e os integrantes da banda foram avisados pela plateia, chamaram os rapazes de volta pra festa e pediram pra que eles subissem ao palco e se beijassem para todo mundo ver.

De lá pra cá o que aconteceu? O que mudou pra você?

Depois daquilo começou uma repercussão enorme na imprensa, eu não imaginava que aconteceria isso. A mídia fez muito alarde e fez uma cobertura ridícula e superficial sobre o caso e eu vi muitos comentários negativos na internet, coisas que me deixaram muito triste. Depois daquele dia minha vida virou um pequeno inferno, meus pais ficaram super preocupados, minha família queria me tirar da universidade e me levar pra perto deles na minha cidade. Eles tinham medo que a empresa de segurança viesse atrás da gente por causa do boletim de ocorrência que registramos no dia seguinte à festa. No fim, resolvemos não levar o processo jurídico pra frente em respeito às nossas famílias porque ambas já estavam muito preocupadas. Também porque a gente já tinha ouvido deles muita coisa que a gente não queria, agora queremos só esquecer que isso aconteceu. Até hoje as pessoas da minha cidade ainda vêm me perguntar se era eu e tal. Eu não tenho mais vontade de voltar pra lá por saber as coisas que eles disseram. Eu não imaginava que fosse sofrer esse tipo de preconceito algum dia.

Como você se sentiu depois?

Antes de acontecer isso eu não acreditava em preconceito e homofobia, você nunca acha que vai acontecer com você. As pessoas que te conhecem e convivem contigo sabem que você não é má pessoa por ser gay, isso não vai vir dos seus amigos, mas naquele momento eu era só mais um no meio de tantos.

Você se arrependeu de ter subido no palco?

Eu não pensei no que eu fiz, se fosse hoje eu não faria de novo. Era minha vida que estava ali e eu me expus demais, talvez tivessem outras pessoas na plateia que poderiam não gostar. O público teve uma reação muito positiva, aplaudiram e tudo, mas se não tivesse sido assim, eu poderia ter sido agredido e tal, graças a Deus não aconteceu nada.

Casos como esse não são raros, Jorge* também passou por situação semelhante. Ele conta que em uma madrugada pegou um táxi em Florianópolis, próximo à Universidade Federal e, quase foi agredido pelo taxista. “Ele já tinha feito cara feia quando eu entrei no carro e falei com ele. Quando parou na frente da minha casa eu percebi que faltava dois reais para completar o valor da corrida, porque eu tinha esquecido que havia gastado dinheiro na rua”. Jorge conta que quando começou a dizer que subiria para buscar o dinheiro que faltava, o taxista saiu do carro batendo a porta e começou a gritar dizendo que conhecia bem o “tipinho” de Jorge e que não gostava de gente assim. “Ele me puxou pelo braço e me levou até o portão do meu prédio à força. Foi me xingando e falando um monte de coisas.”

Como você agiu na hora?

É um ataque tão gratuito que você não consegue nem se defender, nem pensa direito para reagir porque não consegue superar o choque do que está acontecendo. Ele foi me puxando e, só quando eu estava bem perto do portão eu consegui clarear a mente, virei pra ele e disse algo como “tira a mão de mim, eu não te devo nada, eu tenho o dinheiro, só vou subir para pegar”. Nisso ele disse que não precisava do meu dinheiro e que era pra eu olhar bem pro carro dele e lembrar muito bem que “gente como eu” não entraria mais ali. Eu estava com um medo enorme de apanhar, o homem era muito maior que eu. Ainda bem que ele me soltou e foi embora.

Você se queixou para a ouvidoria da prefeitura?

Sim. Eu me queixei e recebi uma resposta por e-mail que acho que é meio padrão deles, foi tipo “ele foi localizado e serão tomadas as devidas providências”. Na mesma semana, uns dias depois meu porteiro me disse que um taxista havia passado na guarita e tinha dito que uma pessoa havia descido naquele prédio sem pagar e que ele ia voltar para cobrar. O porteiro disse que ele estava fazendo a maior confusão daí o zelador o ameaçou e ele foi embora.

Nem todos têm a mesma sorte que Fernando e Jorge de não passar por agressões físicas, a história de Luiz*, por exemplo, é bem diferente. Era final de 2012 e ele tinha 15 anos, estava com duas amigas à noite atravessando uma avenida movimentada na cidade de São José quando um carro parou na sinaleira e as pessoas que estavam dentro começaram a gritar “veado” para ele, que abraçou as amigas de brincadeira em resposta à ofensa. “Eram quatro caras dentro do carro, eles desceram e me bateram no meio da rua. Minhas amigas gritaram pedindo ajuda, tinha bastante gente na rua, umas trinta pessoas, mas ninguém se deu ao trabalho de fazer nada, ficou todo mundo olhando, ninguém nem anotou a placa do carro. ”

O que aconteceu depois?

Eu falei pra minha mãe, fomos ao hospital e à delegacia fazer um boletim de ocorrência. Eu não levei adiante para não repercutir muito pra minha família. Eu tinha 15 anos e na época só quem sabia que eu era gay éramos eu, minha mãe e uns poucos amigos. Resolvi não fazer alarde para não ter de contar para a minha família e para que eles não ficassem preocupados. Tenho um dente quebrado até hoje por causa do incidente.

Como você se sentiu?

Eu não estava me sentindo mal, na verdade. Eu não acho certo, óbvio, mas eu sei que acontece. No fim, eu meio que naturalizei isso, agi como se fosse normal, natural, e isso acontece com a maioria dos gays. O certo seria que isso não acontecesse, que não víssemos isso como algo “normal” porque não deveria ser.

*Os nomes dos entrevistados foram alterados para manter a privacidade dos mesmos.

Em 17 de maio de 1990, a assembléia geral da Organização Mundial da Saúde aprovou a retirada do código 302.0 (Homossexualidade) da Classificação Internacional de Doenças, declarando que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. Maio é o mês do combate à homofobia, lesbofobia, transfobia e bifobia, e para conhecer a realidade da população LGBT de Florianópolis e Santa Catarina, a equipe do Cotidiano UFSC preparou três reportagens sobre o tema. Essa é a segunda reportagem, a primeira você acessa clicando aqui.

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