Mulheres que optaram por não ter filhos

Texto e arte: Bruna Andrade (brunandrade92@gmail.com)

Desde os tempos primitivos, um dos papéis da mulher é procriar. Entretanto, com o passar dos séculos e as conquistas sociais femininas, desponta um novo comportamento: solteiras e casadas que decidem não ter filhos. Nos Estados Unidos, a geração é conhecida como NoMo – No Mother, em uma tradução literal ‘Não Mãe’ – mas as adeptas estão pelo mundo todo.

A quebra de tabus sociais, as dificuldades econômicas e alto custo para criar uma criança hoje em dia são alguns dos fatores que podem levar as mulheres a tomarem essa decisão. No caso da recém aposentada Cristina Tiiscoski, 51 anos, a história de vida também pesou: “Eu na verdade nunca quis ter filhos, mesmo antes de pensar em casar, não foi uma decisão após casamento. Talvez por ter uma infância muito difícil, com muitas dificuldades”. Hoje Cristina sente que pode aproveitar a vida tranquilamente, “faço as coisas quando e na hora que quero, é muito bom.”

Com as conquistas femininas, como a independência econômica e inserção no mercado de trabalho, muitas mulheres focam na carreira e não vêem como se dedicar a um filho. É o caso da atriz Cameron Diaz, 42 anos, que alega ser uma responsabilidade muito grande ter alguém que depende de você por 18 anos. “Eu tenho uma vida tão mais fácil sem filhos. Não significa que às vezes não seja difiícil. É apenas como eu sou, eu trabalho no que eu sou”, revelou a atriz à revista Esquire, declarando que não foi uma escolha fácil, mas hoje não se preocupa mais com a questão.

Ao longo de toda história, sempre houve mulheres que não desempenhavam o papel de mãe,  seja por infertilidade ou por se dedicarem a vida religiosa. A antropóloga Miriam Grossi aponta que a diferença no século XXI é que, mesmo casada e com a possibilidade de gerar, ela faz essa escolha porque a maternidade não é seu lugar de reconhecimento. “A filiação deixou de ser o sentido da femilidade, algo que está ligado as conquistas recentes feministas”, explica Grossi, e “os filhos passam a fazer parte de um projeto individualista do sujeito”.

Ainda assim, existe uma pressão social para que se exerça a maternidade. A atriz Jennifer Aniston, 45 anos, sabe bem disso. Ela é frequentemente questionada sobre quando irá casar e ter filhos, são constantes as  revistas de fofoca anunciando sua gravidez. Aniston já declarou que um filho ainda não está em seus planos. Em entrevista ao programa de TV norte-americano Today Show há dois meses ela contou que não acredita que a falta da maternidade e casamento diminuem o valor dela como mulher. “Eu dei vida a muitas coisas e me sinto mãe de várias delas. Eu não acho que seja justo colocar toda essa pressão nas pessoas.”

Cristina também sentiu essa pressão, mas procurou não dar importância para o pensamento alheio. “Minha sogra cobrou um pouco, mas sem chance. Meu marido no começo do nosso casamento até queria filhos, mas sempre me apoio e aceitou sem nunca me cobrar nada”. Segundo Grossi, a cobrança para que a mulher seja mãe depende do lugar social dela, sendo fatores importante, por exemplo, a classe social e o contexto cultural. “Nas camadas populares, a gravidez na adolescência é vista como indesejada, porém nas classes mais altas pode ser vista como um meio da mulher encontrar seu lugar no mundo”, conta a antropóloga.

O discurso está ligado ao momento social, em que mulher percebe cada vez mais que pode tomar as decisões sobre o seu próprio corpo. Grossi afirma que a decisão de não ter filhos não é definitiva. “A idade está ligada a esta decisão. A mulher pensa que é uma escolha pessoal, mas é muitas vezes o momento social que ela está vivendo”. Como o relógio biológico também deixa de ser quem dita a hora da maternidade, a inseminação artificial e adoção são opções para as mães tardias.

 

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