Conheça Milton Cavalazzi, que coleciona santinhos há mais de 30 anos

Texto: Amanda Ribeiro

Fotos: Luiz Fernando Menezes

“Olha esse! Esse foi governador do estado. Faz trinta anos já, acredita? Hoje ele já tá bem velhinho”, diz Milton Cavalazzi, com os olhos perdidos nas páginas amareladas do álbum de fotos que não são suas, mas que ajudaram a construir sua história. Há 32 anos, o funcionário aposentado do Sesi e ex-jogador do Avaí coleciona santinhos, os panfletos distribuídos por candidatos na época das eleições. Cada um dos álbuns que vão se empilhando dentro das caixas de papelão da sala de estar ajudam Cavalazzi, de uma maneira quase paternal, a juntar as partes e construir a história de seu país.

A coleção começou em 1982, como uma brincadeira de alguém que sempre amou juntar coisas. Poucos anos depois de ter abandonado o futebol, Cavalazzi aproveitou o período eleitoral e começou a colecionar os santinhos que encontrava jogados na rua. Para completar a coleção, contou com a ajuda de um de seus amigos da Justiça Eleitoral, que separou a lista dos candidatos. Hoje, 32 anos e 16 álbuns estão meticulosamente organizados em caixas de papelão, que ele só não guarda dentro de casa porque o espaço não permite. Na verdade, sua justificativa é outra: “A gente começou a ouvir umas vozes aqui dentro de casa, e as crianças estavam ficando com medo. Depois de procurar muito, fomos descobrir que eram os álbuns; você sabe, morreu muita gente ali. Então, para evitar esses problemas, decidimos colocar as caixas lá fora”.

As crianças, aliás, são as principais fornecedoras de santinhos para a coleção do aposentado. Sentados no chão da sala de estar, onde os brinquedos estão acolhedoramente espalhados pelo chão, os netos de 2, 4 e 8 anos brincam. No entanto, ao verem o avô trazendo as coisas para a sala de estar, abandonam suas atividades e vão mostrar a coleção que ajudaram a criar. “Esse é o meu assistente, meu sócio”, brinca ele, abraçando o neto Eduardo. Conta então sobre as excursões dos dois, onde coletam qualquer santinho que esteja na rua e seja interessante o bastante para atrair a atenção do menino. O resultado desses passeios são pequenos álbuns coloridos, onde as figuras sorridentes dos candidatos te encaram meio tortas, mais pela falta de coordenação da criança do que pela real intenção. Isso supera os carrinhos, os bonecos e praticamente qualquer outra distração.

Cavalazzi lamenta, no entanto, que quando os netos crescerem deixarão de participar da brincadeira: Pedro, de 8 anos, já está abandonando os álbuns do avô pelos jogos de celular e as eventuais namoradinhas. “Ele não está mais nem aí para as coisas que a gente colecionava antes”. Quando recebo o convite para entrar no quarto onde as coleções estão guardadas, no entanto, não há evidências de celulares ou garotinhas: Pedro parece entretido com os bonecos do avô, e tão fascinado quanto um garoto poderia ser por uma coleção que tem praticamente tudo que é colecionável. E o que não é colecionável também.

A verdade é que o amor de Cavalazzi não se resume a santinhos: a lista é muito mais extensa, e passa por itens exóticos, como papéis de bala e etiquetas de roupa. O que não cabe nas paredes está no armário; no canto, o site Mercado Livre está aberto no computador, pronto para eventuais aquisições. Pedro, ao ver que tinha visita, nem espera o avô pedir: já pega a escada e, ligeiro, vai  descendo as coleções que a altura impede o avô de alcançar. Os álbuns estão em ordem, e etiquetas impressas marcam informações importantes sobre os dados da coleção. A cada álbum tirado do armário, a advertência de Cavalazzi se renova: “Cuidado com isso. Segura com as duas mãos para não quebrar”. Enquanto as mãos ágeis de Pedro vão descendo as coisas empilhadas no armário, os olhos do avô vão se acendendo: aqueles são tesouros de uma vida toda.

Talvez tesouro seja mesmo a palavra correta: a coleção de Cavalazzi tem um preço inestimável. Mas ele não se preocupa com isso: a última coisa que quer é vender qualquer item, ainda que repetido. Alguns dos que sobram ele guarda para os netos; se os netos já têm, ele mantém para si, em caso de algum acidente. Os excessos vão saindo da casa, cruzando o quintal e se empilhando em um quartinho lá fora. Pela janela, ele me mostra o número de caixas crescendo. Aquilo o incomoda mais do que qualquer pessoa diferente dele poderia entender: separar a coleção é desmembrar as partes de sua história.

As coleções começaram cedo: quando jogava pelo Avaí, Cavalazzi já juntava selos. Solteiro, e possuído por aquele espírito que os jovens têm de não se preocupar com o futuro, o maior artilheiro vivo da história do Avaí, com 208 gols, não hesitava em gastar todo o seu dinheiro com a coleção. Anos mais tarde, quando o salário atrasado do futebol o impediu de atender às contas, teve que abandonar o campo, entrou no Sesi e lá se afundou no trabalho para não se afundar nas dívidas. Apesar disso, as coleções continuaram; com ou sem dinheiro, novas aquisições eram sempre bem vindas. O aposentado segura o riso ao falar sobre o dia em que chegou em casa com uma caixa mofada, cheia de estampas de Eucalol, um sabonete dos anos 50. Quando sua mulher lhe perguntou o que era aquilo, contou que comprara tudo por dois mil reais de um comerciante do centro. Justificativa? “Eram muito bonitas; não resisti”.

Mas não adianta: durante as eleições, não há nada que tire o foco de Cavalazzi dos santinhos. Ele reclama que o fato de os cabos eleitorais estarem proibidos de jogar os santinhos na rua está dificultando completar o álbum. Por enquanto, metade da coleção está pronta, e os candidatos sorridentes estão um do lado do outro em um álbum meticulosamente ordenado. Ele se diverte com os que têm os nomes mais engraçados, como Jesus Cristo e José Dugás, e faz seus palpites sobre quem vai ser eleito. Quando perguntado se vai votar, dá de ombros, pensativo. “Eu acho que sim, né? Ninguém anda merecendo, mas se eu não votar depois não posso reclamar”.

A verdade é que ele está decepcionado com a política. Está decepcionado com os seus candidatos, que não decidem de qual lado estão. “Antes era mais fácil: a gente sabia de que lado eles estavam. Hoje os inimigos estão todos do mesmo lado, eu não consigo entender isso”. Está decepcionado porque os seus candidatos sorridentes não lhe representam da maneira que ele gostaria que representassem. Com mais de 70 anos, o aposentado ainda não sabe se vai votar ou se vai deixar para lá de vez. Mas uma coisa é fato: não vai abandonar a coleção. E é bem possível que, se decidir andar pelas ruas na noite anterior às eleições, quando os panfletos cheios de promessas estão espalhados por todos os lados, você vá encontrá-lo por aí, pegando o último santinho que falta para completar sua coleção e levando para casa mais um ano e mais um álbum que conta uma parte da nossa história.

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