Historiador da UFSC ajuda Chico Buarque a encontrar irmão desaparecido na Alemanha

Texto: Lucas Amarildo (lucasamarildosouza@gmail.com)

Um dos mais célebres músicos brasileiros, Chico Buarque é também poeta, dramaturgo e escritor. Seu dom com as palavras o levaram a escrever sete livros. O mais recente deles, O Irmão Alemão, conta a história de Sergio Günther, meio-irmão do artista brasileiro. Chico descobriu sobre a existência deste parente aos 22 anos. Na ocasião, soube que seu pai, Sergio Buarque de Holanda teve um filho quando morou em Berlim, entre 1929 e 1930.
Para descobrir mais informações sobre o paradeiro de Günther, o artista brasileiro contou com a ajuda do professor de história da UFSC, João Klug, que na época fazia pós doutorado em Berlim.

Chico Buarque começou a escrever o livro em março de 2013 e finalizou 18 meses depois. O principal desejo era saber sobre o destino do irmão, especialmente se ele havia morrido em algum campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Durante as buscas nos arquivos da família, Chico descobriu uma carta trocada entre seu pai e autoridades alemãs. Na época, os nazistas ocupavam o poder e queriam se certificar de que a criança, que estava sob a guarda do Estado, não tinha antepassados judeus, a fim de liberá-la para adoção.

Como as cartas eram as únicas pistas sobre Günther, a editora Companhia das Letras entrou em contato com o historiador da Unicamp, Sidney Chalhoub, para empreender uma pesquisa sobre a vida do irmão de Chico. Pouco familiarizado com a cultura alemã, Chalhoub consultou o colega de profissão e professor da UFSC, João Klug. “Minha vontade de encarar a investigação era zero. O pouco tempo que tinha reservado para meu pós-doutorado tornava quase impossível me dedicar a outro projeto. Mas resolvi tentar algumas descobertas com as pistas que Chalhoub havia me entregado e consegui ótimos resultados.”

Na Alemanha, João Klug pediu ajuda ao amigo e museólogo Dieter Lange. Especialista neste tipo de buscas, foi de grande importância para chegar às respostas que Chico Buarque tanto queria. A mulher com quem o pai do artista teve um romance, em 1930, era atriz de cabaré. Sergio Günther só descobriu alguma informação sobre seu pai biológico aos 22 anos, mas tudo era vago. O jovem acreditava ser filho de um diplomata de um país latino-americano. Com a comunicação dificultada pelo contexto de guerras e restrições governamentais, Gunter nunca obteve mais detalhes sobre seu pai.

As descobertas foram enviadas a Chico Buarque, pela editora de seu livro. Na semana seguinte, o artista fez contato com o professor João Klug, entusiasmado e disposto a acompanhar de perto as buscas por seu irmão. “Reservei três semanas para me dedicar somente a isto. Primeiro rastreamos informações do pai, do irmão e ainda conseguimos encontrar a cunhada e a sobrinha-neta do Chico. Promovi o encontro entre eles e fiquei de papagaio de pirata, traduzindo tudo que elas diziam.”, contou Klug.

O irmão de Chico Buarque foi uma figura exponencial dentro da estrutura artística da Alemanha Oriental. Entrou para o coral do exército aos 16 anos e a partir daí construiu carreira solo como cantor e apresentador de TV. Em um dos programas, chamado Berlin bleibt Berlin [Berlim permanece Berlim], Gunter saía pelas ruas fazendo entrevistas com o objetivo de mostrar como tudo funcionava bem na Alemanha Oriental. Algumas imagens desta época estão guardadas nos rolos de filme da TV estatal alemã, arquivos resgatados e analisados por Chico Buarque.

João Klug comenta que o momento mais inesperado da investigação foi uma tarde de sexta-feira, quando ele e o amigo Dieter foram a um bar, frequentado por uma velha guarda da Alemanha Oriental. “Naquele dia encontramos dois jornalistas, Werner Reinhardt e Manfred. Lancei ao acaso a pergunta: “alguém de vocês conhece um tal de Sergio Günther? No ato, o Werner afirmou que sim, “ele foi muito meu amigo”. Então a coisa se abriu no momento dessa descoberta quase que por acaso.” Werner foi um dos grandes achados de João Klug. O jornalista trabalhou com Günther por muito tempo e forneceu várias informações.

Nas investigações também foram localizadas informações sobre o final da vida de Sergio Günther. O irmão de Chico Buarque foi acometido de um câncer de pulmão e internado no hospital de Berlim. Os historiadores encontraram o médico que o tratou até sua morte, em 1981. O falecimento precoce, aos 53 anos, foi noticiado em alguns jornais, que faziam menção à perda de um ícone. No romance, Chico fala de seu irmão perdido e encontrado. E transparece a alegria de tê-lo conhecido, mesmo que por imagens de arquivo.

“Após a publicação do livro, muitos tem me perguntado sobre esta aventura e concluído apressadamente que sou um especialista em histórias de família ou detetive. Sempre rio quando dizem isso. A história que vivi foi um mero acaso. Um acaso bem-sucedido. Entre tantas surpresas que tive, uma das melhores foi ter conhecido Chico Buarque. De um Chico como artista distante, agora tenho um Chico amigo próximo”, conclui João Klug.

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