Guiada pelos astros

Ivarne Maria Mendel,  a professora que se encontrou na astrologia 

Reportagem por Júlia Venâncio

Eram  4:30h  de uma segunda-feira quando Ivarne Maria Mendel nasceu na cama dos seus pais, pelas mãos de sua avó, na madrugada de quatro de setembro de 1961. Nesse dia, o céu em Tupandi, Rio Grande do Sul, estava com a constelação solar no signo de virgem, ascendente em leão e a lua em câncer.

60 anos se passaram e eu conheci Ivarne em janeiro de 2022. Nosso primeiro encontro foi virtual, através de uma chamada pelo Google Meet, onde me explicou os conceitos básicos da astrologia enquanto uma música suave tocava ao fundo. “A astrologia estuda como que os movimentos dos astros mexem com o comportamento da terra e de todos os seres vivos.  O que os planetas me inspiram e me emitem energeticamente.  Estuda como que  isso vai mexer com a minha atitude. A astrologia é uma ciência antiga”. 

Nesse mesmo dia ela fez a leitura do meu mapa astral. Apesar das telas que nos separavam, foi possível sentir a paz e a leveza com que era guiada naquele instante. Em um primeiro momento, me pediu que fechasse os olhos e apenas respirasse.  Ao fundo, era possível ouvir melodias de meditação, eu ia sendo guiada através das suas palavras para um lugar de paz. Foram duas horas e meia de um profundo autoconhecimento no campo da Astrologia e do entendimento da sua figura como astróloga. 

Quando perguntei o que é um mapa astral – ou mapa natal – me explicou que é como se fosse uma carta que o universo escreve sobre os aspectos da nossa vida sem interferências de alguém externo. Assim, a carta que o universo escreveu para Ivarne afirma que, com o seu sol em virgem, ela é uma pessoa metódica e analista.  “Sou uma virginiana. Isso quer dizer que eu estudo as coisas antes de falar, tenho que pegar a caneta e sublinhar tudo que leio”. 

Com o seu ascendente em leão, tem personalidade forte e generosa. Já sua lua em câncer diz que é uma pessoa pacífica, emotiva e que preza por cuidar da sua família em primeiro lugar. “A minha vida se resumiu em viajar para visitar a família a 700 km de distância. A minha lua em câncer me pedia isso. Me sinto chamada para cuidar e a minha base emocional é a minha família”. 

 Entretanto, antes de se tornar “estudante de astrologia”- como gosta de ser chamada – dedicava a sua vida à educação. Formada em Pedagogia,  queria ser professora desde os sete anos de idade. “Eu era pequena e sabia o que eu queria ser. Eu queria ser professora”.  

 A trajetória até se tornar educadora e atingir o seu sonho foi longa. Nascida no interior do Rio Grande do Sul, viveu grande parte da sua infância em Itá, oeste de Santa Catarina. Filha mais velha de mãe professora e pai alfaiate, teve sua infância baseada nos valores da educação. “Meu pai sempre gostou muito de ler”. Ele foi seu grande incentivador, ele defendia que “para ser alguma coisa na vida teria que estudar”. 

 Em 1982, viajou para Chapecó para realizar a prova de vestibular para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Algumas semanas depois, quando estava em viagem à passeio em Florianópolis, viu o resultado da prova.  “Estava indo à praia com uma amiga e vi um jornaleiro. Perguntei se ele tinha o jornal que havia saído o resultado da UFSC da semana anterior. Entrei no ônibus e primeiro olhei o resultado dos meus amigos. Depois olhei o de pedagogia para ver se eu entrei e estava lá o meu nome. Foi uma grande surpresa. Fiquei muito feliz”.

 A primeira coisa que fez ao chegar na praia naquele dia foi ir até um orelhão e telefonar para o seu pai. Com origens de uma família humilde e tendo sempre que se sustentar através do trabalho para conquistar o que desejava, estava preocupada em como iria morar sozinha em uma cidade até então desconhecida. “Falei: pois é, pai.  Eu passei o que eu faço? Vou estudar não ou não vou? E ele respondeu: claro que vai, vai estudar. Mas tu sabe que a gente não tem condições de mandar dinheiro para ti.  Eu disse que sabia, ia procurar um emprego e realizar o meu sonho”. 

 Ser aprovada, aos 21 anos, em uma universidade a 700 km de casa foi um grande divisor de águas em sua vida. “Acho que a grande virada dela foi quando passou no vestibular da UFSC para Pedagogia. Me lembro. O pai dela foi lá em casa conversar com a minha mãe sobre a ida dela para Florianópolis”, conta Ângela, amiga de adolescência de Ivarne.

Para conseguir se manter na capital, precisou conciliar os estudos com o trabalho.  Logo que chegou, conseguiu um emprego como estagiária em uma creche perto da universidade onde trabalhava na parte da manhã. “O primeiro semestre tu tem que fazer todas as disciplinas como estão na grade. O meu curso era mais na parte da  tarde, tinha algumas aulas à noite. A minha rotina era trabalhar na parte da manhã e estudar no restante do dia”.

                                        Ivarne Maria Mendel em um passeio por Florianópolis. Foto: Acervo pessoal                                              

 Na época, além dos desafios de estudar e trabalhar, Ivarne enfrentou problemas de saúde. Após desmaiar e detectar que estava com epilepsia, precisou buscar não apenas tratamentos médicos, como alternativas para cuidar da mente. Foi assim que se encontrou na espiritualidade. “Pensava que eu precisava de alguma coisa que acalmasse os meus conflitos internos. Um dia na universidade uma moça falou do budismo e falei que queria conhecer. Pratiquei o budismo durante 15 anos e aprendi muito, era muito bom. As coisas orientais fecham muito comigo”.  

 Hoje vive há mais de 20 anos sem precisar tomar remédios para tratar a doença graças ao budismo e ao seu interesse em pesquisar áreas de autoajuda. Ao ser questionada sobre a sua rotina atual, explica que é “uma aposentada com agenda”.  Apesar de ter se aposentado da área da educação em 2017, nunca parou de estudar.  Em 2018, começou o curso de alfabetização da Astrologia e hoje trabalha lendo mapas natais dos seus clientes.  “A mandala astrológica tem tanto ali dentro. Agora eu vejo o quanto é fantástico esse conhecimento. Ele é tão antigo, mas as pistas estão ali”. 

 A dedicação na Astrologia é perceptível para quem quer ter seu mapa astral lido por Ivarne.  “Ela tem todo um fundamento. A primeira vez que ela fez o meu mapa astral fez toda uma introdução sobre o mundo da astrologia. Primeiro pegou meus dados, ficou um tempo estudando e depois a gente marcou a sessão. Ela trouxe informações bem precisas e é alguém que estuda,  acho que isso é essencial, ninguém se destaca em nenhum lugar sem estudar”, relata Cibele, uma de suas clientes.  

Contudo, a astrologia não é a única atividade que ocupa o seu tempo de aposentada. Em 2017, logo após sair da área da educação, começou a atuar como subsíndica do condomínio onde mora, cargo que ocupa até hoje. “Quando me aposentei decidi que deveria ajudar e contribuir para as melhorias do meu condomínio. Colocar plantas, flores e trazer um pouco a natureza para dentro do prédio como forma de receber o morador”.

Flores do condomínio colocado por Ivarne na sua função de subsíndica. Foto: Acervo pessoal   

Se sente tão satisfeita com o papel que cumpre no condomínio que , pensa em se candidatar novamente para a função de subsíndica nas eleições que vão acontecer em abril de 2022. “O condomínio onde eu moro  já existe há 40 anos, então são muitas tarefas do dia a dia, é um condomínio com muitas emergências. Agora em abril vou me candidatar novamente porque acho que tem mais coisas para construir e fazer. Tenho um plano de gestão que desejo colocar em prática”.

Além da vida agitada com os trabalhos de astrologia e de subsíndica, gosta de desfrutar das vantagens de ser uma aposentada. “Quando eu me aposentei, comecei a me permitir fazer coisas que antes eu não conseguia fazer. Como por exemplo, assistir uma sessão da tarde e filmes na Netflix. Hoje assisto um monte de seriados.  Depois do almoço eu descanso. Uma coisa boa da aposentadoria é poder relaxar os olhos depois de almoçar”. 

Apesar de ter marte em libra na casa três, o que significa que é uma pessoa que tem facilidade com relações interpessoais, nunca casou ou teve filhos. Sobre isso, se diz estar bem resolvida e em paz com as escolhas que fez.  “A gente vive em uma sociedade cheia de dogmas e regras: Não vai namorar? Não vai casar? Não vai ter filho? Comecei a sentir que essas coisas eram diferentes para mim. Acho que não encontrei a pessoa certa. Esse encontro do casamento não aconteceu”.  

Mesmo nunca tendo engravidado, sempre se sentiu mãe dos seus irmãos. Por ser a filha mais velha, teve que ajudar a educar seus três caçulas. “Eu sempre cuidei dos meus três irmãos, então eles têm uma relação muito maternal comigo”.  Para Solange, sua irmã mais nova, a  figura de Ivarne como mãe pode ser uma questão de vidas passadas .  “Está sempre me orientando, é uma pessoa madura que tem uma visão maior da vida. Vejo ela como minha mãe,  não deveria. Podem ser questões de outras vidas”, diz. 

Mas ainda nessa vida, a astróloga acredita que a sua missão é ajudar. Após atuar durante 30 anos como educadora, hoje cumpre o seu propósito ajudando outras pessoas a acharem seu caminho. “Minha tarefa é amparar os outros através da mandala astrológica. Me sinto muito bem depois que me dão retorno. O que eu digo é:  não vim nesse mundo de graça. Tenho que deixar uma semente.  Me dediquei muito a educação, sai com o sentimento de dever cumprido e com honra. Agora a minha segunda etapa é a Astrologia”. 

Reportagem produzida na disciplina Linguagem e Texto III, sob orientação da Profa. Dra. Melina de la Barrera Ayres no semestre 2021.2..

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.