De Rio Claro para o mundo, do mundo para o Bronx

A história de origem de Silva João, o artista por trás de HQ de Briga
Reportagem de Jullia Gouveia

No momento em que a tirinha do dia é postada, é certo que João Paulo Silva já fez muita coisa, acredite ele ou não. Após completar suas cinco horas de sono diárias, o quadrinista se levantou quietinho para não acordar a companheira Priscila e refletiu sobre como iria começar o dia desta vez: tocando violão, pensando na vida, puxando ferro, cozinhando. Enquanto isso, na internet, seus seguidores no Twitter logo cedo se deparam com um novo meme ou uma briga iniciada pelo desenhista a troco de umas risadas — afinal, ele tem um nome a zelar: Silva João, autor da história em quadrinhos HQ de Briga.

Ao contrário do que sua principal obra e o shape de marombeiro possam sugerir, João não é realmente violento; “apaixonado”, “expansivo” e “sagitariano” são as palavras que usa para se descrever. O melhor amigo de infância, Lucas Músico, lembra que ele era espontâneo demais para todo mundo gostar dele logo de primeira. “Ele nunca deixou de ser ele mesmo para agradar ninguém. Se a mania de falar alto e ser sincero incomodava, ele aumentava o volume”. O artista é até hoje do tipo que puxa briga na web só para cutucar, incomodar um pouco quem está confortável demais em cima do muro.

“Não me importo com discussão. Eu me garanto no soco demais para ficar lendo as respostas”, brinca.

João sempre foi o cara engraçado, o colega que sabe desenhar. Os bonecos palito que rabiscava no caderno durante a aula já se metiam em porradaria gratuita. Após redescobrir o interesse por quadrinhos com os colegas que conheceu na faculdade de Matemática, receber o diploma de graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP) e entrar em diversos cursos de desenho e oficinas narrativas, sua história inicia mesmo com Combo Breaker. Foi ilustrando o roteiro do gibi de ação, humor nonsense e experimentação visual do amigo Ângelo Dias, que João percebeu que regras existem para serem obliteradas.

Quando estava quase finalizando Combo Breaker, em 2018, veio a necessidade fisiológica de encontrar alguma algo que lhe permitisse procrastinar. Com receio de iniciar projetos mais ambiciosos e estragar tudo, resolveu criar uma história em quadrinhos que pudesse escrever de uma vez só: um Protagonista, um Antagonista e muito soco na cara. Em três dias de hiperfoco, nasceu o prólogo de HQ de Briga, repleto de piadas, elementos de shounen e metalinguagem. A obra foi lida por cerca de cinco pessoas, João calcula. Em um mês, com o primeiro capítulo completo, talvez tenha alcançado 20 leitores.

Os baldes de água fria jogados sucessivamente na cara de João finalmente transbordaram. Abandonou os desenhos e storyboards e resolveu fazer um curso técnico de administração para trabalhar com algo que passasse longe da criatividade. A mãe, Ione Silva, conta que essa foi a única preocupação verdadeira que o filho lhe deu na vida:

“Você consegue imaginar o João trabalhando em banco? Quando ele me ligou e disse que ia prestar concurso para o Banco do Brasil, aquilo me martirizou demais”.

E esse é o momento perfeito para uma reviravolta dramática na vida de alguém que nasceu desenhando e criando histórias.

Primeiras páginas do prólogo de HQ de Briga

O protagonista

A Jornada do Herói é um conceito narrativo em ciclos proposto em 1949 pelo antropólogo Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces, e é também a forma mais comum de contar uma história hoje em dia. De A Pequena Sereia a Matrix, filmes que seguem esse modelo apresentam, em resumo, três atos: a situação inicial, o confronto e a resolução. Logo antes do estágio final, o protagonista passa pela provação suprema, normalmente com o apoio dos companheiros que fez durante a jornada, e sai vitorioso.

No começo de 2019, sem mais nada a perder, João finalmente cedeu à insistência dos amigos e postou HQ de Briga no Twitter, com a certeza de que não ia dar certo. E errou feio. Os quadrinhos viralizaram, ganharam fanarts, memes e até personagens criados pelos próprios leitores, as brigasonas. O que era para ser apenas uma webcomic despretensiosa ganhou capas ilustradas por diversos artistas e já tem material para oito volumes — número que João se reserva o direito de mudar na hora que quiser, como fazem os grandes escritores de ação.

Antes mesmo do primeiro volume da história em quadrinhos atingir os milhares de leitores na internet, uma versão física já era arquitetada pela namorada Priscila, produtora gráfica por trás do Atelier Compacto, estúdio gráfico independente. No início, como de costume, eles apanharam para tirar a ideia do papel — ou melhor, colocar no papel.

“Ouvimos ‘não’ de várias editoras. Disseram que a história não ia ficar boa impressa ou que o financiamento coletivo não ia vingar, porque ele precisaria ter mais de 100 mil seguidores”, conta Priscila. 

E então, em julho de 2019, João foi aprovado para integrar a ala dos artistas na Comic Con Experience, o maior evento de cultura pop do Brasil. Entusiasmados com a oportunidade, decidiram jogar a insegurança para o alto e construir uma edição física do jeito deles para ser lançada na convenção. Após um mês de muito trabalho, a iniciativa foi lançada no Catarse, plataforma de financiamento coletivo de projetos criativos. Dizer que a meta inicial de R$14.500 foi alcançada seria um eufemismo: ela bateu o valor esperado em menos de 24 horas. Até setembro, a edição física já contava com mais de 630 apoiadores e R$37.000 arrecadados. Um dos aficionados que conseguiu a HQ na madrugada do lançamento foi Gabriel Amorim.

“Eu estava no meio de uma festa, comprei bêbado e quase deixei o cartão cair. Foi amor à primeira vista”.

Com o sucesso do primeiro volume, o compromisso de dar continuidade à história cresceu, mas o processo criativo nem sempre é fácil. O problema, porém, nunca é a trama: através de muita tentativa e erro, João consegue chegar no lugar que deseja. Ele conta que as viradas no enredo são como as ruas de Rio Claro, cidade no interior paulista onde o quadrinista cresceu. O centro da cidade é repleto de ruas e avenidas perpendiculares, “como um campo de batalha naval”, explica. Para andar em Rio Claro, só é preciso calcular as curvas que vai fazer em cada rua até chegar ao ponto desejado. “Eu escrevo assim: eu sei qual rua vou virar, qual mudança importante na narrativa vai acontecer. O que muda é como eu chego lá, se vou virando cambalhota ou fazendo moonwalk”.

Enquanto existem momentos em que João dispara inspirado pelos quarteirões da história, há dias em que fica difícil colocar o pescoço para fora de casa. Nessas ocasiões, existem apenas dois caminhos a serem tomados.

 “Tem dias que me sinto mal e fico me martirizando por estar assistindo vídeo no YouTube em vez de escrever. E tem dias melhores, quando eu só abro o YouTube e não penso em nada. Isso é produção artística”.

Não existe nenhum recurso mais HQ de Briga do que a metalinguagem, e o Protagonista não poderia ser exceção. João vê muito de si no personagem impulsivo e temperamental, sempre tomado por uma emoção que não sabe de onde vem, buscando algo que não sabe o que é. “Me pego muito nessa situação de sentir que tem algo que preciso fazer e não consigo, não sirvo para nada”. É quando Priscila intervém. “Você varreu o chão, fez a comida, entregou um trabalho. Por que é que você não consegue fazer nada? O que é esse algo que você precisa fazer?”, questiona ela. João não sabe responder.

Essa semelhança entre criador e criatura é parte do que motiva as atitudes do Protagonista: a raiva sem fundamento de tudo e de si mesmo, uma raiva que “enche o saco dele próprio”. Mas o quadrinista tranquiliza (alerta de spoiler!): “Eu vou dar um caminho feliz para ele, vou fazer ele se entender melhor”. Então, quando parecer um bom momento para sair na rua novamente, nada como dar um passo de cada vez, para variar um pouco.

Às vezes, quando a trama do quadrinho passa uns dias descansando, uma tirinha surge. Ione se deleita com o filho e seu senso de humor, que afirma ser “azedo como o dela” e inspirado em Calvin e Haroldo, de Bill Waterson. Assim, no momento em que a tirinha do dia é postada, é certo que João já fez muita coisa, acredite ele ou não. E, em alguma rua de Rio Claro, admirado com o alcance que a última tira obteve, o filho da conhecida exclamou:

“Olha só, ele tá famoso!” Mas Ione discorda. “Para mim, ele continua sendo só o João”.

Priscila e João, vestido como o Protagonista, após a transmissão ao vivo que comemorou os 2 anos de HQ de Briga| Arquivo pessoal.

 

Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição III, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da Profa. Dra. Melina de la Barrera Ayres.

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