Cotidiano UFSC entrevista o editor da Vice, André Maleronka

Texto: Amanda Ribeiro e Luize Ribas

Fotos: Felipe Freitas – Comunica! Empresa Júnior de Jornalismo

André Maleronka é um jornalista que fez faculdade de geografia que atualmente trabalha como editor na Vice, site de notícias voltado para adolescentes e que se destaca por publicar reportagens com assuntos, no mínimo, ousados. A Vice é uma publicação dos Estados Unidos, que atualmente tem sede em cerca de 30 países. No Brasil, o site se popularizou no último ano em razão da cobertura em vídeo que fez das manifestações de junho (Acesse aqui a parte 1 e a parte 2). As reportagens do site se diferenciaram da cobertura da grande mídia por mostrar tanto o lado violento de alguns policiais quanto o vandalismo de alguns manifestantes. Maleronka foi o convidado da primeira noite da 13ª Semana de Jornalismo da UFSC, onde falou sobre sua trajetória pessoal, as peculiaridades da Vice e a importância de tentar fazer diferente no meio jornalístico.

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A Vice é um veículo voltado para adolescentes diferente de outros com o mesmo público alvo. Quais são os aspectos que mais diferenciam a Vice dessas outras publicações jovens?

Linguagem. Pode ter gente que discorde de mim, mas eu acho que o que diferencia a Vice é a linguagem, a maneira de enxergar as coisas, de abordar a pauta. Por exemplo, a gente pega assuntos que as pessoas acham super polêmicos e trata eles com naturalidade. O segredo é não exagerar; faz muita diferença. Porque aí o jovem que está lá lendo não vai se sentir feito de idiota. E também você não pode subestimar seu público, né? Por exemplo, a gente lida com uma molecada muito nova, e daí acabamos percebendo que muitos deles não tinham noção do que foi a ditadura no Brasil. Aí a gente vai tentar sanar isso com uma série de matérias, mas sem ser uma Wikipedia, ou um ABC. Você vai tentando colocar a informação de uma maneira diferente para o seu público, porque não dá para tratar eles como se fossem burros.

A Vice trata de assuntos muitas vezes sérios e relevantes, mas com o tom e a linguagem descontraídos que atraem os jovens. Você acha que esse mercado informativo mais descontraído, que é um setor que ainda não foi bem explorado, pode ser uma maneira de atrair os jovens para o consumo de informação?

Eu acho que sim. Esse é o grande lance, sabe? Porque não é porque a gente está fazendo piadinha que não está tratando de um assunto sério. Jovem não é idiota. É louco você saber que na Malásia eles estão rapando o cabelo dos punks. Só que se você disser isso como se estivesse no Jornal Nacional, não vai ser legal de ler. Tem que colocar de um jeito que seja interessante. A linguagem que eu falei é a linguagem como um todo, não é só a do texto. É tudo, desde a concepção da pauta.

Como foi o processo de criação da sede da Vice no Brasil?

O processo de criação da Vice aqui no Brasil foi bem tranquilo. Os dois donos, que são um casal, conheciam a publicação lá dos Estados Unidos e acharam que ia ser um investimento interessante se trouxessem para cá. Nenhum dos dois é da área da comunicação.

Agora, como eu cheguei na Vice é outra história. Eu já trabalhava com jornalismo, só que na revista “Eles e elas” que é, basicamente, uma revista de mulher pelada. Lá eu tinha muita liberdade e podia fazer coisas muito loucas. O editor permitia tudo, desde que no fim a gente fizesse uma coisa bonita. Porque não é porque as mulheres estão lá de perna aberta que não dá para fazer uma coisa bonita! Por causa da revista, eu escrevi sobre bailes funk e a coisa toda da sexualidade envolvida nisso; passei uma noite inteira acompanhando os shows do Mr. Catra, e cheguei a cobrir um campeonato de gangbang em São Paulo. Por causa dessas coisas todas, um cara me indicou para a Vice quando ela ainda estava bem no começo, precisando de pessoal. Ele disse: “Esse cara faz umas coisas loucas. Chama ele, acho que é o mais indicado”.

A Vice pauta muitos assuntos inusitados e trabalha com ângulos diferentes de outras publicações. Qual foi a pauta mais interessante que você já fez?

Putz, essa é uma boa pergunta! Não sei! De cabeça, eu gosto da que nós fomos aprender a fazer Maria Louca, que é aquela bebida que os presos fazem. Eu e o João Wainer [editor da TV Folha] fomos fazer essa matéria com os caras do Carandiru, e eu gostei muito de passar o dia com eles. Essa é a pauta que eu me lembro mais. Mas não posso dizer com certeza; talvez daqui a cinco minutos eu encontre outra ainda mais legal.

A sede da Vice em Nova York produz, além do site, uma revista impressa mensal. Aqui no Brasil essa revista não é editada. Por quê?

Foi uma decisão minha não editar a revista. Eu posso dizer que matei a versão impressa da Vice aqui no Brasil. O motivo? Custo e tempo de produção. Porque aqui no Brasil, o setor de anúncios não funciona como lá fora. Aqui eles são cheios de frescura, sabe? A maioria das pessoas só anuncia se não tiver matérias de droga e sexo na revista. E não tem como, sabe? A gente produz coisas nesse sentido, e eu não vou tirar por causa de anúncio.  Outra coisa que me motivou a não editar a revista aqui é a questão da lentidão do impresso. Se sai uma matéria muito legal, eu não quero esperar a revista ser toda produzida, impressa e distribuída para que você leia. Se eu descobri hoje, quero que você leia amanhã.

Atualmente, a Vice “importa” muitas matérias das edições de outros países, e não mostra tanto quanto poderia a realidade do Brasil. O que você acha que falta para poder produzir mais reportagens sobre o país?

Grana. O que falta é dinheiro, porque não é barato bancar um repórter que sai para fazer uma reportagem especial. Conseguimos dinheiro quando vendemos um documentário ou uma série para um canal de TV, mas, mesmo assim, não sobra muita coisa para poder pagar uma experiência assim. Além disso, o Brasil é muito grande; a Vice não tem equipe para abarcar tudo. O que dá para fazer é trabalhar com correspondentes em vários estados, mas nesse ponto eu tenho uma crítica para as pessoas que estão saindo da faculdade de jornalismo. Parem de ir todos para São Paulo! Isso acaba com a diversidade do trabalho independente dos freelancers. Se vocês estão todos em São Paulo, como ficam os outros estados? Eu gostaria muito que isso mudasse e que, no futuro, as pessoas conseguissem ficar e trabalhar em seus estados. Ia enriquecer muito o jornalismo.

 Quais foram suas experiências anteriores à Vice?

Antes da Vice eu trabalhei com outras formas de jornalismo. Comecei em uma produtora de TV, e acabei aprendendo a fazer tudo sozinho. Foi bom, mas eu acho que para aprender mesmo você precisa de um bom editor. Depois, decidi fazer graduação em geografia, porque sentia que isso era importante para a minha formação e, principalmente, porque eu gostava muito do Milton Santos (risos). Mais tarde, fui trabalhar na revista que já mencionei, a “Eles e elas”, onde tive um editor maravilhoso, que me ensinou uma porrada de coisas legais. Daí fui para a Vice, onde estou até hoje, como editor.

 Atualmente, a cobertura dos fatos não difere muito de um veículo para outro. Como você acha que é possível fazer jornalismo diferente?

Acho que o melhor conselho para quem quer fazer jornalismo diferente é ser careta. Sério. Seja careta para apurar, vá para a rua, esteja onde as coisas acontecem. Não tenha medo de ir atrás de pautas difíceis; faça bonito. E por bonito eu não quero dizer escrever bonito, mas trabalhar de uma maneira bonita, desde a concepção da pauta até a finalização. Muitas vezes, a gente apura durante semanas e daí escreve aquelas reportagens enormes, que ninguém que entra no site da Vice lê. Mas a gente deixa lá, e se orgulha dela mesmo assim, porque é bonita. Os leitores que se fodam (risadas).

 

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