Caso de racismo no CED intensifica lutas antirracistas na UFSC

Coletivos se unem em busca de responsabilização por crimes ocorridos na universidade

Reportagem por Júlia Matos

O recente caso de racismo registrado no Centro de Educação (CED) da UFSC e outras demonstrações de violência recorrentes nos diferentes centros da instituição foram discutidas na sessão extraordinária do Conselho Universitário (CUn) na última terça-feira (11). Estudantes e representantes de movimentos sociais se juntaram aos membros do conselho para a proposição de ações antirracistas na universidade.

Reunião do Conselho Universitário da UFSC, em 11/10/2022 Foto por Júlia Matos

No dia 28 de setembro, o banheiro do CED foi cenário de mais um ato racista na universidade. A vítima do crime, uma estudante quilombola de Pedagogia, viu seu nome pichado na porta de uma das cabines seguido de uma mensagem criminosa. A coordenação do curso direcionou os estudantes para testemunharem o crime e relatou o caso à Pró Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), que auxiliou na orientação dos procedimentos a serem seguidos. Em seguida, o Centro Acadêmico Livre de Pedagogia (CALPe) convocou uma reunião aberta de caráter emergencial no hall do Bloco A do para decidir os primeiros encaminhamentos em relação ao crime de racismo.

Infelizmente, este não foi o único registro de racismo no campus. Em ato promovido no hall do CED pelo Movimento Negro Unificado (MNU) e pelo Coletivo Negro Magali da Silva Almeida no dia seguinte ao caso (29), integrantes da comunidade universitária relataram ser vítimas de repetidas demonstrações de opressão e preconceito na instituição – sem punição para os responsáveis. As falas frisaram a urgência de medidas de enfrentamento dessas violências por parte da instituição e da comunidade universitária como um todo.

Pronunciamento de estudantes e de representantes de movimentos em ato antirracista, em 29/09/2022

Desde então, o Movimento Estudantil e o Movimento Negro da UFSC têm se engajado na causa, mobilizando diversas ações. Representantes do CALPe, da FREJUNA e do DCE fixaram cartazes de denúncia contra racismo e entregaram um ofício à reitoria, solicitando participação na reunião do CUn do dia 11 de outubro. A solicitação foi aceita e os estudantes puderam acompanhar a sessão. Nela, o estudante de Pedagogia Artur Favaretto leu carta elaborada pelo CALPe e pelo Diretório Central dos Estudantes. Entre as exigências feitas ao Conselho Universitário estavam a expulsão da pessoa responsável pelo crime de racismo no CED; a implementação de políticas de formação antirracista e, ainda, a responsabilização pela cobrança dos encaminhamentos propostos.

Luciana Freitas, coordenadora do Movimento Negro Unificado de Santa Catarina e professora da Educação Escolar Quilombola, também fez a leitura de uma carta assinada por coletivos e movimentos negros. Ela reiterou os apontamentos feitos por Favaretto, além de reivindicar a reativação da Sala do Quilombo e o acompanhamento permanente de estudantes imigrantes para que “as comunidades quilombolas e estudantes diretamente violentados possam continuar a sua luta e a sua caminhada dentro dessa instituição de ensino com segurança, respeito e condições reais para permanência”.

Reunião do Conselho Universitário da UFSC, em 11/10/2022 Foto por Júlia Matos

A vice-reitora, Joana Célia dos Passos, ainda levantou a importância de que os diretores e coordenadores de curso também se responsabilizem e quantifiquem as denúncias de racismo, assédio, estupro, transfobia e qualquer outra forma de ataque. “Nós temos que antecipar as violências e precisamos prever como agir em cada tipo de violência que aqui se manifestar”, disse a professora, reforçando que o enfrentamento se trata de uma política institucional.

Desde a posse da nova gestão da reitoria da UFSC, foi retomado o Grupo de Trabalho de combate ao racismo na universidade. O grupo é formado por entidades de movimentos sociais, coletivos de estudantes negros, representações de servidores docentes e técnicos dos campi. Os membros trabalham para elaborar uma Resolução Normativa onde são atribuídas funções a cada setor da universidade, as quais compreendem a transparência no fluxo de denúncias, acolhimento à vítima, identificação dos autores dos crimes e medidas de punição. Segundo a Proafe, a intenção é submeter a minuta da resolução à votação no CUn ainda este ano.

A Proafe, por meio do COEMA, já oferece algumas formas de suporte para estudantes negros e quilombolas. Um dos projetos é o Escuta Preta, em parceria com o Departamento de Psicologia. Coordenado por uma psicóloga e quatro estagiárias de psicologia, o grupo promove escuta, reflexão e acolhimento em relação aos efeitos psicossociais do racismo. Outro projeto disponível é o Programa de Monitoria Indígena e Quilombola, mantido e administrado junto à Pró-reitora de Graduação (PROGRAD). Ele visa proporcionar a permanência desses estudantes na universidade por meio da intervenção de monitores nos processos de adaptação às atividades acadêmicas e na compreensão do novo ambiente de vivência.

Apesar dos projetos já existentes, os estudantes e a instituição enfatizam que estes não são suficientes e que as lutas antirracistas devem ser constantes e cotidianas. Em mais um movimento para chamar a atenção da comunidade, o CALPe realiza uma mobilização com cartazes, faixas e batuques nesta quinta-feira (13), em ato contra racismo na UFSC, a partir das 13h30, na reitoria.


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