Artigo antropóloga Waleska Aureliano

Leia o artigo escrito para o Cotidiano por Waleska Aureliano, doutora em Antropologia pela UFSC e pós-doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro:

Bom, temos que primeiro esclarecer o que aconteceu no caso da atriz Angelina Jolie que, de forma alguma, reflete a realidade da maioria das mulheres que tem câncer de mama no mundo. Angelina tem um histórico familiar da doença na família, e em virtude disso se submeteu a um teste genético para saber se tinha a mutação em um dos dois genes que aumenta as chances de uma mulher vir a desenvolver câncer de mama, os genes BRCA 1 e BRCA 2. Ela tinha a mutação em um dos genes, que era hereditária, e para reduzir as chances de ter a doença resolveu se submeter à mastectomia preventiva.

Esse é um caso específico, muito particular, porque envolve a expressão genética e hereditária do câncer de mama e é bom fazer uma ressalva: a grande maioria dos casos de câncer de mama não é hereditária. Há uma confusão muito grande na nossa sociedade sobre o câncer. Todo câncer é de certa forma uma mutação genética, pois algo acontece a nível celular que desencadeia o desenvolvimento de um tumor. Mas isso não quer dizer que essa alteração genética seja hereditária, ou seja, que passa de pais para filhos. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde e de outros organismos médicos como a Sociedade Brasileira de Mastologia, apenas 5 a 10% dos casos de câncer de mama são de origem genético-hereditária, ou seja, foram desenvolvidos porque a mulher, ou o homem, porque os homens também têm câncer de mama, herdou a mutação de seus ascendentes. A grande maioria dos casos, cerca de 90%, são cânceres que vão se desenvolver por questões que nem sempre os médicos podem conseguir precisar, mas que hoje já sabemos está ligado a estilos de vida, exposição a agentes cancerígenos, como o cigarro, envelhecimento, entre outros.

A atitude da atriz pode impactar positivamente a percepção de muitas mulheres sobre a cirurgia de mama e possivelmente desmitificar a ideia de que a mulher que passa por esse tipo de cirurgia se torna “menos feminina”, já que ela segue sendo um símbolo de feminilidade. No entanto, o caso dela é muito particular, pois ela optou pela cirurgia sem ter a doença e no caso das mulheres que já desenvolveram o câncer e tem a indicação da cirurgia a questão não é bem de escolha, é de fato uma questão de urgência médica. Outra coisa que deve ficar claro é que Angelina pôde contar com todo um aparato médico para fazer sua cirurgia e a reconstrução da mama que no Brasil muitas mulheres não vão ter por uma série de questões: desde a indicação médica até a falta de recursos materiais para fazê-lo, pois mesmo sendo garantida pelo SUS nem todos os hospitais que fazem tratamento para o câncer, via SUS, tem recursos ou equipes para fazer a reconstrução mamaria, infelizmente.

E as mulheres que não fazem essa reconstrução, algumas que até mesmo não desejam fazer a reconstrução depois de já terem passado pela retirada da mama, quimioterapia, radioterapia, serão menos mulheres por conta disso? Eu creio que não. A nossa sociedade, historicamente, construiu certos valores simbólicos em torno dos seios ao associá-los a sexualidade, feminilidade e maternidade, o que causa sérios impactos na percepção da mulher sobre sua identidade quando passa por um câncer de mama. Há ainda toda produção da indústria cultural, da moda à pornografia, que reforça os seios como forma de representação da mulher, o que dificulta imensamente a construção de uma visão positiva da mulher sobre seu corpo após a retirada da mama, pois ela se vê, em função desses discursos sobre o corpo feminino, sendo reduzida a uma parte do seu corpo, a mama.

Nas minhas pesquisas sobre o câncer de mama foi interessante observar que muitas mulheres depois da cirurgia para retirada do seio vão questionar esses discursos sobre uma forma “natural” do corpo feminino e não se deixar reduzir a uma parte do seu corpo, pois como muitas me diziam, elas eram muito mais “que um peito”. Será que ser uma mulher, ser feminina, é apenas ter esse corpo em conformidade com o que se espera do corpo de uma mulher?

Você pergunta como a retirada das mamas, uma marca/símbolo do corpo feminino, afeta no “sentir-se mulher”, na feminilidade de cada uma? Bem, eu vou te dizer que isso depende de uma série de fatores, desde o contexto sociocultural onde vive essa mulher e como nele os seios são representados como símbolo do feminino até a realidade familiar, a história pessoal dessa mulher, seu universo afetivo, etc. Por exemplo, temos a história da poetisa inglesa Clare Best que tem uma experiência muito próxima da de Angelina Jolie, viu a mãe, tia e outras parentes afetadas pelo câncer de mama, fez a testagem genética e descobriu que tinha a mutação e como Angelina fez a retirada das duas mamas, mas não as reconstruiu. Inquieta com a ausência de fotos e imagens de mulheres sem os seios, Clare resolveu fazer um livreto com fotos de seu corpo e suas poesias, como forma de questionar as obsessões que temos com relação ao corpo da mulher.

Também a fotografa e escritora argentina Gabriela Liffschitz explorou a experiência do câncer de mama para questionar o que é esse corpo feminino, o que é ser uma mulher feminina ao expor sua imagem em dois livros de fotografias: Efectos Colaterales e Recursos Humanos. Suas imagens nos parecem chocantes e ao mesmo tempo são muito corajosas e desafiadoras porque justamente questionam esses modelos de feminino que são construídos socialmente como os “válidos”, os “aceitáveis”, os únicos permitidos.

E na minha pesquisa com mulheres, em sua maioria, de camadas populares, observei que a preocupação maior delas seria em manterem-se ativas, atuantes no seu universo de relações, não serem condenadas a uma condição de doente ou inválida junto a suas famílias, do que propriamente discutir a feminilidade. É obvio que qualquer forma de mutilação acarreta transtornos e afeta a autoestima, mas após um câncer e dependendo daqueles fatores que elenquei mais acima, vemos que as mulheres, em diferentes contextos, têm modos diversos de responder ao câncer de mama e às transformações corporais que ele acarreta.

Então, o que posso lhe dizer é que a percepção da mulher sobre sua feminilidade e seu corpo após um câncer de mama certamente é carregada de muitos elementos em comum como o medo da morte, o temor pela mutilação, as incertezas sobre o tratamento, os estigmas sociais que infelizmente muitos pacientes com câncer ainda enfrentam, mas que essa experiência também é única e particular.

Eu particularmente espero que o caso da Angelina estimule as mulheres a buscar a prevenção do câncer através de exames regulares, pois como eu disse, 90% dos casos dessa doença não são de origem hereditária. Ela tinha um histórico que a levou a realizar uma investigação, mas a maioria das mulheres que desenvolvem câncer de mama não tem esse histórico. As mulheres não devem pensar que porque não tem parentes na família com a doença não precisam fazer um acompanhamento médico regular, elas precisam sim. E para aquelas que têm histórico na família é preciso lembrar que Angelina fez uma opção pelo que entendia ser o melhor para ela, mas já há outras formas de monitorar e reduzir o aparecimento do câncer de mama em mulheres com histórico de herança genética como o dela sem recorrer à mastectomia preventiva. Tudo isso deve ser discutido com os médicos.

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