A imparável Sandra Lefort

Com coragem e uma ajuda do acaso, a jovem francesa criou, no México, um projeto que inspira as pessoas a buscar seus sonhos

Reportagem por Luiza Casali

“Hola y bienvenido al podcast Lafuerte Imparable. Cada semana, encontrarás tu dosis de motivación para crear la vida que tú quieres. Como? Con una entrevista, una conversación con una persona que me inspira y que es arquitecto de su propia vida” [“Olá, seja bem-vindo ao podcast Lafuerte Imparable. Cada semana, você encontrará sua dose de motivação para criar a vida que quer. Como? Com uma entrevista, uma conversa com uma pessoa que me inspira e que é arquiteto de sua própria vida”]. Assim começa o episódio piloto do programa criado por Sandra Lefort. Quem tem um ouvido apurado para sotaques logo percebe que, apesar do espanhol fluente, pela pronúncia da letra R ela vem da terra do croissant. A jovem de 25 anos fala da cidade mexicana de Guadalajara, que é a segunda maior do país e fica a pouco mais de 500 quilômetros da capital, Cidade do México. Sandra que é, em suas palavras, “experta en nada, curiosa de todo” [“Especialista em nada, curiosa por tudo”], em seu programa conversa toda semana com pessoas como ela, que seguiram um caminho distinto daquele que costuma ser traçado. Seu desejo é inspirar os ouvintes a construir a vida que eles querem.

Sandra no espaço de coworking onde grava o podcast em Guadalajara, México. Créditos: Sara Díaz.

Sandra nasceu em 13 de julho de 1996 em Lyon, na França, e passou a maior parte da vida em Biarritz, localizada no País Basco francês. Depois de um intercâmbio de um ano na Austrália durante o ensino médio, foi aprovada para estudar Comércio Internacional na Universidade de Bordeaux, cidade a 200 km de Biarritz. Nos conhecemos neste período, entre 2017 e 2018, em que ela fazia parte de um grupo de ex-intercambistas. Em seu pequeno apartamento, ela costumava receber os estudantes estrangeiros que moravam na cidade, incluindo a mim, e nos divertíamos como se estivéssemos em casa.

Quatro anos depois, não pude visitá-la, então marquei uma conversa virtual para sexta às dez e meia da manhã em Florianópolis, e oito e meia em Guadalajara. Me disseram que o perfilado busca mostrar sua melhor versão, como quando arrumamos a casa antes de receber uma visita importante. Surpresa. Ela apareceu com o cabelo preso em um rabo de cavalo, uma máscara facial e uma camiseta larga, e não se importou de eu tirar um print da tela. Com a mesma naturalidade, mostrou seu quarto bagunçado no apartamento que divide com um amigo. A verdade é que a melhor versão de Sandra é ela mesma.

Sandra em seu apartamento em Guadalajara, México, no dia em que conversamos por videochamada. Créditos: Luiza Casali.

A jovem está no México desde o início do ano passado e reconhece o papel do acaso no rumo que sua vida tomou. Nos primeiros dias em Guadalajara, para onde se mudou depois de quatro meses na cidade de Léon, descobriu a academia BlackBox. Um dia, ela estava correndo debaixo de chuva na rua de sua casa quando ouviu os gritos vindos da sala e decidiu entrar. A partir daí, voltou a praticar o esporte que já havia começado na França, o boxe, e se tornou amiga do treinador Manuel Uribe, conhecido como Mel. “Me esforcé para que no se sintiera excluida y fue muy fácil porque ella es extrovertida, calorosa y amigable” [“Me esforcei para que ela não se sentisse excluída e foi muito fácil, porque ela é extrovertida, calorosa e amigável”], explica Mel. O espaço proporcionou a Sandra, além do treino e das amizades, uma vaga de emprego. Desde agosto, ela faz parte da equipe comercial, atuando com vendas de franquias, organização de eventos e das redes sociais.

Sandra (ao centro, usando luvas amarelas) com o treinador Mel (sentado no chão à esquerda) e outros praticantes de boxe da academia BlackBox em Guadalajara, México. Créditos: Manuel Uribe.

O esporte colocou em seu caminho um grupo que a acolheu desde o início, os amigos de longa data do seu treinador. Sentindo-se em casa no país centro-americano, decidiu continuar morando ali. Mel lembra, “Le dije que no es fácil, que iba a trabajar más que en Francia para ganar menos, pero quiso quedarse. Creo que es por las personas, que son más abiertas, y por el sentimiento de comunidad que tenemos aquí” [“Eu falei que não é fácil, que ela ia trabalhar mais que na França e ganhar menos dinheiro, mas ela decidiu ficar. Acredito que é pelas pessoas, que são mais abertas, e pelo senso de comunidade que temos aqui”].

Foi Mel que apresentou Sandra à Gustavo Robles, conhecido como Gus, que se tornou amigo dela e, mais tarde, sócio do podcast. Decidida a fixar residência, ela quis empreender, a princípio com o envio mensal de uma caixa de produtos de bem-estar produzidos localmente, e contou com a ajuda do rapaz, que tem uma empresa de assessoria contábil, para avaliar se o modelo de negócios era viável. Não era. Como alternativa, Gus sugeriu um podcast. Sandra conta que já tinha em mente a ideia de produzir conteúdo. “Presque personne ne sait que j’ai créé une chaîne sur Youtube” [“Quase ninguém sabe que eu criei um canal no Youtube”], explica ela, lembrando do projeto que deixou de lado porque não se adaptou ao formato de vídeo.

Lafuerte Imparable é o resultado da vontade da jovem de tentar fazer tudo que ela sente vontade, mesmo que dê medo. “Tu as qu’une vie et avoir de regrets c’est pas possible” [“Você só tem uma vida e não dá para ter arrependimentos”] , é o que ela diz ter aprendido durante o intercâmbio que fez na Austrália. Gus explica que a ideia surgiu pois a amiga se queixa que os mexicanos subestimam seus talentos, suas marcas e sua identidade, “porque estamos muy obcecados por Estados Unidos y Europa, queremos siempre ser como ellos” [“Porque estamos obcecados pelos Estados Unidos e pela Europa, queremos sempre ser como eles”]. Para Sandra, o propósito é o mesmo da ideia inicial de negócio, “faire les gens valoriser ce qu’ils ont chez eux” [“Fazer as pessoas valorizarem o que elas têm no local onde vivem”]. Um dos primeiros convidados foi Rogelio Torres, sócio da BlackBox. Após uma conversa sobre a trajetória do empreendedor, Sandra ficou surpresa que, apesar do convívio diário, os colegas da academia não conheciam sua história. Compartilhar exemplos como esse motiva o programa, que é gravado em um espaço de coworking gratuito do governo mexicano e agora busca ser reconhecido nacionalmente.

A decisão de ir para o México veio em meio a um período difícil, que começou na França. No terceiro ano da faculdade, a estudante fez um intercâmbio de quatro meses em Taiwan e, de volta ao país de origem, faltava apenas um estágio para se formar. De última hora, a empresa que a contrataria desistiu da ideia e ela não conseguiu outra oportunidade. Filha única de pais que nunca foram à universidade, vindos de uma família de agricultores, ela se pressionava para ter um diploma. “J’avais peur de décevoir mon père” [“Eu tinha medo de decepcionar meu pai”], conta ela.

Diante da frustração, a jovem optou por se inscrever em uma faculdade online e voltar para a casa da família em Biarritz. Lá começou a sentir  fortes dores na coluna, situação que perdurou por meses até que foi a um quiropraxista. Sandra conta que, ao pisar na sala, sentiu vontade de chorar. O profissional disse que ela não precisava tirar a blusa para a massagem, e, sem ver suas costas, encostou exatamente onde doía. Com os olhos marejados, a jovem relembra que ele parecia saber o que estava passando em sua vida e fez uma pergunta fatídica, “C’est quoi que tu veux vraiment faire?” [“O que você realmente quer fazer?”], à qual ela respondeu sem hesitar, “Aller au Méxique” [“Ir ao México”]. Para ela, no segundo em que essas palavras saíram da sua boca, já era um fato, embora ela não saiba explicar o motivo exato da escolha. Como os pais não podiam bancar a viagem, trabalhou na padaria da família durante um ano e meio. Assim, desembarcou em terras latino-americanas pela primeira vez no início de 2020.

Um ano e meio depois da mudança, a amiga de infância Diane-Eva Lannes a visitou em solos mexicanos. Imaginei que ela poderia atestar o quanto Sandra mudou desde que se conheceram, há quinze anos, mas me surpreendi. Diane vê que é ali que sua amiga, desde sempre sociável, consegue se expressar melhor e ser quem ela é. Ela diz que sabia que Sandra não seguiria o caminho da maioria das pessoas nos estudos e na carreira, e que a ideia do podcast está muito ligada à sua vida, para mostrar que é possível se realizar sem ter um diploma. Ela resume: “ce qui importe est de faire ce que tu aimes” [“O que importa é fazer o que você ama”]. Diane acompanhou a gravação de um episódio e viu os olhos da amiga brilharem ao entrevistar o convidado, como uma criança que descobre um mundo extraordinário, “elle est faite pour ça” [“Ela nasceu para isso (apresentar um podcast)”].

Sandra (esquerda) e sua amiga de infância Diane-Eva (direita) em Tulum, México, em julho de 2021. Créditos: Diane-Eva Lannes.

A facilidade de se adaptar e a personalidade aventureira da jovem se revelam desde criança. Os pais, Patrícia e Dominique, contam que na mudança de Lyon para Biarritz, ouviram da professora que a filha, que tinha quatro anos na época, se adaptava bem e não teria problemas na nova cidade. No ano seguinte, em uma visita aos avós que moravam em outra região da França, a menina viajou de avião acompanhada de uma aeromoça e voltou para casa dizendo que, como ela, queria fazer muitas viagens. A distância não é barreira para a proximidade com a família, que a encoraja a se realizar por si mesma.

Sandra (esquerda) e a mãe (direita) antes das festas de Bayonne, França, em 2005. Créditos: Dominique Lefort.
Sandra aos dois anos no colo do pai, Dominique, na França. Créditos: Patricia Lefort.

Das lembranças de infância não escapam as dificuldades que a menina enfrentou por conta da dislexia e disortografia, diagnosticadas aos seis anos de idade. Mesmo com acompanhamento especializado, Sandra sofria na escola, porque alguns professores faziam comentários duros sobre os erros cometidos na escrita, uma tarefa que era difícil para ela. “Quand on est enfants, les paroles nous affectent beaucoup” [“Quando somos crianças, as palavras nos afetam muito”], afirma ela. Hoje em dia, sua “meilleure vengeance” [“melhor vingança”] é compartilhar os episódios do podcast nas redes sociais.

Sandra acredita que sua vida é até melhor do que poderia imaginar quando era pequena. Ela aproveita as oportunidades e se esforça para criá-las, “Je suis le vent et pour moi c’est important de rester en mouvement” [“Eu sigo o vento e para mim é importante sempre estar em movimento”]. Atualmente, seus objetivos são obter o visto de permanência, aprender tudo que puder na BlackBox e buscar outras fontes de renda enquanto o podcast não é monetizado.

Nossa conversa vai chegando ao fim com uma inversão de papéis: a entrevistada me faz perguntas sobre minha vida e meus projetos, e ouve as respostas pacientemente. Depois de jogar conversa fora, digo que ainda me falta coragem para ser como ela. A resposta é que já tenho e que não devo ser como ela, “il faut être toi” [“Você tem que ser você”]. Inspiração é a razão pela qual escolhi contar a história de Sandra e, agora que a vejo escrita diante dos meus olhos na tela do computador, percebo que inspirador é quem nos motiva a ser nós mesmos.

Reportagem produzida para a disciplina Linguagem e Texto Jornalístico sob orientação da Profa. Dra Melina de la Barrera Ayres, em setembro de 2021.

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