A evolução de uma cobertura ambígua

Texto: Marília Marasciulo (mariliamarasciulo@gmail.com)

Capa: Wagner Marins

Storify: Luíza Giombelli (luizamgiombelli@gmail.com)

A postura ambígua da mídia em relação aos protestos que tomaram conta do país foi duramente criticada tanto nas redes sociais como por quem foi às ruas. Não é preciso ser jornalista ou especialista em mídia para perceber a mudança drástica no enfoque dado pela cobertura, principalmente a da Folha de São Paulo e a do Jornal Nacional da TV Globo.

No primeiro caso, a posição do jornal contrária ao movimento foi expressa num editorial (texto que manifesta a opinião do jornal sobre determinado assunto) publicado na quinta-feira de manhã – antes dos episódios de violência praticados pela polícia à noite. Nele, os manifestantes foram chamados de “grupelho” com condição “marginal e sectária”, os atos classificados como vandalismo e falava-se da necessidade de a Prefeitura e a Polícia Militar intervirem para “fazer valer as restrições já existentes para protestos na Avenida Paulista”. Nos dias anteriores à publicação do editorial, o enfoque vinha sendo os “atos de vandalismo” (como na manchete do dia 12, quarta-feira: “Contra tarifa, manifestantes vandalizam centro e Paulista”) e as respostas do governo e da PM aos atos – pouco destaque era dado à causa em si.

No caso do Jornal Nacional, o enfoque também era principalmente os atos classificados como “vandalismo”. A reportagem que foi ao ar na quarta-feira, dia 12, por exemplo, começava com imagens de bombas explodindo, vidros quebrados e fogo nas ruas e o repórter afirmando que “A Avenida Paulista e o centro de SP amanheceram assim: com as marcas do vandalismo de ontem à noite”.

Mas a partir de sexta-feira tudo mudou. A manchete da Folha de São Paulo focava na violência da polícia (“Polícia reage com violência e São Paulo vive noite de caos”). Na TV Folha, que teve uma repórter atingida por uma bala de borracha no olho, uma matéria trazia colunistas do jornal e a própria repórter criticando a ação da PM e demonstrando apoio aos manifestantes – ainda que não explícito.

A mudança de postura do Jornal Nacional chegou ao auge na segunda-feira, dia 17, quando a apresentadora Patrícia Poeta precisou defender a Rede Globo e tentar justificar a cobertura. Ao mesmo tempo, quando mostravam imagens de manifestantes provocando a polícia ou sendo violentos, os repórteres tinham um claro cuidado em ressaltar que “esta é somente uma minoria, a maioria dos manifestantes está pacífica.” As palavras de ordem mudaram de “baderna” e “vandalismo” para “pacífico”.

“Acredito que a classe política e a imprensa foram pegas de surpresa”, diz o professor do curso de Jornalismo da UFSC Rogério Christofoletti, especialista em crítica da mídia e ética jornalística. Ele afirma que as reações demonstram o caráter conservador – que auxilia a manter e conservar o status quo – e conformador – que busca ditar como movimentos têm de se comportar – da mídia brasileira.

“A mídia está atônita.” Como no caso da Folha, que primeiro publicou aquele editorial (que ele considerou “um nojo”) e dois dias mudou o enfoque para os abusos. A cobertura “virou”, segundo Christofoletti, quando até jornalistas começaram a apanhar. Ao mesmo tempo, o próprio movimento ganhou força com o passar dos dias, de certa forma forçando um maior espaço na mídia. Chega um momento, Christofoletti diz, que não há mais como “brigar com a notícia” e ignorar os fatos.

Um exemplo que demonstraria claramente que a mídia não esperava um movimento tão forte foi a passagem ao vivo de William Bonner, apresentador do Jornal Nacional, da Arena Castelão, em Fortaleza, falando sobre a Copa das Confederações. “Aquilo foi patético, a notícia não estava ali”, diz Christofoletti.

Um repórter que trabalhava na redação da Folha na capital paulista afirma que acredita que não houve má fé na “mudança de opinião”. “A Folha errou quando teve a infelicidade de não sacar o movimento logo no início.” Assim como Christofoletti, ele acredita que tanto a mudança no perfil dos manifestantes e dos protestos, quanto o fato dos próprios jornalistas apanharem da polícia podem ter contribuído para esta mudança de postura.

“Mas dificilmente farão uma retratação, talvez um editorial à la Jabor (referência aos comentários de Arnaldo Jabor – veja o primeiro e o segundo), mas acredito que provavelmente ela venha via ombudsman”, diz o repórter. Ele explica que, embora o editorial supostamente represente a posição do jornal, na Folha ele é escrito por sete pessoas que se reúnem diariamente para discutir possíveis temas. “Às vezes acaba saindo besteira dessa reunião.”

E essas besteiras podem prejudicar o trabalho dos próprios repórteres do jornal – ele lembra o editorial publicado em 2009 intitulado “Limites a Chávez” , que se referia a ditadura militar brasileira como “ditabranda”, e diz que até hoje quem cobre pautas que envolvem, por exemplo, a Comissão da Verdade, sofrem hostilidade das fontes.

Para Christofoletti, as coberturas indicam um problema maior, reflexo de uma mídia política partidária que não possui know-how (conhecimento, preparo) para cobrir movimentos sociais. Os jornais precisam ir além, rever conceitos e pautas, e não ficar só no superficial. Poderiam trazer, por exemplo, análises mais aprofundadas e reportagens de fôlego, tratando dos assuntos que estão sendo reivindicados pelos manifestantes, não se limitando à cobertura dos protestos em si. Em 1991 e 1992, com o movimento Fora Collor, a imprensa brasileira passou por mudanças importantes: do denuncismo ao desenvolvimento de um jornalismo investigativo. O mesmo poderia acontecer agora.

O professor diz acreditar que uma autocrítica por parte da mídia é necessária. “Atualmente as paredes são de vidro, principalmente por causa das redes sociais.” No caso da Folha, ele afirma que o jornal ainda não fez e será cobrado por isso, por causa da imagem que vem construindo desde os anos 80 de “jornal liberal”. “Não se espera o mesmo do Estadão, que sempre se declarou um jornal conservador.”

Apesar das críticas, Christofoletti avalia a cobertura da mídia como positiva, a partir do momento em que ela “vira”. Ele acredita que o ocorreu foi positivo tanto para a mídia quanto para o cidadão, que de certa forma se tornou mais crítico em relação ao que lê e vê.

Na segunda-feira, dia 24, o editor-executivo do jornal Folha de S. Paulo Sérgio Dávila respondeu a uma pergunta do Cotidiano por e-mail:

“A Folha não mudou o enfoque, os fatos é que mudaram e vêm mudando a cada dia. No início, houve vandalismo por parte de pequenos grupos de manifestantes — e a Folha relatou isso. Depois, houve uma reação violenta desproporcional da PM; de novo, o jornal contou o que viu. Por fim, o movimento tomou as ruas do Brasil com grandes grupos pacíficos e pequenos grupos que promoveram a violência e acabaram em choque com a polícia. Está tudo nas páginas do jornal.”


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