História, cultura e tradição pelas mãos de Tia Hilda

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*Entrevista produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição II, ministrada pela Profª. Dra. Tattiana Teixeira, em 2017.1

Dona Hilda era figura importante na cidade, especialmente no bairro Pântano do Sul onde realizava suas benzeduras. Foto: Eduardo Iarek

 

Não se sabe ao certo quantas pessoas já passaram pelas mãos de dona Hilda. Cheia de energias, a benzedeira de 104 anos continua exercendo a profissão que aprendeu com a mãe. De moradores da comunidade a estrangeiros, essa personagem nativa da Ilha de Santa Catarina já benzeu de médicos a Xuxa Meneghel, ela mesmo, a rainha dos baixinhos.

Viveu na casa de madeira ao lado do Bar do Arante, tradicional bar de Florianópolis, localizado no Pântano do Sul, extremo sul da Ilha. O falecido irmão de dona Hilda, Seu Arante, fundou o bar que agora está sob responsabilidade do Arantinho, seu filho.

Chegamos na casa da dona Hilda. Quem nos recebeu foi a filha, Maria Hilda. Logo na nossa chegada, apareceram duas meninas pedindo para serem benzidas. Depois de fazer o trabalho, a benzedeira caminhou em nossa direção, até os fundos de sua casa, onde nos atendeu.

 

 – Eu digo que não vou benzer mais agora. Quase morri, minha filha. Eu estive cinco dias na cama. O médico disse para eu parar de benzer um pouco. Mas agora que estou melhorzinha vou lá no Arante, eles me chamam “tia Hilda pra lá, tia Hilda pra cá”. Veio uma menina que o filho nasceu, eu benzi ela e ela fez um bom parto. Quando não é aqui é lá.

 

Pâmela Schreiner: Dona Hilda, quando a senhora começou a benzer?

A minha mãe era benzedeira. A minha mãe, meu avô, meu tio, todos benziam. Mas eu tinha uns dez, doze anos e ela estava benzendo, sabe? Depois, quando eu tinha uns quinze anos, aí eu já era moça, eu gostava muito de dançar. Eu dançava, dançava muito. Aí a mãe dizia “filha, não vai seguir as benzas da mãe?” e eu dizia “não mãe, eu quero dançar, não quero aprender não”. Mas eu sempre estava junto nas benzeduras dela. Eu nem posso saber quando eu aprendi certas benzeduras. Eu sei de tudo, das benzeduras. Aí eu fui benzendo, fui benzendo.

Eduardo Iarek: E que benzas a senhora aprendeu com a sua mãe?

Minha mãe ia benzendo e eu escutando as benzeduras dela. Aí eu aprendi a de calor de figo, que é para quando as pessoas têm umas coisas na perna, no rosto, que começa a arder, é só benzer. E tinha a da zipra. Da zipra é para quando as pessoas estão com o rosto assim (aponta para o próprio rosto, que está com feridas). Eu já estou com o rosto assim há dez anos. Já fui no médico perguntar se era câncer de pele e o médico “não tia Hilda, não é nada disso”. Estou passando uma pomada, mas tem uma coceira tamanha e daí eu benzo. Zipra é só benzer. Coceira na vista eu lavo com água da camomila, que é muito bom para a vista. Mas o médico disse que não tem perigo nenhum.

PS: Como é a benza da zipra, dona Hilda?

“Pedro Paulo foi a Roma, encontrou com Jesus Cristo, Jesus Cristo perguntou: que há por lá Pedro Paulo? Senhor, muita zipra, muita zipela. Volta lá Pedro Paulo, com que se cura a zipra, Senhor? Óleo de oliveira, a lã da carneira virgem. Isso mesmo se curaria com nome de Deus e da Virgem Maria, nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Essa é a da zipra.

(dona Hilda recita também a benza do cobreiro e a do calor de figo)

EI: O que as pessoas mais pedem para a senhora benzer?

Ah, diz que tem mau-olhado, não come. Mas quando estão carregados de coisa ruim é ruim!

PS: E dona Hilda, vem muita gente aqui pedir a sua benza?

Mas vem gente até de Portugal!

PS: Até de Portugal?

De Portugal, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de tudo quanto é lugar! De Portugal eu benzi seis mulheres! Ano passado elas vieram aqui. Essa gente de Portugal conhecia o Arantinho (sobrinho de dona Hilda, filho de Arante). A mulher de Portugal que eu benzi colocou uma nota de cem na minha mão. Mas aí eu falei “mas essa nota de cem eu não conheço não”. É a que tem a garoupa, né?

EI: O Arantinho traz pessoas para a senhora benzer?

O Arantinho já veio pedir para eu benzer. Um médico pediu para o Arantinho e o Arantinho me chamou para benzer. E eu disse “mas o senhor não é médico?” e ele me disse que era médico de doença e que eu era benzedeira de mau-olhado, queria que eu benzesse ele! Aí eu benzi.

EI: A senhora acredita em bruxaria?

Oh credo, as vezes chegam umas crianças aqui e falam pra mim: Tia Hilda, eu não durmo de noite. Aí eu mando elas botarem um alho, dois dentes de alho, embrulha embaixo do travesseiro que se a bruxas estiverem aborrecendo as crianças elas vão embora. Eu nunca vi, mas eu acredito pelo povo. Olha, as bruxas podem ser tu, podem ser eu, pode ser qualquer uma, nunca se sabe. Mas graças a Deus com as benzas as crianças dormem bem. As pessoas dizem “Dona Hilda, sua benza é muito forte”.

PS: Já confundiram a sua benza com bruxaria e coisas do tipo?

Eu sou benzedeira! Minha mãe dizia “quando é para benzer uma pessoa grande tu não benze! Mas se é um inocente pode benzer”. Uma vez eu benzi a Xuxa. Vocês conhecem a Xuxa?

EI: A Xuxa da televisão?

A Xuxa das crianças, não sei se é de televisão. Ela esteve aí, com um monte de gente não sei de onde. Aí me chamaram “tia Hilda, vem cá”. Um povo, um povo para ver essa Xuxa. Ninguém viu, só quem viu fui eu! Veio segurança, veio tudo. Aí eu peguei e disse assim “mas não querem que ninguém entre, como eu vou lá?”. O segurança me chamou “vem cá tia Hilda, estão te chamando ali dentro”. Aí eu fui e benzi a Xuxa.

EI: E tem registro disso, dona Hilda?

Tem. Ela tirou um retrato, que o Arante levou, fez um quadro grande. Está lá no Arante. (esse registro encontra-se no Bar do Arante. A foto data de 2013)

PS: O que a Xuxa queria que você benzesse?

Ah, ela pediu para eu benzer. O rapaz disse que ela casou porque eu benzi ela! Ela casou. Falaram que a Xuxa era solteira. Depois que a tia Hilda benzeu ela casou!

PS: Dona Hilda, a senhora está meio doente, certo? E mesmo assim continua benzendo?

Sim. Eu continuo benzendo porque o pessoal gosta muito de mim. Eu estou muito doente agora.

EI: E dona Hilda, a senhora já tem 104 anos. Qual o segredo dessa saúde? A senhora já foi benzida?

Não, não, nunca fui benzida. Perguntam porque eu tenho essa idade. No tempo que eu me criei, nós não comíamos carne e nem galinha. A gente só comia peixe! Só peixe, só peixe, só peixe! Era peixe assado, peixe cozido… batata, aipim, canjica. Minha mãe tirava muito milho para fazer canjica, para fazer papa. A gente comia muito caldo de peixe. Mas eu benzo muita gente carregada e eu sei que isso faz mal a mim, faz mal’a mim, é por isso que eu me benzo, eu me benzo com as minhas próprias mãos

 

Benzedeira desde a adolescência dona Hilda faleceu aos 104 anos no último dia 4 de setembro. Foto: Eduardo Iarek.

PS: A senhora pode contar mais sobre a sua infância?

Sim. A gente passava muita necessidade. Meu pai casou com a minha mãe, os dois eram viúvos. Meu pai teve cinco filhos com a minha mãe e teve uma filha com a outra mulher. Morreram dois filhos da minha mãe. Ficaram eu, a Maria e o Arante. Passamos muita necessidade, muita fome. Só Deus que sabe o que nós passamos naquele tempo! A minha mãe mandava a gente ir arcar com as nossas necessidades e a gente ia na casa dos vizinhos pedir uma comida, um pote de farinha. Se aquela pessoa emprestava nós saíamos muito contente e se não emprestava nós saíamos chorando. Eu me lembro disso tudo que eu passei!

EI: E a senhora já foi casada?

Eu me casei e fui muito feliz. Meu marido montou uma venda, eu estive 38 anos casada com ele! Mas eu não tive sorte. Meu marido ficou doente, me abandonou, foi embora para a cidade, arrumou uma amiga. E eu trabalhei nessa venda, trabalhei oito anos na Armação. Tinha fartura, todo mundo vinha aqui em casa. Daí eu fiquei chorando. Chorei três anos pelo meu marido! Eu fiquei com os nossos quatro filhos. Ele era muito bom para mim. Tratou muito bem as minhas filhas e os meus filhos.

PS: A senhora tem uma boa memória…

Ah, eu tenho! Eu me lembro de tudo, graças a Deus! Eu tenho 104 anos! Fiz agora na véspera do Natal. Eu fui registrada com 12, 14 anos. Eu teria 93 no registro, mas já tenho 104! Eu sei que eu tenho 104! Eu tinha uma amiga de 93 anos e ela dizia “Hilda, mas tu és bem mais velha que eu” e eu dizia “sou, sou, sou”. Eu tenho 104 anos!

EI: E a senhora cobra pela benzedura?

Eles perguntam “tia Hilda, quanto que é sua benzedura?”. A minha benzedura não é nada. Vocês dão o que vocês quiserem. Uma coisinha para mim. Ontem veio uma mulher aqui e eu benzi. Ela olhou para mim e falou “tia Hilda, está precisando de alguma coisa?”. Ah minha filha, o que eu estou precisando? A minha benzedura me trouxe muita fartura. Isso é muito bom para mim, muito bom. Eu não pedia nada. Já me trouxeram até mel de abelha. As pessoas vêm de muito longe e falam “a casa da tia Hilda é ali, pode ir ali que ela benze”.

PS: E a senhora sempre morou nessa casa?

Não. Eu era casada, meu marido já morreu. Eu já morei lá na Armação oito anos com meu marido. Depois morei em outras duas casas. Daí eu vim para essa casa.

EI: E qual sua relação com o Arante?

Eu ajudei a criar o Arantinho. Meus sobrinhos ali, todo mundo gosta de mim! Eles falam “Tia Hilda, tu fosse a nossa mãe, tu ajudasse muito nós”. Eu chego lá no Arantinho, eu peço de boca eles dão de mão. Eles dizem que “aqui também é da tia Hilda, o que ela quiser ela pode pegar!”.

PS: Dona Hilda, e as filhas da senhora também sabem benzer? A senhora vai ensinar?

Não, não. Nenhuma delas sabe, não sabem nem o pai nosso. Eu é que rezo pra elas toda noite. Eu rezo muito, muito, muito, pra Deus, peço muito a Deus que rogue pelas nossas almas no purgatório.

PS: E a senhora sempre foi pra missa?

Eu fui muito na missa, ia muito na igreja, mas agora eu nunca mais fui. Eu não vou porque eu começo a espirrar, espirrar, tenho uma tosse… Mas eu rezo muito pra eles. Tem vez que morre uma pessoa e eu vou lá na igreja, vou lá, rezo, tô lá. Mas assim como eu ia antes eu não vou mais. Eu rezo em casa, gosto muito de São Pedro, rezo muito pra Nossa Senhora Aparecida, São José, Santa Catarina, Pai Eterno, Nosso Senhor do Bom Fim, eu rezo pra isso tudo. Chega 6 horas eu já vou pro meu quarto rezar.

EI: E aquele sonho da senhora ser dançarina, a senhora ainda gosta de dançar?

Aaaah, eu danço ainda! Nesse carnaval que passou, nós montamos um salão lá na venda do Arante, mas o Arantinho não sabe dançar. Quando eu era separada, meu marido já tinha morrido, a gente fazia baile de véio. Me perguntavam: “O Dona Hilda, a senhora não é muito velha pra isso não?”. Não, não tem idade pra isso não, eu sou velha, eu sei que sou velha, eu sei fazer renda, faço renda e ainda venho pra cá [pra venda] pra ficarem fazendo fofoca, não.

PS: A senhora faz renda?

Eu faço renda, vendo renda da minha filha, ela vai trazer amanhã pra eu vender, mas eu vendo muita renda lá no Arante, eu tô velhinha mas eu faço. Eu fazia aquelas colcha grande, aquelas colcha bonita, eu ajudei a sustentar meu pai, a minha mãe e meus irmãos, mais a minha irmã tudo nas rendas. Nós saiamos daqui pra vender renda lá no Rio Tavares, chegava lá, não vendia e nós vinha pra cá cheia de fome, a fome queria matar. Roubamos, fomos presas, chegou o senhor que era delegado e conhecia meu pai “eu trouxe esses ladrão que estavam na lavreira de uva, roubando”. “Pois deixa, roubaram porque tavam com fome, solta elas”, aí soltaram. Eu me lembro disso tudo, fomos lá na casa de uma colega do meu pai, elas socaram e daí nós comemos carne assada com o pilão d’água, depois viemos embora. Nós passamos tanto trabalho. Era tudo muito difícil, ninguém tinha estudo, meu pai não tinha estudo, minha mãe não tinha estudo. Nós passamos por tanta dificuldade que vocês nem imaginam. Agora não, as pessoas são tudo aposentada, tá tudo bom e ainda reclamam da vida, né?!

EI: Dona Hilda, com todas as lembranças desse lugar, se alguém quisesse comprar a sua casa, a senhora venderia?

Muita gente fala “Dona Hilda, vende a sua casa” e eu falo “não, daqui só pro cemitério”. Eu tenho muito amor pela minha casa. A minha casa tem 47 anos. Meu compadre subiu lá em cima, disse que se eu durar 200 anos aqueles pau alí ainda vão estar tudo bom, não tem nada estragado. Deu uns temporais esses tempos e destruiu umas casas, deu um temporal mas eu não vi nada, peguei no sono, porque eu rezo muito pra eu dormir bem.

EI: Eu tenho muitos pesadelos durante a noite…

Pesadelos? Quando for dormir você cruza as pernas assim [mostra cruzando as canelas] uma por cima da outra. Eu também tinha muitos pesadelos que quase me matavam. Dorme de barriga pra cima que ele não tem como chegar, coloca uma perna em cima da outra que ele não chega mais.

PS: Queremos lhe agradecer muito por todas as histórias que a senhora tem pra contar, muito obrigada.

Cantar? Oh, minha filha, eu canto, eu rezo. Sempre pedem pra eu cantar, “tia Hilda, canta uma modinha aí pra nós”, eu pergunto se não vão ficar ofendido, dizem não, aí eu canto:

 

Eu não vou na tua casa

Tua casa tem ladeira

O teu pai é um homem bom

Tua mãe é faladeira.

 

É mesmo tia Hilda, minha mãe é faladeira, morriam de rir. A fala é uma coisa medonha:

 

Há 3 coisas no mundo

Que me faz bater o pé

O piolho da galinha

O ciúme da mulher.

 

Morrem de tanto rir, aí eu pergunto, vocês são casados? “Sim, dona Hilda, ele é meu marido”:

 

Teu marido é tão bonito

Que não tem comparação

Numa pia de água benta

No espaço molha a mão.

 

Essas moda é de muito antigamente.

 

Da janela do meu quarto

Avistei uma pessoa

Que namora as escondida

Não namora coisa boa.

 

É mesmo, tia Hilda.

 

Minha rica camarada

Não me use presunção

Vem a morte leva tudo

E me parte o coração.

 

Vem a morte leva tudo

Vem o caixão leva o corpo

Fica sabendo menino

Morre um pra benzer outro.

 

E não é? Não morre um pra benzer outro? É sim, morre um pra benzer outro.

 

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