Foto: Rodrigo Barbosa

Antonieta de Barros: o semblante do ativismo agora no Centro da Capital

Reportagem por Mariana Machado. Fotografia por Rodrigo Barbosa 

Quem circula pelas ruas do Centro do Florianópolis nas últimas semanas deve ter percebido um novo rosto marcando um dos prédios da cidade. A florianopolitana Antonieta de Barros se faz presente nos olhares de quem passa pela rua Tenente Silveira desde o dia 18 deste mês. Trata-se do terceiro mural do projeto Floripa Conecta. A obra, feita pelos artistas Thiago Valdi, Gugie e Tuane Ferreira, tem 32 metros de altura por nove de largura e levou dez dias para ser finalizada. A homenageada da vez, além de professora e jornalista, foi a primeira mulher negra a ser eleita no Brasil. Nos outros dois murais do projeto, os homenageados foram Franklin Cascaes e o poeta Cruz e Sousa.

Para fazer o mural, os artistas uniram as linguagens visuais de cada um. “Eu e o Thiago ambos fazemos retratos realistas, eu uso cores abstratas, então usamos as minhas cores e ele veio com a volumetria e luz e sombra para montar o retrato, e a Tuane veio com as mandalas para representar as rendas de bilro”, explica a artista visual Gugie.

O próximo projeto de Gugie se chama Janela do Futuro. A obra será feita na avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, no Estreito. “Ali é uma área de descarte de lixo irregular e quero inspirar com essa obra o movimento de vida simples, para falar sobre esse cuidado, retribuição com a nossa natureza. A modernidade acabou trazendo consequências para o meio ambiente como a gente vê no país afora”, conta a artista. 

Mas quem foi Antonieta de Barros? Com o que ela contribuiu para a sociedade?

Antonieta nasceu em Florianópolis, em 11 de julho de 1901 – apenas treze anos depois da abolição da escravidão. Teve uma infância muito pobre, já que sua mãe era uma escrava liberta e trabalhava como lavadeira, e se tornou órfã de pai muito cedo. Alfabetizada aos cinco anos de idade, concluiu os estudos primários (atual Ensino Fundamental) na Escola Lauro Müller –  – fundada em 1912, a escola funciona até os dias de hoje, no Centro de Florianópolis. 

Conseguiu ingressar aos dezessete anos, na Escola Normal Catarinense, formando-se professora de Português e Literatura em 1921 – um dos poucos cursos que permitiam a admissão de mulheres.

Para Antonieta, o sistema educacional apresentava falhas, uma delas sendo a falta de incentivo à continuação dos estudos, especialmente entre as mulheres e os mais pobres. Assim, em 1922, fundou o “Curso Particular Antonieta de Barros”, voltado para a alfabetização da população carente. 

Como jornalista, fundou os jornais A Semana (1922-1927) e Vida Ilhoa (1930) e escrevia sob o pseudônimo de Maria da Ilha. O livro Farrapos de Ideias (1937) reuniu seus artigos publicados no jornal República. Antonieta publicou também na Folha Acadêmica, O Idealista, Correio do Estado e O Estado. 

Na maioria de suas obras, a autora expressa sua preocupação com as diferenças sociais e com os papéis de gênero na sociedade, além reforçar a necessidade uma de suas maiores causas: a alfabetização. 

Através do jornalismo, ela disseminou suas ideias de igualdade de gênero, tendo integrado a Frente Brasileira para o Progresso Feminino.

Na primeira eleição em que as mulheres brasileiras puderam votar e se candidatar – após a conquista do voto feminino no Código Eleitoral de 1932 e sua incorporação na Constituição em 1934 -, Antonieta filiou-se ao Partido Liberal Catarinense, elegendo-se deputada estadual. 

A parlamentar participou como constituinte do estado em 1935, incorporando os capítulos sobre educação, cultura e funcionalismo e envolveu-se em debates sobre direitos civis, sociais e políticos. Durante a ditadura no Estado Novo, em 1937, seu mandato como deputada foi interrompido. Com o fim do regime, candidatou-se novamente a deputada estadual pelo Partido Social Democrático e foi reeleita em 1947.

As três principais causas da vida e luta de Antonieta permanecem pautas de extrema relevância, ainda longe de serem alcançadas completamente: educação para todos, reconhecimento e valorização da cultura negra e igualdade de gênero. Essas três causas refletem a importância de sua imagem estar no centro da cidade em que nasceu, onde centenas de pessoas passam por dia e podem refletir sobre essa mensagem.  

“É uma história importante estar evidenciada nos dias de hoje, porque é uma luta que continua, na educação e também na representatividade para as mulheres e para a comunidade negra”, ressalta Gugie. “Eu e a Tuane tínhamos essa motivação pessoal (em fazer o mural) por essa mulher forte que lutou pelo seu espaço no meio de tantos homens”, completa.  

Antonieta faleceu em 28 de março de 1952.

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