Escolas precisam de preparo e formação para lidar com alunos autistas

Texto: Ediane Mattos ( edimattos@gmail.com )
Foto: Arquivo pessoal de Sabrina D’Aquino

O autismo é uma síndrome que interfere diretamente na interação social e na comunicação. As causa ainda são desconhecidas e ele é mais comum no sexo masculino. As alterações no comportamento da criança aparecem até os 3 anos de vida, em alguns casos, já são perceptíveis nos primeiros meses. Isso faz com que a criança, bem como sua família, se isole do convívio com os demais. A inclusão através da escola, em contrapartida, possibilita uma interação entre crianças da mesma faixa etária, portadores da síndrome ou não, despertando o interesse das crianças autistas nas atividades, desenvolvendo a competência social e estimulando a socialização e também a questão educacional. Conforme o art. 54 doEstatuta da Criança e do Adolescente (ECA) é obrigação do Estado garantir atendimento educacional especializado às pessoas com deficiência preferencialmente na rede regular de ensino.

A convivência entre as crianças é uma maneira de diminuir o preconceito em relação à síndrome e seus portadores. A partir dessa interação social as crianças não autistas têm uma aprendizagem através da vivência com o diferente e desenvolvem o respeito às limitações do próximo. Para o autista, aprender a interagir com os demais não é uma questão fácil, porém não tem como ser diferente.  A vivência escolar tende a minimizar ou evitar problemas comportamentais, já que os autistas aprendem desde cedo que podem usar seu comportamento para controlar o meio.

foto2alteradadentroClique aqui e conheça a experiência do aluno autista Enzo

Inclusão através da escola

A Escola Maria Luiza de Melo, no Kobrasol, em São José atende cinco alunos autistas. O ingresso destes alunos é feito através de matrícula. A família apresenta o diagnóstico à escola que encaminha para o Núcleo de Educação Especial, Secretaria de Educação Especial, onde será avaliado se o aluno terá direito ao auxiliar de ensino de educação especial, ou, o segundo professor. Essa decisão depende do grau de autismo.
Além das aulas regulares, a escola possui uma sala multimeios, implantada em 2011, onde as crianças com necessidades especiais recebem atendimento individual duas vezes por semana, com duração de 1h30 cada. O trabalho desenvolvido é complementar ao que é praticado em sala de aula. São feitas simulações através de jogos educativos, brincadeiras, uso de computador com tecnologia assistida tendo como objetivo desenvolver a capacidade motora, psicomotricidade e o raciocínio lógico da criança especial.

Para a orientadora educacional da escola, Hellen Cristine Liz, a participação da família é fator importante, pois o trabalho deve ser desenvolvido em conjunto. Quando a criança não está frequentando o Atendimento Educacional Especializado (AEE),  a professora Cida Castro, do Atendimento, entra em contato com a família para saber os motivos da ausência da criança. “O envolvimento por parte da família está sendo satisfatório. A participação dos pais em conjunto com a escola é necessária para manter a rotina do autista”. Como é um apoio, a família pode optar pela não participação da criança nos atendimentos individuais e é necessário uma carta pedindo este cancelamento. A expectativa de alguns pais quando levam a criança à escola é que ela aprenda a ler e escrever, mas Cida explica que “no caso de um autista, dependendo do grau, nós priorizamos a socialização dele. A expectativa dos pais não está de acordo com o que a criança pode desenvolver”.

Estranheza e curiosidade 

A presença de uma criança autista no meio escolar pode causar estranheza nos colegas, mas também desperta uma curiosidade. “As crianças não autistas querem estar perto, querem ajudar, são solidários. Elas perguntam por que o amiguinho é assim, por que ele não faz isso, não faz aquilo, pelo fato de não conhecerem e não entenderem as limitações do outro”. A professora conta que “em sala eles interagem, ajudam nas atividades em grupo. Não há problemas na relação entre as crianças, elas querem brincar, não tem nenhum preconceito enraizado”.

Uma grande problema está na falta de estrutura física da escola, que teve que ir se adaptando. “As mudanças começaram a surgir com a chegada deles (alunos especiais). A sala do AEE era um depósito, não tem janela e nem banheiro. A nossa maior dificuldade é a falta de estrutura. A inclusão dos alunos especiais já deve ser pensada na hora de construir o prédio”, segundo a professora. Some-se a isso a burocracia para conseguir recursos e a demora com licitações.“O AEE só se tornou possível depois de muita espera, mas está montada e temos um material pedagógico muito bom”. Outro problema é a preparação dos professores que atendem esses alunos. Hellen acredita que “os cursos não são suficientes e deveriam ser para todos os professores, não somente ao professor auxiliar de ensino, mas para o regente de sala também. Para não criar dentro das escolas um grupo especializado em educação especial e permitir que a inclusão seja geral”.

Antes de cada aluno ingressar na escola é feito um estudo de caso para saber a avaliação da psicóloga, dos médicos, da fonoaudiologa e psicopedagoga e com isso conseguir um vínculo com o autista e ter um trabalho mais eficaz. “A gente vai atrás, pesquisa, busca se informar, mas tudo que lê é muito parecido e repetitivo. Não tem um estudo aprofundado”, declara Cida, “eu tenho dificuldades de saber se o aluno tem condições de desenvolver mais”.

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