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Antonieta de Barros: o semblante do ativismo agora no Centro da Capital

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Reportagem por Mariana Machado (mar071999@gmail.com). Fotografia por Rodrigo Barbosa (rodrigobpp@hotmail.com).

 

Foto: Rodrigo Barbosa

Foto: Rodrigo Barbosa

 

Quem circula pelas ruas do Centro do Florianópolis nas últimas semanas deve ter percebido um novo rosto marcando um dos prédios da cidade. A florianopolitana Antonieta de Barros se faz presente nos olhares de quem passa pela rua Tenente Silveira desde o dia 18 deste mês. Trata-se do terceiro mural do projeto Floripa Conecta. A obra, feita pelos artistas Thiago Valdi, Gugie e Tuane Ferreira, tem 32 metros de altura por nove de largura e levou dez dias para ser finalizada. A homenageada da vez, além de professora e jornalista, foi a primeira mulher negra a ser eleita no Brasil. Nos outros dois murais do projeto, os homenageados foram Franklin Cascaes e o poeta Cruz e Sousa.

 

Para fazer o mural, os artistas uniram as linguagens visuais de cada um. “Eu e o Thiago ambos fazemos retratos realistas, eu uso cores abstratas, então usamos as minhas cores e ele veio com a volumetria e luz e sombra para montar o retrato, e a Tuane veio com as mandalas para representar as rendas de bilro”, explica a artista visual Gugie.

 

O próximo projeto de Gugie se chama Janela do Futuro. A obra será feita na avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, no Estreito. “Ali é uma área de descarte de lixo irregular e quero inspirar com essa obra o movimento de vida simples, para falar sobre esse cuidado, retribuição com a nossa natureza. A modernidade acabou trazendo consequências para o meio ambiente como a gente vê no país afora”, conta a artista. 

Mas quem foi Antonieta de Barros? Com o que ela contribuiu para a sociedade?

Antonieta nasceu em Florianópolis, em 11 de julho de 1901 – apenas treze anos depois da abolição da escravidão. Teve uma infância muito pobre, já que sua mãe era uma escrava liberta e trabalhava como lavadeira, e se tornou órfã de pai muito cedo. Alfabetizada aos cinco anos de idade, concluiu os estudos primários (atual Ensino Fundamental) na Escola Lauro Müller –  – fundada em 1912, a escola funciona até os dias de hoje, no Centro de Florianópolis. 

Conseguiu ingressar aos dezessete anos, na Escola Normal Catarinense, formando-se professora de Português e Literatura em 1921 – um dos poucos cursos que permitiam a admissão de mulheres.

Para Antonieta, o sistema educacional apresentava falhas, uma delas sendo a falta de incentivo à continuação dos estudos, especialmente entre as mulheres e os mais pobres. Assim, em 1922, fundou o “Curso Particular Antonieta de Barros”, voltado para a alfabetização da população carente. 

 

Como jornalista, fundou os jornais A Semana (1922-1927) e Vida Ilhoa (1930) e escrevia sob o pseudônimo de Maria da Ilha. O livro Farrapos de Ideias (1937) reuniu seus artigos publicados no jornal República. Antonieta publicou também na Folha Acadêmica, O Idealista, Correio do Estado e O Estado. 

Na maioria de suas obras, a autora expressa sua preocupação com as diferenças sociais e com os papéis de gênero na sociedade, além reforçar a necessidade uma de suas maiores causas: a alfabetização. 

Através do jornalismo, ela disseminou suas ideias de igualdade de gênero, tendo integrado a Frente Brasileira para o Progresso Feminino.

 

Na primeira eleição em que as mulheres brasileiras puderam votar e se candidatar – após a conquista do voto feminino no Código Eleitoral de 1932 e sua incorporação na Constituição em 1934 -, Antonieta filiou-se ao Partido Liberal Catarinense, elegendo-se deputada estadual. 

A parlamentar participou como constituinte do estado em 1935, incorporando os capítulos sobre educação, cultura e funcionalismo e envolveu-se em debates sobre direitos civis, sociais e políticos. Durante a ditadura no Estado Novo, em 1937, seu mandato como deputada foi interrompido. Com o fim do regime, candidatou-se novamente a deputada estadual pelo Partido Social Democrático e foi reeleita em 1947.

 

As três principais causas da vida e luta de Antonieta permanecem pautas de extrema relevância, ainda longe de serem alcançadas completamente: educação para todos, reconhecimento e valorização da cultura negra e igualdade de gênero. Essas três causas refletem a importância de sua imagem estar no centro da cidade em que nasceu, onde centenas de pessoas passam por dia e podem refletir sobre essa mensagem.  

“É uma história importante estar evidenciada nos dias de hoje, porque é uma luta que continua, na educação e também na representatividade para as mulheres e para a comunidade negra”, ressalta Gugie. “Eu e a Tuane tínhamos essa motivação pessoal (em fazer o mural) por essa mulher forte que lutou pelo seu espaço no meio de tantos homens”, completa.  

Antonieta faleceu em 28 de março de 1952.