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Sinapse Musical

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Por Dana Serafim  – danaserafim2@gmail.com 

* Reportagem produzida para a disciplina Apuração, Redação e Edição V, ministrada pela Profa. Melina de la Barrera Ayres em 2019.1

 

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A musicoterapeuta Ana Léa Maranhão interage com o paciente Felipi | Foto: Dana Serafim

 

O primeiro encanto

Passei anos da minha infância maravilhada com o dedilhar do violão, o movimento sincronizado dos instrumentos e a destreza manual oferecida pela música. Anos em que era apenas ouvinte. O interesse por aprender a tocar um instrumento chegou aos cinco anos, quando ganhei meu primeiro violão. Mas a curiosidade de uma criança pode mudar rapidamente, e foi o que aconteceu comigo. Os anos passaram, não fiz nenhuma aula de música, e o violão primogênito só foi tocado pela poeira da garagem de casa. Apesar do abandono, eu ainda continuava muito envolvida pela música.  

A conexão que sentia quando cantava com amigos, ou ao ouvir uma canção, sempre mexiam com meus sentidos. Frequentemente, me questionava a razão pela qual os estímulos musicais desencadeavam alguns  sentimentos. Essa mesma pergunta tem sido feita por cientistas e filósofos há séculos, levando em conta que humanos são seres universalmente atraídos pelos sons. Porque a música, ahh!, a música acalma, marca momentos especiais,  cria uma unidade de sensações, e gera empatia entre as pessoas. 

Por volta dos meus 15 anos, voltou à tona a vontade de tocar instrumentos. Dessa vez, resolvi começar pelo ukulele, um instrumento de origem havaiana considerado uma mistura do violão com banjo, de quatro cordas. Valeu a pena, estava determinada a aprender e, mesmo sem professor, seguindo tutoriais na internet, comecei a praticar os acordes, a posição dos dedos, as batidas e, de cifra em cifra, tudo ficava um pouco mais simples. Depois de encarar o ukulele, resolvi me desafiar mais uma vez no violão. Com a cognição musical mais aguçada, o aprendizado pareceu fluir naturalmente. É curioso perceber como o cérebro irrompe reações, e adquire facilidade em transformar as informações que recebe com o ritmo da melodia. 

Inclusive, enquanto escrevo, já fiz algumas [muitas] pausas por aqui. A cada parágrafo, paro para tocar os acordes que vêm à cabeça até a inspiração de escrever voltar. Não penso, sinto. Como é bom ver que o corpo atende e responde ao som. Em instantes, retomo o raciocínio e sigo no parágrafo seguinte. Lá vou eu, mais uma vez…. 

 

O que acontece no cérebro?

Na Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, foi realizado um estudo que comprovou diferenças na anatomia cerebral de pessoas que tocam instrumentos e daquelas que não desenvolveram tal habilidade. Como mostrou a pesquisa, quem toca possui um número maior de conexões entre os dois hemisférios do cérebro, o que lhes permite trabalhar  juntos e ter um processamento mais eficiente.

Foi assim que o músico Wagner Magnus, 24 anos, aprendeu a tocar instrumentos. Depois de fazer curso de violão por três anos, desenvolveu o aprendizado autodidata para tocar guitarra, bateria, teclado, cajón, entre outros. “A principal diferença que eu percebi, do antes para o depois de aprender a tocar violão, foi a velocidade de receber uma informação, porque comecei a ter uma resposta mais rápida. Na música, por exemplo, existem as partituras e cifras e, sempre que eu pego uma música nova, eu já consigo automaticamente acompanhar no violão”, relatou Wagner, enquanto conversávamos no estúdio que montou em sua casa. O espaço é tomado por instrumentos e troféus de concursos musicais.

 Neste ambiente reservado para música, conversamos sobre como, para ele, é estar  no outro lado do aprendizado musical. Há alguns meses, em paralelo à carreira de programador, Wagner começou a oferecer cursos de violão.  “É muito interessante esse processo, como professor, de tentar entender a dificuldade do aluno e adaptar o exercício para fazer ele evoluir mais rapidamente. Com o tempo e muita prática, eu oriento o aluno a ir aumentando a velocidade dos exercícios, até fazer o movimento [no violão] sem pensar”.

Esta agilidade adquirida pela música também pode estar presente nas atividades mais comuns do cotidiano. Para a jornalista Ana Cristina Machado, 23 anos, sua habilidade com instrumentos – como violão e guitarra – tem influência, sobretudo, na percepção para editar vídeos. “Quando preciso editar algum material que tem trilha sonora, o fato de ter conhecimento musical facilita na hora de fazer o corte das imagens. Se você já tem uma noção mais apurada de ritmo, isso facilita muito na edição, e fica melhor a qualidade do trabalho”.

Por falar nisso, dia desses editei uma reportagem audiovisual sobre uma percussão de instrumentos totalmente reciclados. Lembrei, de imediato, a escuta dessa experiência compartilhada por Ana Cristina. Abri o projeto no programa de edição, para sincronizar a “BG” (música de fundo) com o restante das imagens. O resultado final foi um vídeo carregado de ritmo, e ainda alinhado à linguagem musical proposta pela matéria. Inconscientemente, a influência da música se fez presente na edição, com o toque compassado do cérebro.

 

Ensino musical x Musicoterapia

O contato com a música pode ser estimulado desde a infância, trazendo  benefícios ao desenvolvimento das crianças. É o caso de Luiz Antônio que, com dois anos de idade, participa de aulas de violino. A mãe, Sayonara Lizton, 33 anos, considera importante o aprendizado de um instrumento para melhorar a concentração do filho e diminuir sua agitação. “A música faz muito bem não apenas para o intelecto, como para o comportamento e a alma. Por isso nossa vontade de pôr logo desde cedo. O progresso acontece aos poucos, mas a gente já percebe que ele consegue reter melhor a atenção nas aulas. O que é incrível!”.

A educação musical, assim como a recebida nas aulas de violino pelo pequeno Luiz Antônio, muitas vezes é confundida com a musicoterapia. Ambas não se contradizem, até estão muito próximas, porém, possuem enfoques diferentes. Na educação musical o foco é pedagógico e, na musicoterapia, é terapêutico. “É uma forma de tratamento que utiliza os sons, músicas e a expressão nas mais variadas formas, com métodos e técnicas próprias. A musicoterapia é eficaz nos mais diversos quadros: deficiências, problemas emocionais, familiares, sociais, nas áreas da saúde, educação, e também na profilaxia”, explica a musicoterapeuta Ana Léa Maranhão.

Mundialmente, há um vasto reconhecimento pelos resultados obtidos por meio das técnicas musicoterapêuticas. No Brasil, os tratamentos são oferecidos em várias cidades, na rede pública de saúde, em escolas, empresas, consultórios e clínicas particulares. Atualmente, no ensino superior brasileiro, as graduações e pós-graduações na área devem ter suas grades curriculares reconhecidas pela União Brasileira de Musicoterapia (UBAM) e pelo Ministério da Educação (MEC). 

Na busca por conhecer melhor as vertentes dessa terapia musical, procurei em uma plataforma da internet por “musicoterapia em Florianópolis”. Apenas dois resultados da pesquisa mostraram clínicas que oferecem o tratamento na cidade. Em uma delas, fui recebida pela musicoterapeuta Ana Léa, para  acompanhar uma de suas consultas. 

Chocalhos, violões, apitos, cajón, pandeiro, triângulo, xilofone, guizo e teclado, foram alguns dos instrumentos que encontrei na sala de atendimento. Ao entrarmos na sala, Ana pediu que eu tirasse meu calçado. Fiquei de meias. O chão do lugar é preenchido com tapetes de espuma coloridos, para que o paciente possa interagir naquele espaço da maneira que preferir. A intenção é criar um ambiente descontraído, sem amarras. O que chamou minha atenção, além de todos os acessórios ali dispostos, foi uma parede espelhada. Ana explicou a importância do reflexo do espelho durante a terapia que, segundo ela, desenvolve também o “apoio visual”.  

O primeiro paciente do período vespertino chegou ao consultório às 14h. Felipi, 4 anos, entrou no corredor acompanhado da mãe e do irmão mais velho.  Ele olhou para todos os cantos da sala e fugiu dos olhos expressivos de Ana, evitando o contato visual. Felipi recebeu o diagnóstico de autismo por apresentar alguns dos sintomas principais deste transtorno, como estereotipia (repetição de movimentos que não agregam conhecimento cognitivo), não-vocalização e desvio do olhar. 

O instrumento que cativa o menino é o violão. Ao entrar na sala, ele fez gestos para que Ana tocasse sua canção favorita: “[…] o sapo não lava o pé, não lava porque não quer […]”. Mesmo sem verbalizar por completo, Felipi reagia com encanto ao toque das cordas do violão, imerso no ritmo, ia completando a letra da música com ênfase nas sílabas finais de cada palavra. “Ele me pede para tocar essa sempre, em todas as aulas. É apaixonado pelo violão”, conta Ana.

Um dos exercícios trabalhados na musicoterapia é o da percepção espacial e sensorial. Para desenvolver esta aptidão em seus pacientes, Ana utiliza uma pulseira de guizo  [objeto oco de metal] em cada braço do paciente. O efeito dos metais, movimentando-se na pulseira, provoca um som específico, que prende a atenção das crianças. 

No caso de Felipi, que parou de movimentar a mão direita após ter uma infecção por meningite no primeiro ano de vida, o tratamento com a pulseira de guizos o fez voltar a utilizar – aos poucos – algumas funções com a destra.  “Quando ele marcha pela sala e mexe as mãos, está escutando a origem do movimento. Assim, a gente consegue englobar o raciocínio em diversas áreas do cérebro”, explica Ana.

Voltando à sala de atendimento, nos minutos finais da consulta, Felipi já se sentia habituado aos sons corporais e vocais que exercitara. Havia interagido com uma variedade de instrumentos, e o cansaço físico já começava a se expressar em sua aparência, por conta do esforço motor e cognitivo. Na saída, quando ele estava a caminho da sala ao lado, para sessão com a fonoaudióloga, ganhei um abraço de despedida. Porém, outro gesto maior me tocou: quando os olhos de Felipi encontraram os meus, atentos e sem fuga. Em quase uma hora de terapia, a visão do menino fitava apenas objetos e paredes. Captar seu olhar, ainda que por segundos, significou algo muito precioso para mim. No mesmo instante, pude perceber no semblante de Ana a sensação de recompensa, por ter na musicoterapia o meio para recuperar momentos como esses na vida de seus pacientes. 

 

No ritmo da inspiração

A música é tocada, toca e é tocante. Os sons nos invadem e transformam nosso agir e pensar. Seja como terapia, seja como ensino musical, as funcionalidades da música estão atreladas a nossas atividades cerebrais.  Uma explosão de sinapses acontece quando estamos ouvindo uma canção, ou praticando um instrumento musical. Talvez seja por isso que tantos músicos projetam seu futuro inseparáveis da música. “Eu me vejo aposentado e numa sala gravando músicas, editando, criando diferentes riffs [pequenos trechos executados na guitarra]. Acho que tudo que envolve criação é um combustível para o ser humano, que gosta de escrever, cantar, e de estar sempre inovando”, descreve Wagner. 

Inovação. Sim, uma das principais formas de alimentarmos nosso cérebro. A todo instante, vibrações musicais estimulam nosso raciocínio a conhecer o desconhecido. Tal reflexão se desenrola após outra pausa. O ritmo das minhas mãos no teclado do computador, ao escrever as linhas desta reportagem, migram para as batidas do violão e do ukulele. Alterno os instrumentos, deixando-me ser consumida pelos sons. O intervalo necessário para abastecer a mente. Inconscientemente, a sinapse musical toma conta e o cérebro toca sua própria música.