“O prédio está desmoronando, e a gente desmorona junto”: Como é a vida na Moradia Estudantil da UFSC
Conheça a realidade de uma política de assistência essencial para garantir a permanência de alunos de baixa renda na universidade
Reportagem e fotos por Isadora Dymow
Sem família por perto, sem teto e sem dinheiro: é assim que uma boa parte dos estudantes calouros se encontram quando chegam à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para garantir que esses alunos consigam se manter até a conquista do diploma, são fundamentais as políticas de permanência estudantis.

A Moradia Estudantil é um dos principais exemplos dessas políticas. A disponibilidade desse benefício, no entanto, não cresceu na mesma medida que os estudantes que precisam dela.
Segundo o último Edital de Programas Assistenciais da PRAE, podem concorrer a uma vaga na moradia estudantil alunos regularmente matriculados em algum curso do Campus Florianópolis da UFSC, com renda bruta de até 1,5 salário mínimo, e que não possua familiares residentes na Grande Florianópolis.
Muitas pessoas preenchem os requisitos estipulados, mas não são atendidas. De acordo com o Relatório da Coordenadoria de Planejamento do Espaço Físico da UFSC, publicado no segundo semestre de 2023, cerca de 1.653 novos estudantes possuem demanda por alguma política de moradia a cada semestre. No entanto, apenas 10 vagas foram abertas para residência na moradia estudantil no primeiro semestre de 2024.
Além da falta de vagas, a Casa do Estudante Universitário (CEU) possui a mesma estrutura há mais de 10 anos, incluindo problemas de infraestrutura, segurança e convivência. Os crescentes cortes de verbas das universidades federais impactaram diretamente a moradia estudantil, que não possui verba própria, e depende do orçamento total da universidade. As reformas e reparos necessários para manutenção do local estão cada vez mais escassos, o que reflete na vida pessoal e coletiva dos moradores da casa.
VIVÊNCIA NA MORADIA
Na altura do número 700 da rua Desembargador Vitor Lima, entre os bairros Trindade e Carvoeira, se encontra o condomínio que, para alguns, pode passar despercebido. Mostrando suas grandes janelas e paredes bege ao longo de seus cinco andares, os dois prédios da CEU são a casa de pouco mais de 150 estudantes que estudam no campus Trindade da UFSC.

Os quartos da moradia estudantil são compartilhados, com duas camas em cada um. Em todos os casos, dois quartos dividem uma cozinha entre si, e nos quartos do bloco mais antigo, se divide também o banheiro. Há áreas comuns no prédio, como sala de estudos, lavanderia e hall de entrada.
A administração da moradia é responsabilidade do Departamento de Gestão da Moradia da Pró-Reitoria de Permanência e Assuntos Estudantis, a PRAE. A gestão é compartilhada com o Conselho de Moradia, uma comissão composta por servidores e moradores.
As normas de convivência são estabelecidas pelo Regimento Interno da moradia (Resolução 006/CUn/2003). Nele, estão previstas as regras basilares de convivência do espaço, os direitos e deveres dos moradores. O regimento foi elaborado na inauguração do primeiro prédio da atual moradia estudantil, em abril de 2003. Desde então, não houve alterações no documento.
A vivência coletiva na moradia estudantil se diferencia das experiências em residências comuns. “Viver em coletivo pode ser uma grande oportunidade, mas também um fardo a se carregar”, afirma a moradora Júlia*.
Os desafios da convivência coletiva são ainda maiores quando há diferenças culturais. Para residir na moradia estudantil, um dos pré-requisitos é não ter familiares residindo na grande Florianópolis, o que gera uma grande diversidade cultural entre os residentes da CEU.
Nessas condições, pequenos hábitos podem gerar grandes conflitos. Ao dividirem quartos, pessoas com costumes diferentes nem sempre chegam a acordos em relação a ações “simples”, como fechar a janela ou apagar a luz.
De acordo com a PRAE, esses problemas são comuns na convivência e são a razão da maior parte dos conflitos que ocorrem na CEU. As desavenças são tratadas pelo Conselho da Moradia, que pode solicitar a assinatura de um termo de compromisso para evitar a reincidência do conflito.
Alguns estudantes relatam que a ocorrência dos conflitos “triviais” aumentou, e que os desentendimentos entre as pessoas de diferentes origens culturais têm gerado uma antipatia com o “diferente”. Na moradia estudantil, são frequentes os desentendimentos entre pessoas oriundas de estados diferentes, indígenas, imigrantes de países africanos e pessoas com diferentes religiões.
Júlia diz que uma das alternativas que o conselho tem oferecido para amenizar os problemas de convivência é sugerir que pessoas com hábitos similares dividam os quartos. “É provável que toda pessoa tenha ao menos algum amigo ou alguém com crenças e princípios similares no prédio”, afirma.
Quando questionada sobre suas responsabilidades em relação aos problemas da moradia, a PRAE afirmou que não é responsável pela resolução de conflitos na moradia. Ainda que a pró-reitoria possa intervir em casos extremos, a direção da PRAE disse que “Conflitos são inerentes à convivência humana”, e que “não podem tutelar as relações”. A pró-reitoria também afirmou que seu papel é orientar os estudantes a procurar seus direitos.
No entanto, para outros moradores, os problemas de convivência são consequência da estrutura dos quartos. Sendo duas pessoas por quarto, e todos os quartos dividindo a cozinha, significa que há ao menos quatro pessoas dividindo uma cozinha, e entre duas e quatro dividindo um banheiro.
A divisão, porém, pode ser entre mais pessoas, já que é comum que moradores abriguem visitas, fazendo com que em alguns momentos mais de seis pessoas compartilhem as áreas comuns.

As dificuldades de infraestrutura não são apenas dos quartos, mas de todo o prédio. A lavanderia é um local que concentra diferentes problemas, como a falta de máquinas, risco de acidentes e frequência de roubos.
Das cerca de 15 máquinas existentes, apenas três operam parcialmente. A PRAE confirmou que fez o pedido de compra de seis novas máquinas, que deveriam chegar em 16 de maio. Segundo moradores, as máquinas chegaram na primeira semana de julho.


No piso da lavanderia, há muitas partes quebradas e os buracos oferecem risco para quem precisa estender suas roupas. César*, morador da CEU, conta que quase se acidentou duas vezes no local.


Os recorrentes furtos de peças de roupa são um problema com penalidade prevista em regimento, e que denunciam, para além de uma insuficiência de medidas de prevenção desses casos, a falta de segurança na moradia.
Os pedidos dos moradores por mais medidas de segurança são feitos há tempo, mas nem sempre são atendidos. Contratação de mais porteiros, instalação de cercas no terreno e de câmeras de segurança são algumas das reivindicações dos estudantes. A PRAE explica que não toma decisões diretamente, e que para todas as mudanças é preciso enviar um pedido à Secretaria de Planejamento e Orçamento da UFSC (SEPLAN).

Outro problema é a estrutura de saneamento subterrânea da CEU, que não movimenta água e com isso cria um ambiente propício para proliferação do mosquito da dengue.
Bruno*, residente do local, conta que coletou mosquitos que apareceram em seu quarto e enviou para um laboratório. “Das 67 amostras, 61 eram mosquitos Aedes aegypti. Eu peguei dengue duas vezes”.
A pandemia também foi um momento difícil para os moradores. Além da transferência de quartos ter sido proibida, muitos alunos não tinham para onde ir, e ficaram sozinhos durante esse tempo. “A pandemia significou um abandono da UFSC não só com o prédio, mas com os moradores”, afirma Vinícius*, morador da CEU.
Há também problemas de infraestrutura recorrentes, como goteiras e infiltrações, e placas hidrotermais, que se encontram na cobertura dos prédios, e não funcionam. Segundo Vinícius, “elas funcionaram durante seis meses, depois nunca mais”.



A acessibilidade na moradia também é uma dificuldade. O elevador frequentemente precisa de reparo, e passa grande parte do tempo em manutenção. A rampa principal impede cadeirantes de subirem sozinhos, e a recorrente obstrução dos corredores com objetos de moradores atrapalha a mobilidade de pessoas com deficiências físicas e de visão.

A relação dos moradores da CEU com o espaço em que vivem difere significativamente da experiência em residências comuns. Estudantes como Vinícius entendem que “a qualidade do espaço influencia diretamente na saúde física e mental dos moradores”. Outros relatam um sentimento de invisibilização dos estudantes que residem nela. “Não seria tão difícil resolver esses problemas se a UFSC notasse que nós existimos”, afirma César.
Marina*, outra residente da moradia estudantil, explicou que a infraestrutura da CEU influencia sua experiência universitária. “O prédio está desmoronando, e a gente desmorona junto.”
A REALIDADE DA UNIVERSIDADE
“A moradia é, para mim, uma grande oportunidade.” A frase dita pelo estudante Marcos* demonstra um sentimento compartilhado por muitos outros moradores da CEU.
Dois estudantes entrevistados contaram que antes de conseguir a vaga na moradia estudantil, estavam em situação de rua, e não conseguiriam estudar tranquilamente sem o benefício.
De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das IFEs, de 2018, quase metade dos alunos participantes do levantamento (47,6%) realizavam as principais refeições do dia no Restaurante Universitário e 10.427 possuíam ou participavam de alguma ação do Programa de Assistência Estudantil.
Quem não consegue vaga, pode solicitar à PRAE o auxílio-moradia. O benefício é de R$300 mensais e os critérios para seleção são similares aos da moradia. O preço médio do metro quadrado do bairro Trindade (localização do campus central da UFSC) é R$ 47,80, segundo o índice FipeZap, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Isso significa que o benefício pagaria o aluguel de um imóvel de cerca de 6,27m².
Os relatórios da PRAE mostram que os auxílios são insuficientes para a UFSC. Em 2023, 1.173 estudantes concorreram às 600 vagas de auxílio-moradia, e 227 pessoas disputaram as 63 vagas na moradia estudantil. No caso da vaga na moradia estudantil, a renda dos estudantes selecionados em 2023 variou de zero a R$ 25, enquanto a dos aprovados para a política de auxílio-moradia variou entre zero e R$ 754,11.
Estudantes de baixa renda também podem concorrer à Bolsa Estudantil, benefício que concede R$ 919,48 mensais aos bolsistas (até 2023, o valor era de R$ 878,88). No primeiro semestre de 2024, foram oferecidas 50 novas bolsas estudantis, 120 a menos que a quantidade disponível no semestre anterior.
Ao todo, em 2023, 1.736 estudantes foram beneficiados pela Bolsa Estudantil, o segundo menor número nos últimos 10 anos.

O número de bolsas ainda contrasta com o número de estudantes da graduação, que sofreu oscilações nos últimos anos. No gráfico abaixo é possível perceber que mesmo nos momentos de aumento de estudantes, as bolsas estudantis não acompanharam a demanda.

A gradual mudança do perfil dos estudantes da UFSC também é um fator a ser levado em consideração. Desde a aplicação da Lei de Cotas (nº 12.711/2012) na UFSC, a quantidade de estudantes em vulnerabilidade socioeconômica aumentou, mas as políticas de permanência da universidade não seguiram o mesmo padrão. A exemplo, tem-se a redução de 1.962 bolsas estudantis sendo pagas mensalmente em 2013 (quando a Lei de Cotas recém fora aplicada), para 1.736 bolsas mensais pagas em 2023.
A insuficiência das políticas de assistência é um problema existente dentro e fora da universidade. A diretora do Departamento de Permanência Estudantil da PRAE, Mayara Furtado, afirma que os benefícios dependem das condições socioeconômicas. “As políticas de assistência têm como objetivo a permanência na universidade e o estudo, mas não necessariamente a Universidade vai dar conta de todas as demandas dessa pessoa, que já deveria ter acesso a direitos em outros setores”, afirma.
Mayara acrescentou que a falta de orçamento da UFSC impacta diretamente na qualidade da moradia estudantil: “A moradia não tem um orçamento específico, tudo entra na conta geral da UFSC. A SEPLAN faz o requerimento desse recurso, mas com bloqueios de verbas que a universidade tem sofrido, a gente não tem recebido nenhum.”
A HISTÓRIA DA MORADIA
A história da moradia da UFSC coincide com a de movimentos estudantis. As primeiras moradias universitárias consistiam em casas alugadas no centro de Florianópolis, no início da década de 1960. Na época, as moradias eram ligadas à Igreja Católica, e administradas pelo governo do Estado. As casas dividiam os alunos por sexo feminino e masculino.
Em 1981, a Secretaria de Educação de Santa Catarina rompeu com o pagamento dos alugueis das casas, e promoveu uma ação de despejo dos estudantes. Sem ter onde morar, os alunos ocuparam uma casa abandonada, localizada no campus Trindade da UFSC. Assim, foi fundada a primeira moradia estudantil mista, que, com o apoio do Diretório Central dos Estudantes (DCE), foi eventualmente regulamentada pela Universidade, e serviu de moradia até 2020.
Em 1987, houve uma nova tentativa de despejo de casas, dessa vez da casa universitária feminina, que abrigava 23 moradoras. Revoltadas com a situação, as estudantes acamparam em frente à reitoria e reivindicaram a permanência. A Reitoria acatou os pedidos das alunas e assumiu a responsabilidade do pagamento do aluguel.
Ainda na década de 1980, um projeto de moradia estudantil foi elaborado, mas acabou nunca sendo executado em sua totalidade. A planta contava com cinco blocos de apartamentos, e 1.400 vagas.

Em 1994, foi inaugurado o Centro Comunitário Estudantil, que pouco tempo depois se tornou a moradia das estudantes que residiam no centro da cidade. A construção corresponde ao atual módulo III da Moradia estudantil, que hoje não está sendo utilizado.
O primeiro prédio destinado à moradia foi construído em 2003. Uma década depois foi construído o segundo bloco, dos cinco imaginados para abrigar estudantes da UFSC.
“Nos fazem pensar que isso aqui é um presente, ou um tipo de esmola. Mas se você ver a história de como isso aqui se edificou e observar esses tijolos, essas pilastras e esse chão, você vai ver que tudo isso é proporcionado pela luta do movimento estudantil. Os estudantes, junto com o DCE, foram quem fizeram isso acontecer”, afirma Vinicius.

*Os nomes dos entrevistados foram trocados por nomes fictícios para preservar a identidade dos moradores