Kerexu Yxapyry, liderança do povo Guarani e candidata a deputada federal nas eleições de 2022. Foto: Rodrigo Barbosa

Kerexu: conheça a primeira cacica Guarani reconhecida no Brasil

Em entrevista exclusiva ao Cotidiano, a liderança indígena Kerexu Yxapyry conta sobre sua trajetória política e prioridades de luta

Reportagem de Ísis Leites, Jucelino Filho e Rodrigo Barbosa

Kerexu Yxapyry é uma liderança da Terra Indígena Morro dos Cavalos, localizada em Palhoça/SC. Foi a primeira Cacica Guarani reconhecida no Brasil. É gestora ambiental formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),

professora e referência internacional na luta pela preservação do meio ambiente e direitos dos povos originários. Ela também é coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa e está na atual Coordenação Executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). 

Nas últimas eleições nacionais, Kerexu se candidatou à Deputada Federal por Santa Catarina pelo PSOL. Obteve 35 mil votos, sendo 16 mil em Florianópolis – a quarta candidatura mais votada da capital catarinense. Sua votação representa 60% dos votos recebidos por seu partido no pleito. Apesar da marca expressiva, não assumirá uma cadeira na Câmara dos Deputados no ano que vem, pois o PSOL-SC não atingiu o quociente eleitoral (número mínimo de votos para que determinado partido eleja um candidato). Apesar disso, as eleições de 2022 consolidam Kerexu como uma das principais lideranças da esquerda em Santa Catarina.

Em entrevista exclusiva para o Cotidiano, Kerexu conta sua trajetória de luta que começa a partir da Educação, em 2007. Naquele ano, quando trabalhava como professora, a Secretaria de Educação proibiu que rituais de plantio tradicionais das aldeias fossem utilizados como forma de aprendizado nas escolas indígenas. O Cacique da época decidiu brigar pelo respeito ao modo de vida e de educação dos povos indígenas e assim, o grupo começou a trabalhar num currículo escolar específico do Povo Guarani. 

“Foi onde a gente pegou as problemáticas e colocou como eixos principais do Projeto Político Pedagógico. E quando a gente apresentou isso dentro daquela estrutura que se pede, dentro do sistema, a gente conseguiu implementar o primeiro Projeto Político Pedagógico indígena no Estado de Santa Catarina.”

Escola Indígena Itaty, no Morro dos Cavalos, recebeu o primeiro Projeto Político Pedagógico Indígena de Santa Catarina. Foto: Rodrigo Barbosa

A partir do seu trabalho e sucesso na área da Educação, Kerexu foi escolhida pela comunidade do Morro dos Cavalos para ser Cacica. O desafio, no entanto, era muito maior dessa vez. Além de enfrentar impasses para garantir acesso educacional, a liderança da comunidade também inclui a defesa da terra e o enfrentamento contínuo de ataques violentos à aldeia.

“Eu não sabia sobre o processo demarcatório, questão fundiária, processo de demarcação… Foi assim que eu tive que correr para entender, porque a minha função ali era fazer a defesa da terra. E eu fui aprendendo com o tempo, buscando formação. A partir do momento que eu começo a entender, eu começo a fazer cobranças nos departamentos, a resolver o problema de um processo que estava paralisado.  Mas quando eu começo a desenrolar o processo demarcatório, vem um outro lugar de conflito e de perseguição, que é do próprio Estado. Onde eu passo anos sendo ameaçada e perseguida. Desde 2012, até 2014 e 2015 foram momentos bem intensos, que a Aldeia era invadida, as pessoas cercavam minha casa durante a noite, atiravam… Fazendo todo tipo de tortura psicológica, intimidação e várias ameaças.”

Em sua trajetória como Cacica do Povo Guarani, Kerexu já passou por batalhas enormes. Sabotagem nos canos de abastecimento da comunidade, invasão dos territórios, intimidação e a pior de todas: o ataque direto a sua mãe, que teve a mão decepada por invasores da Terra Indígena.

“Aqui a gente teve, por exemplo, os canos que abastecem a aldeia todos cortados, invadiram pra cortar. Teve também uma casa, em 2015, que foi invadida por umas 30 pessoas e foram 24 horas de tensão. Essas 30 pessoas chegaram e depois chegaram mais pessoas, aqui próximo da BR. A gente chamou a polícia. Mas era véspera de feriado, então a gente teve que se mobilizar muito para não acontecer algo pior. E não tinha uma ordem judicial, porque o juiz não estava, já que era feriado. Isso foi o que segurou a BR e a polícia, que ficou ali plantada 24 horas ali. Foram momentos bem tensos.

Em 2017, isso piora para nós. No mesmo lugar em que a casa foi invadida, quem morava ali era minha mãe, teve de novo um ataque. No mesmo dia – dia 2 de novembro que é véspera de feriado. Nesse dia pegaram a minha mãe, nesse ataque ela teve a mão esquerda decepada. Minha mãe não morreu por milagre. Ela mora comigo hoje, mas ela perdeu a mão dela.

Nesse período para mim foram momentos de desespero. Porque eu já tinha saído, quando a minha família começou a receber ameaças. Mas as ameaças primeiro eram para cima de mim. Então eu comecei a fazer as denúncias e comecei a ter um monitoramento de várias pessoas que me acompanham. Todo mundo fica com o foco ligado em mim. Só que aí as pessoas não podiam fazer o que eles faziam. A polícia ficava de plantão, às vezes finais de semana e feriado, na frente da minha casa. Isso para que nada pudesse acontecer. Mas a minha família ficou vulnerável, meus filhos começaram a receber ameaças, meus pais e meus irmãos começaram a ser ameaçados.”

Dona Ivete, mãe de Kerexu. Foto: Rodrigo Barbosa

Ver a vida da mãe destroçada, a família ameaçada, fez com que Kerexu entregasse o cargo de Cacica. Desesperada, sem amparo do Estado, da Justiça, a líder do Povo Guarani se vê num ponto onde, sair do seu local equivale a desestruturar a família e a comunidade, e ficar, demanda bater de frente com o perigo. 

Kerexu faz do medo, força e decide então ficar e se candidatar à deputada federal pelo Estado de Santa Catarina, com o objetivo de trazer visibilidade para a causa indígena. 35 mil votos depois, é possível dizer que a meta foi alcançada. 

Então nesse dia que minha mãe sofre ataque, em 2017, nesse desespero eu não sei mais o que eu faço da minha vida. Eu não sei se vou embora, para onde vou e se eu for, eu sei que tenho que levar toda a minha comunidade. Porque toda minha comunidade é minha família, então é preciso um espaço grande para acolher essa família. E eu sei que a minha família iria sofrer, que tinha trabalho na aldeia. Seria desestruturar uma comunidade, então eu ficava muito nesse lugar de desespero.

Lá fora a gente não teve nenhuma investigação, nenhum amparo. Está diretamente relacionado à questão do território, que é o foco principal do conflito, mas também às famílias. Então sempre é a liderança que vai ficar com a proteção, que é muito necessária. Então nesse momento de desespero eu fico pensando o que que eu faço da minha vida. Eu não era mais Cacica, mas acontece que se eu continuasse aqui, eu pensei: vou ter que me envolver porque se eu não me envolver no processo demarcatório, a gente corre o risco de perder esse território. E aí são mais famílias, que vão estar expostas.

Então não tinha muito o que fazer. Tinha um medo muito forte assim que assolava toda a família e toda a comunidade. E eu já tinha recebido em outros momentos o convite para me apresentar como candidata. Eu nunca quis me envolver com isso, só que dessa vez eu falei: eu vou e quero ir, muito para dar essa visibilidade, para me mostrar como uma pessoa política e expor os problemas para fora. Então eu aceito esse desafio de política partidária e me coloco como candidata.”

Kerexu se fortalece e escreve seu nome como uma das lideranças indígenas que estão formando a frente de resistência da atualidade. Frente esta formada principalmente por mulheres que assumem papel decisivo dentro do movimento. 

As mulheres trouxeram uma superação, uma fortaleza muito grande dentro de todo esse processo. Eu não sei nem expressar como que nós nos colocamos nesse lugar de enfrentamento e de atuação. Tanto no governo quanto no período da pandemia, no pico maior do coronavírus. Mas a gente conseguiu passar por esses quatro anos de governo e dois mais tensos com a pandemia, desse retrocesso total das políticas de direito dos povos indígenas.

E aí foi quando nós indígenas fomos para essa linha de frente e fizemos o enfrentamento dentro do Supremo Tribunal Federal. Porque não tinha outro lugar, porque a Funai foi desmontada, o Ministério da Justiça também. Todas as regionais da Funai foram tomadas pelos militares, a SESAI e a Educação também, todos os lugares.

Então as mulheres indígenas fazem o levante da luta do Reflorestarmentes, em 2021, no dia 7 de setembro. Nós estávamos cercados em Brasília quando fomos fazer a segunda Marcha das Mulheres Indígenas. Era um período também que estava tendo a votação do Marco Temporal, a gente tava lá. E para nós, mulheres, foi um momento de refletir sobre a ação do governo contra os povos indígenas e principalmente contra as mulheres. Isso se deu por causa dessa ação da Marcha das Mulheres e das ameaças que sofremos, como ficar cercadas em Brasília e não poder sair para lugar nenhum porque nós estávamos expostas a sofrer qualquer tipo de violência ali. Mas a gente também dizia que é com essa potência que as mulheres indígenas se colocaram nesse lugar de dizer assim ‘venham, que nós estamos aqui’, e as pessoas vinham. Seja nessa forma de chegar junto ou na forma de fazer ameaças. E nós conseguimos fazer essa resistência, essa marcha no dia 8. A gente não foi lá no Supremo Tribunal Federal, mas a gente conseguiu fazer a Marcha das Mulheres. Foi um espaço bem simbólico, onde tinha sido queimado Galdino Pataxó. Naquela praça onde ele sofreu, a gente fez um lado que para nós fortaleceu bastante nosso movimento. E hoje a mulherada tá aí também lançando o projeto da Bancada do Cocar, para aldear a política.”

Além da presença em Brasília, mulheres Guarani também se mobilizaram contra o Marco Temporal em Florianópolis, em 1º de setembro de 2021. No mesmo dia, a tese do Marco era votada pelo STF. Foto: Rodrigo Barbosa

Assim como outros movimentos no Brasil, o movimento indígena se vê obrigado a ocupar os espaços do Legislativo por falta de representantes de suas causas. 

“Então nesse momento, o movimento indígena para e começa a refletir e falar ‘nós precisamos ocupar esses espaços’, porque somos nós que temos que fazer por nós mesmos, ninguém vai fazer. Naquele momento a gente já começa a dialogar sobre esse espaço, a fazer a ocupação desses espaços.

Em 2017, foram feitos todos os ataques que sempre aconteceram, principalmente sobre o povo Guarani Kaiowá, que é o que sofre todo governo, entra e sai governo. O povo Guarani Kaiowá é o que lava a terra com sangue o tempo todo. Então conversamos, mobilizamos. E em 2018, então foi o grupo de vários candidatos que se apresentaram, de vários lugares e vários partidos. Entram nessa ideia de ocupar esses espaços. E Joênia Wapichana é nossa primeira candidata, nossa primeira deputada federal que ocupa o Congresso Nacional.

A gente viu a potência, porque ela vai com esse coletivo dos povos indígenas e representa muito bem. E a gente vê também que dentro desse trabalho da Joênia, ela consegue fazer um trabalho de liderança como deputada. Que é trabalhar um coletivo mobilizado dentro do Congresso Nacional, que vem à frente parlamentar para fazer toda essa discussão.

Então agora em 2022, a gente faz o chamado de novo. A gente faz o chamado de retomar o Brasil e aldear a política.

Retomar o Brasil é uma das propostas do movimento indígena de retomar todos os direitos que nós conquistamos até agora e que estão paralisados, independente de governo que entrar. Esse é um objetivo do movimento indígena de retomar todos os processos de demarcações de terra, dar continuidade a tudo que a gente conquistou até agora, essa retomada do Brasil.

Aldear a política é ocupar esses espaços. Dentro do Congresso Nacional, nas assembleias legislativas, dentro desses Ministérios, da FUNAI, da SESAI, da Educação do meio ambiente. Porque a gente tá preparado para ocupar esses espaços, nós estamos preparados para assumir esses lugares da mesma forma, ou melhor do que qualquer outro profissional que esteja ligado diretamente nessas áreas. Porque nós somos de base, a gente sofre os ataques, a gente vai para as Universidades, a gente se forma nas universidades e a gente faz a luta lá diante das instituições, dos órgãos governamentais, das criações de leis. Então nós temos essa capacidade. A gente também falou que a gente cedeu muito palco do Acampamento Terra Livre, do movimento indígena, para vários candidatos, vários políticos que chegaram e levaram voto em massa dos povos indígenas, mas nunca houve esse espaço para nós.”
 

Entre as pautas defendidas pelo movimento indígena em Santa Catarina e, mais especificamente, por Kerexu, está a valorização e o respeito à Educação Indígena.

“A proposta da aldeia, na criação do Ensino Médio, é criar um ensino específico com o modelo da educação do campo. Que exista um período maior, o período integral, mas seja um período com divisão escolar e comunitária. Que é aquele momento que o aluno vai pra dentro da terra indígena e faz a atividade de pesquisa. Tem muita coisa da educação que, para nós, a gente precisa segurar. Porque a gente teve um avanço nas conquistas desde a Constituição, a LDB e pareceres que foram criados pelos povos indígenas aqui em Santa Catarina, mas hoje a gente tem sofrido um retrocesso.

 Para mim, como professora e como liderança, é preciso atualizar o Sistema Nacional de Educação. Porque ele é um sistema muito atrasado, é um sistema falido que não funciona mais. Nós estamos numa era, que é a era da tecnologia, que é da informação muito mais rápida. 

Vou dar um exemplo, da escola que estuda com livros didáticos e traz a história do Brasil dizendo que o Brasil foi ‘descoberto’ em 1500. Hoje quando se olha dentro das informações dos próprios indígenas falando, todo mundo explica que o Brasil foi invadido, mostrando que se tem uma uma negação de direito muito forte.

Por exemplo, dizem ‘existiam povos indígenas aqui’, no passado. Aí os povos indígenas estão na sua frente de luta falando ‘estamos aqui’ e fazendo essas denúncias. Então é esse tipo de conflito que hoje o Sistema Nacional de Educação não consegue carregar mais e provoca esse conflito entre gerações mesmo.”

Mesmo ganhando força, elegendo candidatos e conquistando espaços nas esferas político partidárias do Brasil, Kerexu esclarece que o movimento indígena ainda luta muito para ser visto com respeito dentro dos próprios partidos que os recebem e nas coligações que se colocam em favor das mesmas causas.

Existe um olhar para os povos indígenas que é o da incapacidade indígena. Esse olhar é o que me incomoda muito e é o que a gente tenta a todo tempo desconstruir. Aquele olhar de ‘ah é um índio que tá ali, que legal’, como se fosse um objeto que está sendo colocado ali para enfeitar, para chamar atenção.

O que a gente quer construir é que existe um candidato indígena que é político, que vai fazer a mesma luta que qualquer outro político tá fazendo, mas ele vai fazer como um indígena. E que o partido e todos que estão envolvidos nesse partido estejam juntos nessa construção da luta política nesse lugar. Então aqui em Santa Catarina, nós temos dialogado muito sobre isso, tanto dentro da esfera estadual, quanto do Senado. Também a gente faz muito a cobrança, aqui em Santa Catarina, de trazer a visibilidade e o atendimento dos povos indígenas no Estado de Santa Catarina.

Então a gente tem vários desafios. Aí nós temos a primeira questão: as demarcações das terras. Tem também a discussão sobre o agronegócio e os impactos que tem causado nos territórios indígenas, e não só dentro dos territórios indígenas, mas no território ambiental também. E nas políticas públicas do Estado de Santa Catarina, por exemplo, as escolas indígenas. Todas elas estão vinculadas à educação estadual. Ainda, a criação de um atendimento específico para os povos indígenas na parte da saúde, que é um lugar que não existe para nós – nem no município nem no Estado.

Eu acredito muito, sabe? Mas, dentro dessas discussões eu sofro muito, tenho muitas decepções. Quando a gente fala algo, a gente precisa insistir, discutir, explicar e exigir para que isso seja contemplado. Dentro dessa questão dos direitos indígenas, então, eu sofro muitas decepções. Mas eu vejo que é um lugar que está sendo construído. E eu acredito que precisa mais, ainda acredito que precisa ter mais indígenas envolvidos para que a gente consiga se fortalecer.”