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Sonho desfeito: casal goiano perde a esperança de construir futuro em Portugal

Nicolas e Lívia migraram almejando qualidade de vida, mas encontram impedimentos burocráticos motivados pela xenofobia

Reportagem por Iara Rocha

Cartaz do partido português Chega, de extrema direita, durante a campanha presidencial do líder André Ventura. Foto: Jochen Faget/DW

O motorista de aplicativo Nicolas*, de 43 anos, pegou o primeiro passageiro do dia após tomar café da manhã com sua esposa, Lívia*, de 36 anos. Ele trabalha de segunda à sábado, das 8h às 23h, mas também costuma cobrir alguns trabalhos como transfer, e busca seus clientes diretamente no Aeroporto da cidade de Faro. Na saída do local, ele lê um outdoor que diz “A prioridade são os portugueses”, em cores verde e vermelho, com uma foto de André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega. Quanto mais os veículos se aproximam da cidade, mais outdoors com mensagens de desincentivo a imigração podem ser encontrados. Ao lado da rodovia, a mensagem “Os imigrantes não podem viver de subsídios”, grita. Para ele, a xenofobia está presente todos os dias. 

Em 2022, Nicolas teve a sua casa invadida pela terceira vez no bairro Buena Vista em Goiânia (GO), com a televisão e materiais de trabalho roubados. “Eu já estava cansado de me reinventar. Sempre alguma situação me fazia voltar a batalhar tudo de novo pelo  que eu tinha conquistado”. Desmotivado com a insegurança em que vivia, decidiu mudar-se para Faro, capital da região sul de Portugal, chamada Algarve. Ele e sua esposa, Lívia, entraram no país como turistas em outubro daquele ano, visitaram a pequena cidade de 60 mil habitantes e decidiram tentar a imigração portuguesa. 

Nicolas permaneceu, mas Lívia voltou ao Brasil. O plano era que Nicolas procuraria trabalho e um espaço alugado para os dois, enquanto sua esposa solicitava os documentos do visto de trabalho português. Para eles, a chance de  conseguir a legalização de imigrante estava com Lívia que, uma vez com o visto em mãos, poderia solicitar o ‘reagrupamento familiar’.

Em janeiro de 2023, Lívia voltou à Faro, agora com um visto de trabalho válido por dois anos. O reagrupamento familiar foi uma ilusão. Nicolas esperou um ano e meio após a manifestação da imigração, que não chegou. O governo português, representado pela agência de imigração portuguesa AIMA, justificou a impossibilidade do visto de Nicolas por ‘falta de vagas’. A saída encontrada foi o pedido de autorização de residência à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização internacional formada entre países lusófonos desde 1996. Em menos de uma semana após a solicitação feita, Nicolas recebeu, por carta, uma autorização em folha A4, que assegurava sua situação legal no país com validade de um ano.

Nicolas e Lívia integraram os quase 500 mil brasileiros migrantes em Portugal, segundo o último relatório publicado pela AIMA no final de 2024. Esse número representa 31,4% do número total de estrangeiros no país. Para quem entra em Portugal com visto de trabalho, é concedido um prazo de 180 dias de prazo para conseguir um emprego. Somente após a obtenção de um vínculo profissional e a conclusão do processo de regularização é que a autorização de residência é validada. 

No segundo dia em Faro, Nicolas começou a trabalhar como transfer, nome dado ao motorista contratado previamente por turistas ou visitantes a trabalho em lugar estrangeiro. Com o salário de seu primeiro emprego, conseguiu comprar o próprio carro e fundar uma empresa na área de transporte privado urbano, a mesma categoria do aplicativo Uber. “Aqui não existe um vínculo direto entre o motorista e o aplicativo, é necessário ter uma empresa registrada com licença específica para prestar serviços de transporte”. A empresa aberta por Nicolas e sua esposa paga impostos a cada três meses. O valor equivale a 6% de todas as corridas efetuadas.

Como renda complementar, ele continua prestando serviços de transfer através de outras empresas. Já Lívia trabalha como atendente de uma loja em um shopping da cidade, depois de prestar serviço em uma empresa de limpeza nos seus primeiros meses no país.

Lívia está, atualmente, regular no país, mas Nicolas segue em uma disputa há quase dois anos por documentos válidos. Após uma espera de seis meses desde um novo pedido de residência, o Estado enviou uma resposta negativa a Nicolas em julho do ano passado, justificada pela falta de verba do motorista, ao alegar que ele não conseguiria prover sua manutenção financeira no país. “A questão é que eu sou um empresário, tenho um veículo, uma renda mensal e recebo de duas a três vezes o que um cidadão português costuma receber”, defende-se. A média salarial da região de Algarve é de 1.054 euros, um valor aproximado de 6,5 mil reais na cotação de 5,85 reais por Euro**.

Nicolas recebeu um prazo de 48 horas para atualizar os dados financeiros no sistema on-line da AIMA. Ele resgatou todos os documentos chamados ‘recibo verde’ que obtinha, um tipo de documento fiscal para trabalhadores autônomos no país, e o comprovante de imposto português, chamado IRS. A partir do envio dos documentos e o pagamento de uma taxa de aproximadamente 35 euros (R$ 205), o Estado prevê 90 dias úteis para envio de uma nova resposta. Esta devolução de documentos foi efetuada por Nicolas em 21 de julho de 2025, e em julho de 2026 ainda espera seu cartão de residência.

Em novembro, após a expiração do prazo dado pelo Estado para envio de uma nova resposta, Nicolas enviou uma solicitação pelo email da AIMA cobrando uma devolutiva sobre sua situação legal, mas continuou sem qualquer retorno. As ligações não são atendidas, e a instituição não tem outras formas de contato. “Não tem para onde correr”. 

O visto de Lívia venceu em janeiro de 2025, mas a renovação só foi enviada em janeiro deste ano. Esse documento garante sua permanência no país até 2028. “O processo de checar o que já foi checado até no Brasil não tem sentido. Minha esposa trabalha no mesmo local, não tem nenhum tipo de mudança que poderia chamar atenção do Estado para que esse processo demore um ano”, destaca Nicolas.

O casal tinha expectativas pessoais e financeiras. Primeiro, expandir a frota de carros na empresa. Depois, comprar uma casa na região de Faro. Mas, o medo da negativa do visto os impede de dar qualquer passo adiante. Se um dia investir era um sonho, atualmente planejar a vida em Portugal não tem mais sentido para o casal. “Como que eu vou investir mais, se a qualquer momento pode chegar uma carta para mim falando que eu tenho 20 dias para sair do país? A gente não sabe o dia de amanhã”. 

Em maio do ano passado, o Estado português enviou uma carta a 18 mil imigrantes solicitando a saída voluntária do país em um prazo de 20 dias, a partir da negativa do Estado referente ao visto de residência. António Leitão Amaro, ministro da Presidência de Portugal e responsável por anunciar a medida, justificou que era preciso regular a situação migratória e reduzir a sobrecarga da AIMA.

“A gente anda perdendo em todas as partes. A falta de documento limita em vários âmbitos. Eu não posso sair de Portugal ou ter um dia de turismo, porque minha residência não me dá direito de sair do país”. Até a data da renovação do visto de Lívia, ela também não podia deixar o país.

Em janeiro deste ano, ainda sem uma resposta em mãos, o motorista decidiu contratar um advogado e abrir uma ação contra a AIMA. “Foram 600 euros (R$ 3.550) para solicitar que meu direito seja cumprido”.

Área Pessoal do website da agência AIMA, em 3 de janeiro de 2026, que mostra o estado do processo para obtenção de residência de Nicolas. Créditos: Arquivo pessoal.

O primeiro objetivo de Nicolas após conseguir um emprego era alugar um imóvel. Ele explica que o Algarve é uma região com alta procura por residências, seja por portugueses ou imigrantes, interessados pela vida costeira. No entanto, diz que o espaço conta com poucas casas e os preços aumentam rapidamente. Esse cenário, onde há muitos interessados para poucas locações, já com valores elevados, reflete em uma procura desgastante por aluguel, a qual Nicolas não esperava enfrentar.

Em Portugal, existe a opção de negociar o aluguel diretamente com quem aloca, sem a necessidade de uma negociação intermediada por uma imobiliária. A partir do contato com o proprietário, algumas datas são ofertadas para a visita. Ao agendar um horário, uma situação se repetia: além dele, outras quatro ou cinco pessoas, entre imigrantes e portugueses, também estavam interessados pelo mesmo local. Nicolas percebia como os arrendatários tinham uma prioridade clara entre os possíveis inquilinos, referente sempre à nacionalidade. De acordo com ele, em primeiro lugar na lista, estariam os britânicos, seguidos dos irlandeses ou outras nacionalidades europeias, e em terceiro lugar, os portugueses. Depois, os brasileiros, seguidos das nacionalidades africanas e, por último, os indianos.

“Foi bem desanimador. A gente está competindo [por um aluguel]. A primeira coisa que eles criticam é que você é brasileiro, e eu não tinha esse preconceito, não carregava isso ainda, nem sabia que existia dessa forma”. Nicolas percebeu como a negativa baseada em sua nacionalidade era frequente após cada entrevista, sendo muitas vezes o único argumento contra seu possível arrendamento. “Me disseram durante uma visita, ‘eu não vou alugar para você porque já tive problemas com outros brasileiros, de me roubarem até as lâmpadas da casa’. É terrível”.

Depois de três meses visitando diariamente apartamentos, quartos e casas, Nicolas só conseguiu alugar um espaço após ser indicado à atual proprietária do imóvel, por um amigo português. O casal reside em um apartamento composto por um quarto, cozinha, sala e banheiro, um aluguel categorizado como ‘tipologia T1’ pela imobiliária portuguesa. Na região do Algarve, o preço médio para um aluguel de categoria T1 fica na faixa dos 850 euros (R$ 4.975). 

Em 2022, Nicolas começou pagando um aluguel mensal de 600 euros (R$ 3.515), e no ano seguinte, 650 (R$ 3.805). “Um dos acordos [com a proprietária] era não declarar totalmente a mensalidade do aluguel com a Receita Federal. Para ser benéfico para ela, a gente declara um valor a menos e eu pago a mais”. Apesar do acordo, o valor do aluguel onde mora é abaixo do preço médio encontrado na região. Em novembro do ano passado, a proprietária aumentou o preço do aluguel para 700 euros (R$ 4.100). 

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal, em relatório divulgado em outubro de 2025, a região do Algarve acumula o segundo maior valor médio de aluguel por metro quadrado do país, abaixo apenas da Grande Lisboa. O valor mediano das vendas por m² em alojamentos familiares em Grande Lisboa alcançou os 3.403 euros, seguido pelo valor de 3.123 euros da região do Algarve. Este valor corresponde a aproximadamente 18.280 reais. Em comparação ao salário mensal definido pelo Estado, quando Nicolas chegou em Portugal, em 2022, o salário-mínimo do país era de 705 euros (R$ 4.125) ao mês. Este ano, o salário-mínimo mensal está em 920 euros (R$ 5.385).

Discriminação é cotidiano

“Toda semana que eu passo prestando serviço pro próprio povo português alguém vira pra mim e fala ‘volta pra sua terra’. Infelizmente, é o meu cotidiano”. Depois de enfrentar tantos episódios xenofóbicos, Nicolas está emocionalmente abalado. Para ele, a discriminação vem se tornando algo banal, até normalizado. “As situações estão se agravando cada vez mais. Eu vim em busca de qualidade de vida, não faço nada para ninguém, só quero continuar meu trabalho, fazer meu dinheiro e seguir minha vida. Mas, do nada, alguém vira para você e te ofende”.

Desde o início dos planos de mudança para Portugal, Nicolas sabia que seria difícil, como costuma acontecer em qualquer experiência de imigração. Ele e Lívia sabiam do preconceito que poderiam enfrentar e dos riscos envolvidos, mas a violência vivida no cotidiano se mostrou mais intensa do que esperavam. Para não se afetar ainda mais, Nicolas precisou sair das suas redes sociais e parar de consumir qualquer conteúdo referente a Portugal pela quantidade de comentários xenófobos que encontrava. Quanto mais lia, mais indignado ficava.

“A gente acha que pode superar, até deixar de conseguir. A gente se depara com tanta porrada, preconceito, xenofobia, tantos absurdos do dia a dia, que é ridículo. Os comentários nas redes sociais nada mais são que um reflexo do povo”. Nicolas enfrentava uma falsa sensação de estar blindado, alheio aos sentimentos que a xenofobia podia provocar-lhe. Até o momento em que a naturalidade do discurso xenofóbico começou a assustar. “Parece que eles não conseguem ver como tudo isso é surreal. Essa situação vai moldando a gente de uma forma, até chegar um momento de querer discutir para ver se abre a mente deles, mas não adianta”.

Na avaliação do goiano, foi com a força da extrema-direita no país que o preconceito se intensificou. “Isso é a junção da ignorância do Chega com a ignorância do cidadão português, por que é esse tipo de discurso [xenofóbico] que eles querem ouvir”. Para ele, o partido Chega ganhou força no país após insistir na estratégia política de apoiar os posicionamentos xenofóbicos de potenciais eleitores.

O partido de extrema-direita português, o Chega, foi fundado por André Ventura em 2019 como um “partido nacional, conservador, liberal e personalista”, de acordo com o seu manifesto político. Desde o princípio, os discursos de seus membros são abertamente anti-imigração, por exemplo, ao atrelar o aumento da violência e a crise de moradia no país aos imigrantes em Portugal. “A gente esbarra todos os dias com a realidade da extrema direita”.

Após um endurecimento da política imigratória do país em julho e a aprovação da nova lei de Estrangeiros em outubro do ano passado, muitas portas de acesso ao país foram fechadas ou endurecidas. “O imigrante perdeu grande parte dos seus direitos, adquiridos em anos, em pouquíssimo tempo”. Agora, todo cidadão de países lusófonos deve entrar no país com visto, sem possibilidade de entrada como turista e solicitação em Portugal. O processo realizado por Nicolas para obter seu primeiro visto de residência, a partir do grupo CPLP, foi extinto. A manifestação de interesse como turista e a possibilidade de reagrupamento familiar também foram revogados. Além disso, a obtenção da cidadania foi dificultada, com um aumento de cinco para sete anos no país para a sua obtenção.

“Hoje a AIMA é, para mim, como um órgão estadual vinculado à direita, que funciona como um ICE dos Estados Unidos”, explica em referência ao serviço de fiscalização e imigração norte-americano, que vem ganhando popularidade pela violência com que trata a população migrante do país. “A AIMA reflete bem o pensamento de direita e isso cada vez mais deixa uma visão estranha, porque parece que o Estado está moldado pra esse lado”.

As mudanças bruscas no regime migratório do país representaram uma alteração profunda no projeto de vida de Nicolas e Lívia. “A segurança de qualquer futuro planejado anteriormente foi totalmente perdida. Se a gente veio um dia pensando em conseguir uma nacionalidade em cinco anos, esse prazo já aumentou, por exemplo”. Ele teme que, depois de esperar sete anos pela possibilidade de obter a cidadania portuguesa, o Estado altere novamente as regras e amplie ainda mais o período mínimo de permanência no país. “Essa insegurança é terrível. Vai se tornando menos prazeroso de estar aqui”.

O casal cogita sair de Portugal, mas só quando não tiverem mais meios de resolver a situação. “A gente tá em um navio sendo empurrado pela maré e tentando fazer o possível para continuar sobrevivendo”. Nicolas planeja permanecer na Europa, e continuar buscando o que procurava quando chegou em Portugal: estabilidade e segurança.

*Os nomes das fontes foram modificados para preservar sua segurança.

**Os valores em euro foram atualizados em 09/07/2026.

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