Projeto Repescar minimiza impactos da pesca fantasma e fortalece saberes tradicionais em Florianópolis
Iniciativa transforma redes de pesca descartadas no mar em esponjas de limpeza e sacolas a partir do conhecimento de redeiros e rendeiras
Por Camila Borges
Daniella Kolb, fundadora do Projeto Repescar, segura redes de pesca resgatadas em alto mar. Foto: Arquivo pessoal.
Fome, asfixia, ferimentos, amputação e morte de animais marinhos são consequências do descarte de equipamentos de pesca no oceano. Esses materiais geram a chamada pesca fantasma, que pode ser responsável por 30% do declínio de espécies no mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU). Diariamente, na costa brasileira, cerca de 580 quilos de redes são perdidos e aproximadamente 69 mil animais marinhos cruzam com esses equipamentos, segundo o estudo Maré Fantasma, conduzido pela Organização Proteção Animal Mundial.
As redes de pesca, feitas de nylon, podem demorar até 600 anos para se decompor — enquanto isso, permanecem vagando pelo oceano e capturando animais. Mesmo a decomposição também gera outro problema: o aumento de microplásticos no oceano.
Em Florianópolis, na região norte da ilha, o Projeto Repescar recolhe redes de pesca em alto mar e as transforma em produtos comerciais, a partir de conhecimentos tradicionais de pescadores redeiros e rendeiras de bilro. Mais de 60 bolsas e 100 esponjas já foram produzidas. O lucro com as vendas é reinvestido no próprio projeto.
Daniella Kolb, fundadora do Projeto Repescar, conta que a iniciativa surgiu em 2021, durante a pandemia. “Eu resolvi fazer uma meditação na praia, mas lá tropecei numa rede de pesca. Levei a rede para casa e comecei a pesquisar sobre o assunto. Fiquei assustada com o tamanho do problema e pensei que precisava fazer alguma coisa”.
Ela relata que resolveu transformar a rede que pegou na praia em uma bolsa. Então, percebeu a oportunidade de aliar a preservação da natureza à valorização da cultura local. “Se você perguntar para algum pescador artesanal se o filho dele é pescador, nenhum é. Porque isso não é valorizado. Assim como as rendeiras de bilro, se a gente falar, tem uma pessoa que é rendeira lá na Lagoa, você pode ter certeza que ela tem 70 anos. É toda uma cultura de Florianópolis que infelizmente está morrendo.” Com essa percepção, rendeiras, pescadores e crocheteiras começaram a fazer parte do Repescar.
A participação no Programa Nascer — promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), em colaboração com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Secretaria de Estado da Ciência Tecnologia e Inovação (SCTI) — foi fundamental para estruturar o projeto, relata Daniela.
O Programa Nascer é uma pré-incubadora que seleciona propostas inovadoras em Santa Catarina e oferece oportunidades desde a pré-aceleração até a consolidação de start-ups. De acordo com Daniela, “o Nascer mudou totalmente o nosso ponto de vista sobre mercado, negócios e finanças. É excelente para tudo, até para vida da gente.”
Em 2024, o projeto foi reconhecido pelo prêmio Floripa Faz Bem, promovido pela NSC TV. “Com a premiação tivemos uma visibilidade maior, mas independente disso, não conseguimos nenhum apoio para tocar o projeto, nem particular, nem da gestão pública. A gente percebe muito desconhecimento. As pessoas falam ‘por que você vai querer salvar tartaruga, tem tanta por aí’. Isso acaba nos desanimando também.”
Além da baixa consciência ambiental, que compromete o número de participantes, o processo de recolher as redes no mar é caro e perigoso. A atividade necessita de equipamentos especiais, assistência de um bombeiro, embarcação e de estudo prévio do local. “É um processo complicado retirar as redes. Então precisaria talvez de uma visita para encontrar, outra para retirar. Ou fazer com muita calma, porque os mergulhadores podem se enroscar nas redes”, explica o mergulhador Leonardo Miranda, que atua no projeto.
A condição do mar, a limpidez da água e os fluxos da maré, também influenciam na capacidade de retirar as redes. “Se a gente conseguisse um apoio da gestão pública, que pegasse a Marinha para auxiliar com barcos, conseguiríamos fazer um trabalho imenso no mar. Porque a Marinha tem os radares sonares daí a gente não perderia tempo para saber onde está o lixo. A Marinha também tem um estudo maior, com ela conseguiríamos saber quando é um dia bom pra sair ou não”, observa Daniella.
A higienização das redes é outro desafio. Primeiro é necessário separar as redes de poliamida das de poliéster. Também é necessário separar o isopor da bóia, as cordas e o anzol. Todo material, como galhos e conchas, que vêm com a rede também precisa ser separado. “Essa separação é a pior de fazer, porque as redes começam a apodrecer se deixar de um dia para o outro”, explica Daniella. Depois, é iniciado o processo de costura e posteriormente a venda dos produtos.
Produtos do Projeto Repescar, confeccionados a partir de redes de pesca fantasma resgatadas em alto mar. Fonte: Arquivo pessoal e Camila Borges.
Bolsas do Projeto Repescar são decoradas por rendeiras de birlo. Fotos: Camila Borges.
Daniella já realizou visitas em escolas para divulgar as ações do projeto e promover a conscientização ambiental sobre as consequências do lixo no oceano. Como ações futuras do Projeto Repescar, Daniella pretende oferecer aulas sobre características da maré, pescaria e cuidados com o mar, como fazer redes e renda de bilro. “Eu queria muito nesse verão fazer a escolinha de pescador, pelo menos. Ensinar as crianças como que entra no mar. Ensinar sobre maré, sobre como pesca, como joga com a tarrafa. A partir da educação a gente traria mais pessoas para o Projeto Repescar, porque elas entenderiam a importância do trabalho que a gente faz. Seria o meu sonho.”






