Lugares de afeto: experiências de jovens LGBTQIA+ em Florianópolis
O que a saída de casa revela sobre jovens LGBTQIA+ e por que, para muitos, a liberdade só começa longe dos ambientes familiares
Por Willian Fabiano da Silva

No Brasil, cerca de 15,5 milhões de pessoas, ou 9,3% da população adulta, se declara LGBTQIA+, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 2022. Mas, para boa parte dessa população, uma atitude simples como voltar para o ambiente familiar, depois de algum tempo distante, não é sinônimo de segurança. A ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais, revelou, por meio do Dossiê Trans 2025, que 71% relatam já ter sofrido exclusão familiar, um número que evidencia como a rejeição começa cedo, dentro do próprio lar.
Finnick Mateus Leal, ou apenas Nick, tem 19 anos e nasceu em Rio do Sul, no Vale do Itajaí (SC). Ainda adolescente, dentro das atividades culturais da cidade, encontrou o primeiro espaço onde se sentiu seguro para dizer quem realmente era. Cercado de pessoas que compartilhavam da mesma paixão pelas artes, ele lembra até hoje de quando pediu algo que deveria ser simples, mas nem sempre é: “Eu não uso pronomes femininos. Vocês podem começar a me chamar só de Nick?”.
Em 2022, enquanto frequentava a Fundação Cultural de Rio do Sul, esse pedido encontrou guarida e os colegas, professores e a rotina das aulas se tornaram importantes pontos de apoio. Nick já carregava, há muito tempo, a sensação de que não era uma mulher cis. Foi só naquele período que conseguiu dar nome ao que sentia: “Ano retrasado, comecei a perceber que sou uma pessoa não-binária”.
Nick cursa Artes Cênicas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desde 2023. A entrada na universidade marcou outra etapa importante na construção de sua identidade. Ele chegou à instituição como Finnick, e, mesmo sem ter os documentos retificados, conseguiu registrar-se nos sistemas internos, um direito garantido pela Resolução Normativa nº 59/CUn/2015, que assegura o uso do nome social por pessoas trans em processos seletivos e registros acadêmicos.
A rotina na universidade ampliou ainda mais seu senso de pertencimento. Para Nick, o campus oferece um ambiente diverso, onde encontrou referências, apoio e convivência com outras pessoas trans, algo que aprofundou sua própria compreensão sobre si. “Quando vim para a UFSC, no primeiro semestre do ano passado, ainda não me via como um homem trans”, lembra. “Foi no convívio diário, conversando e observando outras trajetórias, que isso começou a se firmar na minha cabeça”.
Essa clareza também atravessou sua relação com a família. Dividir a descoberta com os parentes exigiu tempo e diferentes abordagens. Ele recebeu, desde cedo, o apoio da cunhada, que ajudou a transformar as perspectivas do irmão, mais conservador. “A forma como ela lidou com isso acabou influenciando meu irmão. Eu tinha medo de não ser aceito por ele”. Com o tempo, o irmão passou a acolher Nick com naturalidade. “Ele tinha alguns preconceitos , mas mudou muito desde que começou a namorar com ela”, afirma. Até hoje, apenas a mãe tem conhecimento de sua orientação; o pai ainda não.
A família de Felipe* também desconhece sua orientação sexual. O estudante, que nasceu em Canoinhas, se identifica como homossexual e cresceu em um ambiente familiar marcado pelo catolicismo e por discursos conservadores que moldaram, desde cedo, sua percepção sobre quem era. Ao longo da infância e adolescência, a vivência religiosa e o contexto escolar reforçaram a ideia de que sentir atração por outros homens era errado, o que o levou a interpretar a própria identidade como um desvio.
A antropóloga Miriam Grossi, professora da UFSC, especialista em estudos de gênero, a dificuldade de acolhimento dentro de casa afeta diferentes pessoas da comunidade LGBTQIA+. Ela explica que expressões de gênero que escapam ao padrão esperado podem ser percebidas como uma ameaça à masculinidade idealizada dentro de muitos lares brasileiros.
Durante anos, Felipe* tentou negar o que sentia. Nas orações, pedia para que a atração desaparecesse, em uma tentativa de se adequar às expectativas impostas pelas pessoas ao seu redor. Esse conflito interno atravessou grande parte da sua formação até a juventude. Somente na graduação, ao entrar na UFSC, encontrou um ambiente que lhe oferecesse liberdade e referências suficientes para iniciar um processo de aceitação.
Felipe* tem 25 anos, oito deles vividos em Florianópolis, período em que concluiu a graduação e iniciou o mestrado na mesma universidade. Ele acredita que o vínculo com a família seria muito diferente caso pudesse compartilhar integralmente quem é. Essa distância mantida hoje não é apenas geográfica, mas também emocional. Para ele, uma relação pautada pela aceitação permitiria mais sinceridade e reduziria a necessidade de separar sua vida em duas dimensões, a que a família conhece e a que construiu longe de casa.
Grossi explica que quando um filho ou filha se apresenta de maneira diversa do gênero ou da orientação presumida no nascimento, ocorre uma ruptura na expectativa tradicional de continuidade dessa masculinidade. Esse estranhamento, segundo a professora, pode levar alguns pais a reagirem com violência ou controle, reforçando discursos que moldam a socialização masculina desde cedo. A presença de um filho que desafia essas normas costuma ser interpretada como uma ameaça direta à própria honra paterna.
Felipe* conta que, recentemente, conversou com o companheiro sobre como seria comunicar o relacionamento à família. A ideia de anunciar não apenas que está com outro homem, mas que vive uma relação aberta, algo distante dos valores cristãos que marcaram sua criação, ainda lhe soa improvável. Ao lembrar dessa conversa, ele admite até certa ironia diante do contraste entre sua vida atual e as expectativas do meio onde cresceu.
O jovem entende que o ambiente religioso no qual sua família está inserida valoriza a manutenção de uma aparência moral. Isto é, a noção de verdade é filtrada por uma visão cristã que define o casamento como intrinsecamente cisheteronormativo e coloca qualquer forma de rompimento desse padrão no campo do proibido. Por isso, as atitudes que desafiam essa imagem, como a existência de identidades ou relações não normativas, tendem a ser percebidas como ameaças à estabilidade simbólica da comunidade.
O medo de Felipe* está relacionado à maneira como os vizinhos e até mesmo sua própria família irão interpretar o que está acontecendo. Ele vive com o temor constante de ser julgado e punido, um aspecto que identifica como uma característica marcante do cristianismo. “O que pesa é o julgamento dos outros”, revela.
As experiências de acolhimento variam de cada pessoa, mas tem um padrão parecido. Para Maria Fernanda Honório, de 21 anos, reconhecer-se como não binária foi um processo lento e delicado, que ganhou forma apenas no último ano do curso de Jornalismo, quando passou a conversar sobre sua orientação sexual com amigos próximos. Foi também em 2023 que assumiu sua bissexualidade para os pais, um passo importante, embora ainda mantenha sua identidade de gênero em segredo dentro do ambiente familiar.
A vida universitária facilitou esse movimento para Nan — a UFSC foi o primeiro lugar onde conseguiu falar abertamente sobre si, por conviver com pessoas da comunidade LGBTQIA+, construindo uma rede de apoio segura. Amigas da época da escola e uma prima próxima também foram fundamentais para que ela se sentisse à vontade para compartilhar dúvidas, receios e descobertas.
Além do apoio presencial, o ambiente on-line teve papel importante. No X (antigo Twitter), Nan percebeu um espaço onde outras pessoas não binárias falavam de suas vivências com naturalidade, o que ajudou a reconhecer que não estava sozinha. As interações virtuais funcionaram como uma espécie de rede — mesmo diante de comentários hostis, ela sentia que havia quem a defendesse ou a orientasse, reforçando a sensação de pertencimento.
A sensação de acolhimento sentida por Nan não é incomum. Segundo um estudo publicado em 2025, pelo Journal of Computer – Mediated Communication, jovens entre 15 e 22 anos mostraram que postar sua identidade nas redes sociais, com certa frequência e de modo autêntico, está associado ao aumento na autoestima e autoaceitação, principalmente quando os jovens recebem mensagens ou reações de apoio.
Sair de casa para, enfim, viver
Luís chegou a Florianópolis em 2023, vindo de Porto Alegre (RS). Casado há oito anos, ele cresceu em um ambiente tradicionalista, marcado pela cultura dos CTGs (Centro de Tradição Gaúcha), onde expressões de masculinidade rígida eram a norma. Desde cedo, percebeu que sua sexualidade não se encaixava nessas expectativas e, ainda na adolescência, buscou se relacionar afetivamente com outros homens como forma de compreender quem era. O processo não foi fácil.
O período do Natal revela parte das contradições que atravessam sua história. Luís conta que a data sempre foi marcada por um impasse: por um lado, carregava o desejo de estar com a família; por outro, sabia que não poderia levar o parceiro, o que tornava a celebração um momento de silenciamento e tristeza. Mesmo após o casamento, esse dilema persistiu, já que dividir o feriado entre sua mãe e seu marido, sem gerar sofrimento, parecia impossível .
A antropóloga Miriam Grossi observa que parte dessas dificuldades está ligada à herança cultural do catolicismo no Brasil. Ela explica que a tradição cristã consolidou, ao longo de séculos, normas rígidas sobre moral e sexualidade. Durante o período colonial, essas regras foram reforçadas pelo contexto da Inquisição ibérica, que classificava práticas homoafetivas masculinas como pecado e crime. Estudos históricos, como os do pesquisador Luiz Mott, mostram como essa visão foi incorporada ao sistema social brasileiro e continua influenciando comportamentos familiares e coletivos.
Essa herança cultural também se manifesta em períodos como o Natal, frequentemente lembrado por pessoas LGBTQIA+ como momentos de constrangimento e desconforto. Grossi explica que as festas familiares costumam reforçar expectativas heteronormativas: todos podem apresentar seus parceiros, menos quem não se enquadra no modelo tradicional. Piadas e perguntas como “cadê a namorada?” ou “e o namorado?” funcionam como lembretes de que a heterossexualidade é vista como norma.
Atualmente vivendo em situação de rua com o marido, Luiz busca apoio no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), onde o casal recebe acompanhamento social, alimentação e um espaço seguro enquanto tenta reconstruir a rotina e recuperar estabilidade. Depois de perder moradia e renda, em 2022, os dois passaram meses circulando entre pousadas muito caras e locais improvisados pela prefeitura, como a Passarela Negro Quirido, até conseguirem acesso ao serviço. No abrigo, encontraram não apenas atendimento, mas a chance de reorganizar a vida longe do ambiente familiar.
Outros espaços de acolhimento
Para alguns jovens, especialmente aqueles que perderam vínculos familiares, o acolhimento só é encontrado em organizações de apoio voltadas à comunidade LGBTQIA+, como a Casa 1, na cidade de São Paulo, umas das referências no país. A ONG recebe pessoas de 18 a 25 anos que sofreram discriminação por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Viviane Suzane Martinhão, colaboradora do projeto, diz que a casa oferece atendimento psicológico, assistência social, acompanhamento em saúde e orientação profissional por meio de uma equipe multidisciplinar.
Além dos serviços clínicos, a Casa 1 possui uma agenda de atividades culturais e formativas como oficinas de arte, cursos profissionalizantes, atividades corporais e expressivas, com iniciativas que reforçam a autonomia e fortalecem vínculos. A instituição recentemente se tornou um ponto de cultura, com apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e financiamento da Born This Way Foundation, promovendo oficinas de costura, crochê, Muay Thai, teatro e outras práticas que ajudam a reconstruir a autoestima das pessoas atendidas. A Casa 1 conta com voluntários e se mantém por meio de campanhas de financiamento coletivo, parcerias com empresas, doações individuais e participação em editais de fomento, já que não recebe financiamento governamental direto. Esses recursos, explica Viviane, são essenciais para a continuidade dos serviços oferecidos, que atendem 3.500 pessoas por mês. Por motivos de segurança e preservação da identidade, não foi possível entrevistar seus moradores.
Em Florianópolis também existem serviços não-governamentais de acolhimento de pessoas LGBTQIA+ em situações de violência. O Espaço Acolher Floripa, por exemplo, oferece atendimento integrado nas áreas da saúde e da segurança pública, funcionando 24 horas por dia, enquanto a Associação em Defesa dos Direitos Humanos (ADEH) desenvolve ações voltadas ao acolhimento, à promoção de direitos e ao enfrentamento da violência contra a população LGBT, com atenção especial a travestis e pessoas transexuais.
Dados recentes reforçam a importância desses espaços. Um estudo do Ipea de 2023 registrou aumento da violência contra a comunidade LGBTQIA+ no Brasil, entre 2020 e 2021: agressões físicas contra homossexuais subiram 14,6%; contra pessoas trans e travestis, 9,5%; e contra bissexuais, 50,3%. A violência psicológica, no mesmo período, cresceu 20,4%.
Reportagem produzida para a disciplina Linguagem e Texto Jornalístico IV, ministrada pela Profa. Dra. Vanessa Lehmkuhl Pedro, no semestre 2024.1. Reescrita e edição realizada com orientação da Profa. Dra. Tattiana Gonçalves Teixeira

